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Quanto mais nota, melhor
04/03/2010
A professora americana Natalia Fuller, de 26 anos, lida com uma turma difícil. Ela ainda se recorda de como sofria no começo para controlar as crianças, que às vezes rasgavam a lição e gritavam com ela. "Pensava, meu Deus, o que estou fazendo aqui? Por que escolhi esta profissão?" No fim do ano, Natalia não estava mais com o cabelo em pé. Numa noite de dezembro, vestiu a melhor roupa e foi a um jantar receber um prêmio por seu trabalho.
Formada há pouco mais de um ano, Natalia ganha o salário típico para um professor com sua experiência, US$ 5 mil por mês. Mas no fim do ano recebeu bônus de US$ 3 mil pela maneira como lidou com a turma. Ela integra um grupo de 279 professores e diretores de uma dúzia de escolas beneficiadas por um programa inovador adotado no condado Prince George, no Estado de Maryland, que vincula parte da remuneração dos professores ao seu desempenho nas salas de aula. O programa distribuiu US$ 1,1 milhão em bônus em 2009.
Os professores que participam do programa podem receber até US$ 10 mil por ano além do salário. O valor é definido de acordo com vários critérios, como o desempenho geral da escola, os resultados das provas feitas pelos alunos e a observação direta do trabalho do professor em classe. Quem entra em programas de desenvolvimento profissional, assume responsabilidades na administração da escola ou aceita encarregar-se de alunos com necessidades especiais acumula mais pontos.
Experiências como a do condado onde Natalia dá aulas têm recebido atenção de autoridades e especialistas nos EUA. O governo federal dobrou o orçamento de um programa que financia iniciativas desse tipo nos Estados, destinando US$ 200 milhões a 34 projetos em andamento. Parte dos US$ 4 bilhões que o presidente Barack Obama promete distribuir neste ano para reformar o sistema público de ensino nos Estados vão para novos projetos. No Brasil, os governos do Estado de São Paulo e de Pernambuco adotam programas semelhantes.
Como o Brasil e outros países, os EUA remuneram seus professores de acordo com critérios iguais para todos, como o tempo de serviço e os títulos acumulados na carreira. Mas um coro crescente de especialistas considera esse modelo insuficiente para gerar os incentivos necessários para melhorar o desempenho dos professores e de seus alunos. "Esses critérios tornaram-se obsoletos", diz Robin Chait, pesquisadora do Centro para o Progresso Americano, de Washington.
Pode soar estranho, mas até hoje nenhum estudo comprovou que a experiência do professor seja um fator decisivo para o aprendizado dos seus alunos. Pesquisas sugerem que a maioria dos professores se esforça para progredir nos primeiros cinco anos da carreira e depois se acomoda. Títulos que ajudam os professores na hora da promoção às vezes são obtidos em instituições de má qualidade, que em nada contribuem para aperfeiçoá-los.
Para os críticos do modelo tradicional, a oferta de bônus por desempenho ajuda a recrutar professores mais talentosos justamente para as escolas e as disciplinas em que eles são mais necessários. Um estudo realizado por Richard Ingersoll, da Universidade da Pensilvânia, mostra que a maioria dos professores que abandona o trabalho o faz por achar o salário baixo. Em regiões mais pobres, 70% dos professores entrevistados disseram que continuariam ali se ganhassem um aumento.
Os professores gostam de apontar as condições do local de trabalho, como número de alunos por classe e tempo para planejar, como fator mais importante para seu desempenho do que o salário que recebem. Mas o economista Dan Goldhaber e seus colegas na Universidade do Estado de Washington descobriram numa pesquisa recente que a maioria dos professores optaria pelo dinheiro se tivesse de escolher entre um aumento de US$ 5 mil ou um pacote de mudanças em suas condições de trabalho.
Embora exista hoje consenso sobre a importância de avaliar o desempenho dos professores, existem dúvidas sobre a melhor maneira de fazer isso. Muitos participantes desse debate se comportam às vezes como se o ensino fosse uma espécie de sacerdócio que deveria ser poupado de avaliações muito rigorosas. Mas a experiência americana com programas de incentivo tem ajudado a descobrir o que funciona melhor nessa área.
Um aspecto importante é a clareza com que os critérios usados para avaliar os professores são estabelecidos. "Os professores precisam saber o que estão fazendo direito e em que podem melhorar", diz Frank Felice, consultor que assessora projetos de incentivo em Nova York. Em muitas escolas americanas, basta chegar ao trabalho no horário ou tomar providências rotineiras, como anotar na lousa as atividades previstas para o dia, para que um professor tenha avaliação satisfatória. "É preciso olhar a capacidade do professor de se comunicar com seus alunos e envolvê-los nas aulas, por exemplo", disse Felice.
Vários programas em andamento nos EUA incluem o desempenho dos alunos nas provas e sua evolução ao longo do ano entre os critérios usados para avaliar os professores e definir o valor do seu bônus. Mas muitos especialistas acreditam que é preciso tomar cuidado para evitar que isso incentive os professores a treinar seus alunos para que se saiam bem nos testes em vez de ensiná-los realmente a pensar e estudar sozinhos.
Nos EUA, os sindicatos dos professores sempre foram contrários a programas de incentivo associados ao desempenho dos professores e têm boicotado várias iniciativas desse tipo. Mas em alguns lugares os sindicatos têm colaborado com o desenvolvimento desses programas. "O pagamento por mérito não é a única solução para os problemas do sistema educacional, mas pode ajudar", diz Lewis Robinson, diretor do sindicato que representa os professores do condado Prince Georges.
Robinson participou do projeto desde a concepção inicial do programa. Uma de suas prioridades foi assegurar que os resultados das provas dos alunos não tivesse peso dominante na avaliação do desempenho dos professores.
O dinheiro desses programas pode ajudar a atrair e encorajar bons professores, mas nem todo mundo concorda com a ideia de que o incentivo os faça trabalhar melhor. "A maioria já faz o melhor que pode", diz Robin Chait, especialista do Centro para o Progresso Americano. "O bônus deve ser visto mais como uma recompensa pelo trabalho bem feito".
No jantar em que Natalia recebeu seu cheque, a professora Bobbie Shockey, 61, apareceu vestindo o mesmo avental branco que usa todo dia na escola em que trabalha. Ela foi recebida por fotógrafos ao entrar no salão e garçons lhe serviram comida. "Isso é um reconhecimento do nosso trabalho", diz Bobbie, que saiu de lá com US$ 7 mil no bolso. "Entrei nesse programa pelo dinheiro, mas sou professora há 37 anos e ainda estarei ensinando depois que o programa acabar".
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Brasil implantou sistema em 2009
No Brasil, os governos de São Paulo e de Pernambuco adotaram, a partir do ano passado, programas de bônus não só para professores, mas para todos os trabalhadores da educação pública. Trata-se de incentivo relacionado ao avanço das escolas nos índices de avaliação de desempenho. No Estado nordestino, 18.570 servidores (16.372 professores) receberam R$ 28,8 milhões do Bônus de Desempenho Educacional (BDE). De acordo com a Secretaria Estadual de Educação, 81% das escolas da rede registraram melhora nos indicadores de qualidade.
Já em São Paulo, 195.504 profissionais da rede pública de ensino, sendo160 mil professores, dividiram R$ 590,6 milhões em bonificações no ano passado. Além disso, o governo paulista começou neste ano o Programa de Valorização pelo Mérito (PVM), que prevê a quadruplicação do salário inicial do magistério e promoções. Os aumentos podem ser pleiteados de três em três anos e devem respeitar cinco faixas salariais. Os critérios são assiduidade, tempo de permanência em um única escola e bons resultados em provas periódicas. Atualmente, a remuneração inicial do professor público em São Paulo, com jornada de 40 horas semanais, é de R$ 1.834,85. Se ele passar por todas as etapas do PVM, o contracheque poderá engordar 242% ao longo da carreira, chegando a 6.270,78. Pelas regras vigentes até então, a elevação máxima de salário seria de 73%, diz Paulo Renato, secretário Estadual da Educação.
Neste mês, os docentes fazem a primeira avaliação do PVM. Os 20% mais bem colocados terão reajuste de até 25%. Esse afunilamento na concessão dos aumentos é um ponto polêmico. O sindicato de professores do Estado (Apeoesp) reivindica a inclusão de toda a rede no programa. "Não posso ser irresponsável com o orçamento. O sistema não é excludente porque todo mundo pode participar todos os anos", afirma o secretário. Por Luciano Máximo.
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Autor: Adriana Abujamra
Email do Autor: n.d.
Fonte: Valor Econômico
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