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Edição 445, Porto Alegre, 16/04/2008  
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Chasing The Flame

Livro:
Chasing The Flame
Autor:
Samantha Power
Artigo:
Um personagem interessante em um mundo desbotado
Por Gustavo Grisa*

Especial para a Revista Digital

A principal mensagem que “Chasing the Flame”, biografia escrita e lançada nos EUA de Sérgio Vieira de Mello, fixa para nós, brasileiros, é a noção clara do que significa ser verdadeiramente cosmopolita e global, e não apenas internacionalizado pelas circunstâncias. O livro de Samantha Power, vencedora do Prêmio Pullitzer em 2003 e professora de Harvard é um claro produto do establishment anglo-saxão que domina as relações internacionais e o diálogo econômico. E dentro dessa perspectiva, que ainda move e puxa o mundo, Sérgio atuou e dialogou, sem perder seus princípios. Integrando-se sem ser subserviente.

A narrativa de Power mostra um executivo das questões internacionais mais voltado à prática do que à intelectualidade diletante, e evidencia pontos que fazem de Sérgio um personagem interessante e desassombrado em um mundo cada vez mais desbotado por intelectuais e políticos que agem como avestruzes, como a excursão sem cobertura ou segurança para conversar com os líderes do Khmer Vermelho no Camboja, ou os diálogos com as milícias no Líbano. A perspectiva de Sérgio é naturalmente global e forjada na ONU como corporação, muito mais do que uma visão brasileira ou latino-americana. Por essa razão se integra tão naturalmente a colegas de trabalho de diferentes perfis e se envolve em países que ainda temos como remotos ou exóticos. Por algumas vezes, chega a se exasperar quando é examinado pela ONU para promoções como cidadão brasileiro, e não como empregado da organização, pura e simplesmente.

Fica claro que Sérgio entra pela porta da frente deste establishment mundial e não sai mais. É também evidente a ambição velada pela secretaria geral da ONU, uma possibilidade que eventualmente esbarraria no rodízio de nacionalidades e em frescuras sobre a sua vida pessoal, típica do mesmo meio que o incensou. Aparecem detalhes desconhecidos de sua personalidade, como o seu gosto – moderado, segundo Power- por um bom scotch e seu fraco (?) pelo sexo oposto, na tentativa de evidenciar um “personagem”, além do profissional. Como toda personalidade exuberante, Sérgio também sofre algumas maldades: é chamado de “Serbio” quando está em Kosovo e patrulhado pela esquerda antiquada como pró-americano quando aceita missões como a de Bagdá. Seu estilo de gestão nem sempre é eficaz e sua personalidade não é plenamente virtuosa, como às vezes biografias querem imputar. Alguns elementos contribuem para a construção de um personagem mítico, como sua formação em Filosofia pela Sorbonne e o fato de ter sido golpeado no olho durante os acontecimentos de 1968 em Paris. Sérgio também faz uma cruzada gradual de um esquerdismo radical para o pragmatismo e leitura de um mundo complexo e múltiplo, que se consolida na década de 90. Assim como aparentemente se perde nas brumas do conflito ioguslavo, tem seu grande momento de glória com a construção de um país - o Timor Leste. Foi gestor e executor, com aversão à burocracia e salamaleques, nos lugares em que ninguém gostaria de estar, mas adoraria contar que esteve.

Sérgio não sobreviveu para contar suas histórias, até por que provavelmente teria mais o que fazer. Fica espaço para alguma especulação, que passa ao largo do livro de Power: Sérgio, nos últimos anos, se mostrava cada vez mais brasileiro e se interessava cada vez mais pelo Brasil. Aprimorava seu lado político e conciliador. O seu destino, pela exposição da mídia e pelo caráter heróico em um mundo carente de perfis heróicos, dificilmente escaparia de três caminhos: o prêmio Nobel da Paz, a secretaria-geral da ONU ou até mesmo, se as circunstâncias conspirassem e suas ambições pessoais e o quadro político convergissem, a Presidência do Brasil.

Em um mundo em que muitos querem ser, Sérgio Vieira de Mello era. Para entender globalização na veia, o livro vale a compra, a leitura e a recomendação.

*Gustavo Grisa (www.gustavogrisa.com.br) é economista.
Autor: Samantha Power
 
Acesse as edições anteriores:
 
Nova York delirante - Um manifesto para Manhattan
de Rem Koolhaas .

Leia a resenha
 
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