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História do Design Gráfico
Livro:
História do Design Gráfico
Autor: Philip B. Meggs
Artigo: Design com identidade
Por Victor Burton
Publicado originalmente no jornal O Globo
No começo dos anos 80 do século passado, um professor de design da Virgínia, Philip Baxter Meggs, então com 40 anos, cansou de não encontrar um estudo compreensivo da história de sua disciplina. Simplesmente não existia este livro. Ele empreendeu então uma obra poderosa: História do design gráfico, que publicou pela primeira vez em 1983. Ao fazer isto esse educador e designer fez muito mais do que preencher uma lacuna da biblioteca de sua universidade. Ele definiu sua disciplina. Pela simples escolha de um título tão ambicioso, Meggs sabia que seus possíveis leitores compreenderiam que aquele campo havia emergido e se destacado completamente da arte comercial, da publicidade, das atividades da imprensa e, claro, daquilo que se poderia chamar genericamente de arte, para adquirir uma identidade própria.
Restava contar esta história. E, segundo Meggs, relacioná-la com a História. Isto porque Meggs jamais aceitou uma visão limitadora do design gráfico, visto por muitos como uma disciplina estreitamente ligada e quase provocada pela Revolução Industrial e pela expansão do capitalismo moderno. Ele sempre entendeu que o design gráfico só podia ser plenamente entendido no contexto histórico, como testemunha de todas as mudanças da sociedade. Seu livro, que só poderia ser monumental, começa com a própria História, com o surgimento da escrita. E como considerar que estes primeiros sinais gráficos poderiam estar fora de uma narrativa do design? No entanto, outros “historiadores” do design, como o neomarxista Richard Hollis em seu “Design gráfico — Uma história concisa” (Martins Fontes, 2001) — que foi escrito bem depois do clássico de Meggs —, começam seus relatos pela incontornável era vitoriana, considerando que o design só poderia ser parte e instrumento da expansão da era industrial. Este parece ser também o marco de nascimento para Steven Heller e Seymour Schwast em seu “Graphic Style, From Victorian to Digital” e de muitos outros sucedâneos que não cabe analisar aqui.
Da pré-História até a era da informação
De fato a própria palavra design só se firma após a Segunda Guerra Mundial, nos Estados Unidos. A tentação sempre foi reduzir a atividade à sua codificação “moderna” ou modernista. Como se fosse uma profissão que surgisse sobre terra arrasada, tal qual o próprio modernismo. Como se o livro impresso que surge, como todos nós sabemos, ainda no século XV, e sem o qual o Renascimento seria um mero passatempo de clube aristocrático, não fosse evidentemente o primeiro produto seriado ( e portanto “industrial”) da História. Como negar que Gutemberg, quando realiza sua primeira Bíblia, é o autor do primeiro projeto gráfico da História? Gutemberg, Aldo Manuzio e Claude Garamond, entre tantos outros, pelo visto não sabiam o que era design. Apenas realizaram algumas das mais belas páginas gráficas da História do design. Mas eles não sabiam que eram designers...
Em muitas de nossas escolas de design, algumas delas ainda filhas do primeiro modernismo “heroico”, esta visão ainda viceja. Meggs mostra que esta abordagem é mais do que reducionista.
O opus de Meggs começa na pré-História e se estende até a era da informação. Para ele, “design gráfico” não é só uma determinada profissão restrita a uma mera definição histórica. O plano editorial de Meggs inclui um conjunto de capacidades e objetos que vai de grafismos rupestres, artefatos de culturas pré-literárias, variadíssimas formas de expressão visual como sinetes, documentos escritos, jogos de carta, xilogravuras religiosas, até chegar ao webdesign. Em outras palavras, ele considera que design gráfico pode ser trocado por “comunicação visual”, e por consequência ele enxerga um único continuum histórico marcado por conquistas tecnológicas determinantes de grandes mudanças culturais.
Como toda obra de tamanha ambição, esta também não escapa de alguns problemas, como a estranha definição do termo rococó, visto como “derivado da natureza, da arte clássica e oriental” (oriental?). Se há algo que diferencia o rococó do barroco é justamente o total afastamento da representação da natureza (antropomórfica), chegando em seus melhores momentos à pura abstração do movimento. No retrato de Bodoni e da dinastia dos Didot, o autor coloca estes geniais criadores tipográficos corretamente em seu contexto neoclássico, mas falha ao colocar a eclosão do movimento “nos anos 1790”, ignorando que o neoclassicismo já estava plenamente presente nas obras dos arquitetos reais como Boullée e Ledoux, e não foi um produto dos dramáticos eventos de 1789, sendo já o estilo favorito da nobreza europeia pelo menos 20 anos antes da Revolução.
Erudição consistente e vasta bibliografia
Outros críticos mais acadêmicos poderão ver no texto de Meggs uma visão por vezes demasiado positivista, “heroica”, de indivíduos quase autônomos, “geniais”, como que destacados de um cursus maior e determinante. Visão esta muito típica da cultura individualista americana, à qual Meggs dificilmente poderia escapar totalmente. Seu esquema positivista de rígido concatenamento cronológico dos movimentos estéticos e das revoluções tecnológicas é as vezes ingênuo, e não dá sempre conta de movimentos simultâneos e até contraditórios. Vale citar o difícil relato da experiência utópica de um William Morris, que em plena Inglaterra vitoriana, em plena Revolução Industrial, advoga um retorno a práticas artesanais anti-industriais ( “prérafaelitas”) e, no entanto, acaba contribuindo decisivamente para um progresso real do livro ilustrado moderno.
Este e outros pequenos reparos não invalidam a estatura clássica da obra. Dificilmente surgirá outro livro que possa competir com sua ambição. Meggs demonstra quase sempre uma consistente erudição e se vale sempre de uma vastíssima bibliografia. Sobretudo, em uma obra deste fôlego, o que mais impressiona é a capacidade de estabelecer uma narrativa cativante sem jamais ceder à tentação do superficial.
Esta obra se encontra hoje em sua quarta versão, já com a ajuda de Alton W. Purvis — Meggs morreu em 2002 —, que cuidou de sua atualização até as linguagem digitais. A editora Cosac Naify nos traz este livro em esplêndida e completa edição, mantendo e até aprimorando toda a sua riqueza iconográfica. É livro obviamente obrigatório para os muitos estudantes de design. Afinal, como diz Purvis em seu prefácio, “A responsabilidade é de cada um de nós: para evitar a reinvenção e o plágio involuntário, precisamos ser alfabetizados historicamente”. Mas certamente seu público não se limita ao âmbito universitário. Qualquer pessoa minimamente interessada na história das artes aplicadas, e que sabe que esta narrativa não pode ser entendida fora da História, deveria desejar esta obra.
O autor deste artigo, Victyor Burton, é designer
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| Autor:
Philip B. Meggs
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