| |
Nova York delirante - Um manifesto para Manhattan
Livro:
Nova York delirante - Um manifesto para Manhattan
Autor:
Rem Koolhaas
Artigo:
Arquitetura do delírio
Por Suzana Velasco
Publicado originalmente no jornal O Globo
O arquiteto holandês Rem Koolhaas imagina que, mesmo antes de Manhattan ser fundada, as regras para seu futuro desenvolvimento já existiam — ainda que num lugar impalpável, como no mundo platônico das idéias. Sua ambição, em Nova York delirante - Um manifesto para Manhattan — publicado pela Cosacnaify 30 anos após seu polêmico lançamento — era reunir esses parâmetros, que geraram uma “arquitetura despudorada”, escrevendo um texto fundador de Manhattan, retroativamente, em 1978. Para Koolhaas, esses parâmetros já determinavam o crescimento da ilha três séculos antes, quando os holandeses começaram a pensar no traçado da Nova Amsterdã.
O livro não é uma crítica ao capitalismo especulativo que teria devorado a cidade, como já se disse simploriamente sobre ele. Num misto do que o historiador Adrián Gorelik denomina, no prefácio, de manifesto arquitetônico e interpretação urbana, Koolhaas demonstra seu encantamento com o radicalismo da experiência de Manhattan, que entrou em decadência, para ele, após a Segunda Guerra Mundial. Com seu característico humor ácido, o arquiteto, ex-jornalista e ex-roteirista de cinema se auto-intitula o ghostwriter do manifesto, o “manhattanismo”.
De acordo com Koolhaas, as regras primordiais do desenvolvimento urbano da cidade se deram a partir da demarcação de uma rede na cidade, que, em 1811, dividiu-a em 2.028 quadras fixas para exploração imobiliária (as famosas ruas paralelas e numeradas de Manhattan, cortadas pelas avenidas, formando uma retícula). A partir daí, a já então limitada expansão de Manhattan — por sua geografia insular — ficou ainda mais restrita. Cada quadra teria que se multiplicar para o alto — o que, com a tecnologia dos elevadores, originou o arranha-céu.
Na teoria de Koolhaas — e esse é um dos maiores méritos do livro, o delírio surrealista, bem-humorado e por vezes paradoxal sobre o tecido urbano real de Nova York, a partir de uma base de relato histórico —, esses arranha-céus se tornaram, na primeira metade do século XX, a chave do “manhattanismo”, não pela simples especulação imobiliária, mas como uma solução para a formação de novos mundos, diferentes entre si, dentro de quadras fixas, iguais. O conceito da retícula incorpora regulação e liberdade ao mesmo tempo: dentro de uma área restrita pode-se construir livremente.
Esse paradoxo, base do “manhattanismo”, leva a um “urbanismo hedonista”, que tenta dar prazer ao cidadão da metrópole fora da realidade. Quem vê o exterior do arranhacéu não tem idéia do que ele pode revelar em seu interior. Koolhaas busca na história de Nova York exemplos inusitados de verdadeiras cidades dentro da cidade, tentando tornar a ilha 2.028 ilhas diferentes, disputando atenção para si.
O Downtown Athletic Club é um símbolo da teoria. Cada um de seus 38 andares oferece ao visitante uma atração social: um campo de golfe tipicamente inglês, uma piscina, um setor de massagens e, o mais inusitado, um vestiário que une uma sala de boxe e um bar de ostras. Como diz Koolhaas — e mostra a hilária ilustração dos homens nus que degustam os moluscos com luvas de boxe —, “o fantástico suplanta o utilitário em Manhattan”. Esse teor fantástico é analisado pelo arquiteto já no século XIX em Coney Island (ao sul do Brooklyn), que reuniu os mais bizarros parques de diversões e foi uma espécie de laboratório para a Manhattan do século XX. Essa análise é também visual. O livro reúne 217 imagens, entre ilustrações — algumas de arquivos históricos e outras criadas pela mulher do arquiteto, Madelon Vriesendorp —, fotos, esboços e plantas de edifícios.
Ainda que aponte, em Nova York delirante, a progressiva diminuição da importância do papel do arquiteto na configuração urbana da ilha, no início do século XX, Koolhaas revela fascinação por esse mecanismo inconsciente, que chega a seu clímax, segundo ele, no Empire State Building. A partir dele, a ilha estaria consciente de sua missão e o exemplo disso é a construção do imponente Rockefeller Center, a que o arquiteto dedica um capítulo inteiro.
Como um manifesto fictício, o livro é uma argumentação pela cidade, e não um julgamento contra ela. Nesse contexto, a crítica se volta à arquitetura de Le Corbusier, que reage à configuração da ilha mesmo antes de conhecê-la, como um “detetive paranóico que rejeita a cena do crime”. Em oposição ao surrealismo de Salvador Dalí, que se encantou com Nova York, o idealismo modernista decreta a decadência do “manhattanismo” no pós-guerra. A curva pede espaço e o arranhacéu se torna — como as torres gêmeas do World Trade Center, criadas na década de 1960, e vítimas de uma catástrofe impensada nos anos delirantes do “manhattanismo” — um mero prédio alto, que multiplica a base do terreno em seus andares, mas não leva mais, em si mesmo, atividades díspares e fantásticas.
|
| Autor:
Rem Koolhaas
|
| |
|
|