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Estética da Multidão
Livro:
Estética da Multidão
Autora:
Barbara Szaniecki
Artigo:
A percepção dos impérios
Por Ricardo Miranda
Rei com viés mercadológico, publicitários entronando políticos, líderes mundiais que provocam, por onde passam, manifestações barulhentas e performáticas. Tudo isso registrado em imagens que, com a força da tecnologia, correm o mundo como vozes sem fronteira. A designer com pendor de cientista política Barbara Szaniecki, 41 anos, decidiu estudar onde começou, que rumos tomou e por onde anda uma das maiores invenções da sociedade organizada desde que o homem se dividiu entre líderes e seguidores: o cartaz político, entendido como todo tipo de meio usado, incluindo a arte, como expressão de adesão ou protesto.
Estética da multidão (Editora Civilização Brasileira, 128 páginas mais encarte), livro que Barbara acaba de lançar, faz uma análise dos cartazes de propaganda política ao longo da história e de sua relação com o poder instituído. Desde Luís XIV, um dos primeiros a aproveitar a mão-de-obra artística para distrair o povo, até Hitler e outros políticos modernos, como George W. Bush, vítima dos protestos globais mais criativos dos últimos tempos, todos são alvos do poder exercido por sua própria imagem. Do outro lado do balcão, o livro analisa o significado político, social e cultural de movimentos como o de 1968, que varreram o planeta reinventando os protestos de rua - e as formas de exibir esse protesto.
Sempre gostei do cartaz político, conta a designer carioca com sobrenome e ascendência polonesa, graduada pela École Nationale Supérieure des Arts Décoratifs, em Paris, com a monografia A comunicação pública”, e doutoranda pelo Departamento de Artes e Design da PUC, no Rio de Janeiro. A paixão platônica virou objeto de estudo depois de assistir a uma exposição no Centro Cultural Banco do Brasil chamada Gráfica Utópica, sobre a arte gráfica russa entre 1904 e 1942. Ali surgiu o interesse em produzir Estética da multidão, segundo volume da coleção A Política no Império, coordenada pelo cientista político Giuseppe Cocco. A pesquisa começou da minha observação dos movimentos globais, como as manifestações contra o Bush e a guerra. E percebi que havia linguagens visuais que estavam sendo exploradas nessas manifestações, um certo tom carnavalesco e debochado. Um tom de desconstrução do poder, explica Barbara Szaniecki, que encerrou suas pesquisas em 2003, ano em que o presidente americano George W. Bush iniciou sua escalada belicista atacando o Iraque. A ocupação segue após quatro anos e sua obra nasce mais atual do que nunca.
Todos contra Bush
Estética da multidão, que tem um encarte rico em exemplos da criatividade das ruas, guarda um bom espaço para as imagens contra Bush, como um cartaz baixado da internet, que diz George Bush is the thief of Baghdad (George Bush é o ladrão de Bagdá), com o líder americano vestido como um sinistro Lawrence da Arábia, e outro, A derrotar la guerra imperialista (Derrotar a guerra imperialista), seguido da afirmação los yankees asesinos non pasarán (Os ianques assassinos não passarão), pôster convocando para uma marcha anti-Bush no México. A recente passagem de Bush pela América Latina, inclusive o Brasil, acompanhada por um séquito de manifestações de protesto, coroaram de vez o mandatário americano como o preferido no temperamental mundo dos cartazes políticos. Essas manifestações têm um papel importante, mas só a história vai poder revelar o que elas conseguiram efetivamente, pondera a pesquisadora. Com olhos voltados para meios tão diversos como acervos de museus e sites, a designer rapidamente percebeu que o cartaz político que pretendia estudar não poderia se limitar ao objeto de papel e tinta, mas se expandiria para outras formas de manifestação, que variam conforme a época (pinturas, no século 17) e os avanços tecnológicos de produção e reprodução (camisetas e faixas, nas passeatas, e charges políticas na internet).
Recuo no tempo
Para entender o cartaz político contemporâneo, voltei no tempo e cheguei até maio de 1968, explica a professora, referindo-se às manifestações de rua ocorridas na França, patrocinadas especialmente por operários e estudantes, que acabaram clonadas em movimentos contestadores por todos os cantos do planeta. Nesse momento houve uma mundialização de certas formas de luta. Embora os cartazes de maio de 1968 não sejam esteticamente tão bonitos quanto a arte gráfica russa no início do século passado, eles são um marco, aponta a professora, que se ancorou nos ensinamentos de Michel Foucault, o filósofo francês que estudou como poucos as incoerências e inconsistências do poder. Mas a pesquisa de Barbara Szaniecki não regrediu apenas até 1968, o ano que não terminou. Ela desceu até o século 17 no reinado do Rei-Sol. Luís XIV fazia algo parecido com um campanha publicitária. Foi o primeiro cara que começou a pensar essa questão da imagem de forma mais sistemática, explica ela. Mas a imagem que, segundo a pesquisadora, melhor representa a gênese do cartaz político é o quadro Las Meninas, de Diego Velázquez, de 1656, segundo ele um marco de uma forma de representação do poder. A obra exposta no Museu do Prado, em Madri, retrata a pompa da família real da Espanha, com o próprio Velázquez, num insólito auto-retrato, observando e registrando a cena. Curiosamente, a estética da multidão, garimpada por Barbara Szaniecki ao longo dos séculos, não é uma jóia lapidada. Ela não está aí pronta, está se definindo, em processo. Não dá para dizer que essa ou aquela é a estética de multidão, pronta para consumo e reprodução, afirma ela.
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