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Edição 559, Porto Alegre, 17/05/2007  
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Estética da Multidão

Livro:
Estética da Multidão
Autora:
Bar­bara Szaniecki
Artigo:
A percepção dos impérios
Por Ricardo Miranda

Rei com viés mercadológico, publicitá­rios entronando políticos, líderes mundiais que pro­vocam, por onde passam, mani­festações barulhentas e performá­ticas. Tudo isso registrado em ima­gens que, com a força da tecnolo­gia, correm o mundo como vozes sem fronteira. A designer com pendor de cientista política Bar­bara Szaniecki, 41 anos, decidiu estudar onde começou, que ru­mos tomou e por onde anda uma das maiores invenções da socie­dade organizada desde que o ho­mem se dividiu entre líderes e se­guidores: o cartaz político, enten­dido como todo tipo de meio usa­do, incluindo a arte, como expres­são de adesão ou protesto.

Estética da multidão (Editora Civilização Brasileira, 128 pági­nas mais encarte), livro que Barbara acaba de lançar, faz uma análise dos cartazes de pro­paganda política ao longo da his­tória e de sua relação com o po­der instituído. Desde Luís XIV, um dos primeiros a aproveitar a mão-de-obra artística para dis­trair o povo, até Hitler e outros políticos modernos, como Geor­ge W. Bush, vítima dos protestos globais mais criativos dos últi­mos tempos, todos são alvos do poder exercido por sua própria imagem. Do outro lado do bal­cão, o livro analisa o significado político, social e cultural de mo­vimentos como o de 1968, que varreram o planeta reinventando os protestos de rua - e as formas de exibir esse protesto.

Sempre gostei do cartaz polí­tico, conta a designer carioca com sobrenome e ascendência polonesa, graduada pela École Nationale Supérieure des Arts Décoratifs, em Paris, com a mo­nografia A comunicação pública”, e doutoranda pelo Departa­mento de Artes e Design da PUC, no Rio de Janeiro. A paixão platô­nica virou objeto de estudo depois de assistir a uma exposição no Centro Cultural Banco do Bra­sil chamada Gráfica Utópica, sobre a arte gráfica russa entre 1904 e 1942. Ali surgiu o interesse em produzir Estética da multi­dão, segundo volume da coleção A Política no Império, coordena­da pelo cientista político Giuse­ppe Cocco. A pesquisa começou da minha observação dos movimentos globais, como as manifestações contra o Bush e a guer­ra. E percebi que havia lingua­gens visuais que estavam sendo exploradas nessas manifesta­ções, um certo tom carnavales­co e debochado. Um tom de desconstrução do poder, expli­ca Barbara Szaniecki, que encerrou suas pesquisas em 2003, ano em que o presidente americano George W. Bush iniciou sua escalada belicista atacando o Iraque. A ocupação segue após quatro anos e sua obra nasce mais atual do que nunca.

Todos contra Bush

Estética da multidão, que tem um encarte rico em exemplos da cria­tividade das ruas, guarda um bom espaço para as imagens contra Bush, como um cartaz baixado da internet, que diz George Bush is the thief of Baghdad (George Bush é o ladrão de Bagdá), com o líder americano vestido como um sinistro Lawrence da Arábia, e ou­tro, A derrotar la guerra imperia­lista (Derrotar a guerra imperia­lista), seguido da afirmação los yankees asesinos non pasarán (Os ianques assassinos não passarão), pôster convocando para uma marcha anti-Bush no México. A recente passagem de Bush pela América Latina, inclusive o Brasil, acompanhada por um séquito de manifestações de protesto, coroa­ram de vez o mandatário america­no como o preferido no tempera­mental mundo dos cartazes polí­ticos. Essas manifestações têm um papel importante, mas só a história vai poder revelar o que elas conseguiram efetivamente, pondera a pesquisadora. Com olhos voltados para meios tão diversos como acervos de museus e sites, a designer rapidamente percebeu que o cartaz político que pretendia estudar não poderia se limitar ao objeto de papel e tinta, mas se expandiria para outras formas de manifestação, que va­riam conforme a época (pinturas, no século 17) e os avanços tecnológicos de produção e reprodução (camisetas e fai­xas, nas passeatas, e charges políticas na internet).

Recuo no tempo

Para entender o cartaz político contemporâneo, voltei no tempo e cheguei até maio de 1968, explica a professora, referindo-se às manifestações de rua ocorridas na França, pa­trocinadas especialmente por operários e estudan­tes, que acabaram clona­das em movimentos con­testadores por todos os cantos do planeta. Nesse momento houve uma mundialização de certas formas de luta. Embora os cartazes de maio de 1968 não sejam esteticamente tão bonitos quanto a arte gráfica russa no início do século passado, eles são um marco, aponta a professora, que se anco­rou nos ensinamentos de Michel Foucault, o filósofo francês que estudou como poucos as incoerências e inconsistências do poder. Mas a pesquisa de Barbara Szaniecki não regrediu apenas até 1968, o ano que não terminou. Ela desceu até o século 17 no reinado do Rei-Sol. Luís XIV fazia algo parecido com um campanha publicitária. Foi o pri­meiro cara que começou a pen­sar essa questão da imagem de forma mais sistemática, explica ela. Mas a imagem que, segundo a pesquisadora, melhor repre­senta a gênese do cartaz político é o quadro Las Meninas, de Diego Velázquez, de 1656, segundo ele um marco de uma forma de representação do poder. A obra exposta no Museu do Prado, em Madri, retrata a pompa da família real da Espanha, com o próprio Velázquez, num insólito auto-re­trato, observando e registrando a cena. Curiosamente, a estética da multidão, garimpada por Barbara Szaniecki ao longo dos séculos, não é uma jóia lapidada. Ela não está aí pronta, está se definindo, em processo. Não dá para dizer que essa ou aquela é a estética de multidão, pronta para consumo e reprodução, afirma ela.
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