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O bem, o mal e as escolhas individuais
Livro:
A Descoberta da Liberdade
Autor:
Sérgio Werlang
O bem, o mal e as escolhas individuais
Por Sergio Lamucci.
Publicado originalmente no jornal , em 12/05/2005.
Sérgio Werlang, ex-diretor do BC, recorre à filosofia para explicar que o liberalismo é melhor
Em A Descoberta da Liberdade, Sérgio Werlang, ex-diretor do Banco Central, faz uma incursão inusitada pela história da filosofia. Um dos pais do regime de metas de inflação no país, ele se propõe analisar a evolução da idéia de que o bem e o mal são conceitos individuais, percorrendo um longo caminho, da antigüidade mesopotâmica até o século XIX.
O livro é uma defesa do individualismo filosófico, como diz Eduardo Giannetti da Fonseca na apresentação, mas também pode ser lido como defesa do liberalismo. Partindo dos pressupostos de que as consciências são individuais e o ser humano age principalmente com base no interesse próprio, Werlang vê o liberalismo como a forma mais eficiente e justa de organização da sociedade.
Liberal convicto, Werlang acredita que as idéias liberais ganham cada vez mais espaço no mundo e aposta que a Europa deve viver uma guinada nessa direção em breve, para poder competir com os EUA e a China. E, embora avalie que o direito de propriedade no Brasil ainda seja desrespeitado com freqüência, ele aposta que o liberalismo também deverá prevalecer por aqui. Mesmo a China, um país em que as liberdades individuais são muito restritas e a propriedade privada é muito frágil, caminha nessa direção, avalia.
Werlang não tem formação em filosofia. Foi o interesse em entender a instituição da propriedade privada que levou o engenheiro naval pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com mestrado pelo Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada e PhD em Economia pela Universidade de Princeton, a se dedicar ao tema. Comecei a me questionar por que a propriedade privada existe e prevalece em tantos lugares, e por que é a forma mais bem-sucedida de organização, diz Werlang, diretor-executivo do banco Itaú.
No livro, ele conta que, após muita leitura de autores clássicos e modernos, finalmente compreendi que em um mundo onde as pessoas têm consciências individuais e são movidas principalmente pelo seu próprio bem-estar, a propriedade apareceria espontaneamente como um equilíbrio das normas sociais.
É isso que trata de explicar no primeiro capítulo. O restante do livro é uma demonstração das disputas entre os individualistas e os coletivistas ao longo da história, desde meados do terceiro milênio antes de Cristo até o início do século XIX, escreve o autor no prefácio. Esse é um dos pontos nos quais Werlang insiste: as idéias individualistas não são recentes, remontam aos mesopotâmicos.
Há registros de que a propriedade privada já existia na Mesopotâmia e que contratos de compra e venda eram comuns no terceiro milênio antes de Cristo. Um dos capítulos mostra que nas culturas chinesa e hindu também surgiram importantes correntes filosóficas individualistas na Antigüidade, a despeito do pequeno intercâmbio com o Ocidente.
Werlang mostra que as idéias individualistas têm origens remotas, mas deixa claro que o coletivismo dominou o Ocidente por cerca de dois milênios, depois do destaque assumido pelo pensamento de Platão. O ex-diretor do BC lembra que a teoria de conhecimento do filósofo é baseada na existência de um mundo ideal, independente de qualquer ser humano.
O bem e o mal representam conceitos absolutos na filosofia platônica, que seriam apreendidos apenas por um grupo restrito de pessoas, os filósofos. Nada mais natural que, a partir desses conceitos, Platão acreditasse que a sociedade perfeita era coletivista. A descrição de uma utopia coletivista aparece no diálogo A República, no qual o regime de governo perfeito seria uma sociedade governada por um filósofo que também fosse rei, ou por um grupo de filósofos.
A visão coletivista predominou nos dois mil anos seguintes, e só começou a ser solapada no século XVI. Para Werlang, a destruição do edifício platônico tem em Francis Bacon (1561-1626) o ponto de partida para que o individualismo volta a ganhar força. Em O Avanço do Conhecimento, Bacon mostra que o conhecimento científico é empírico, baseado na observação dos fatos. Depois disso, faltava um passo importante. Alguém precisava inferir que não só o conhecimento científico tinha um forte componente subjetivo e empírico, mas também o conhecimento das coisas em geral. afirma Werlang.
Thomas Hobbes (1588-1679) foi o primeiro a fazer isso, quando introduziu a teoria do conhecimento empírico, antecedendo-se a John Locke (1632-1704). A questão, de acordo com Werlang, é que esse livro foi pouco divulgado por Hobbes, que estava mais empenhado na publicidade de Leviatã e De Cive -, porque queria influir na política da Inglaterra. Coube a Locke ser o primeiro a sistematizar e divulgar a teoria. Foi o homem com as idéias certas, na hora e no lugar certo, escreve Werlang, afirmando que ele foi importante por aplicar a teoria liberal a vários assuntos: economia, religião, divisão de poder do Estado.
No século XVIII, as idéias de Hobbes e Locke se disseminam, ganhando as mentes do Ocidente. Depois, até mesmo os coletivistas usam o arcabouço construído pelos dois filósofos ingleses para justificar suas propostas. A partir daí, até coletivistas, como Jean Jacques Rousseau e Karl Marx, não partem mais do princípio de que o bem e o mal são conceitos absolutos. Na conclusão, ele diz que o livro mostra a idéia de que a história é um processo de aprendizado, cheio de marchas e contramarchas, no qual o ser humano acaba por tomar consciência da individualidade dos conceitos de bem e de mal, bem como da motivação essencial pelo seu bem-estar.
Fonte:
Jornal .
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