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Edição 564, Porto Alegre, 09/09/2004  
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Contra gurus, MBAs, publicações...

Livro:
Executivos Neuróticos, Empresas Nervosas

Autor:
Thomaz Wood Jr



A metralhadora giratória que ataca os gurus, MBAs e livros de negócios
Por Roberta Lippi.
Publicado originalmente no jornal
Valor Econômico, em 28/01/2002.

Livro do consultor Thomaz Wood Jr, professor da FGV-SP e especialista em transformação organizacional, não poupa críticas.

Ele não poupa críticas à administração moderna. Empresas, líderes, gurus, publicações de negócios, MBAs. Na visão do consultor Thomaz Wood Junior, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e autor de mais de dez livros sobre transformações organizacionais, o mundo corporativo está cada vez mais rodeado de frustrações e conflitos e estes continuam sendo tratados de forma superficial.

No livro Executivos Neuróticos, Empresas Nervosas, lançado esta semana pela Negócio Editora, Wood alfineta o que ele chama de indústria do management, que cresce de maneira fenomenal aprendendo a explorar a insegurança e o medo das pessoas, que vivem de alucinações e miragens criadas com a sofisticação dos grandes estúdios de cinemas.

De fato, no mundo das empresas, tudo é um show business, na opinião do consultor. Um palco com um monte de canastrões desempenhando papéis de segunda - ou terceira - categoria. São artistas que fazem curso para falar em público, aprendem os jargões do momento (os jargões são peças fundamentais nesse teatro) e praticam o alpinismo corporativo. A imagem é mais importante que a realidade, e este é um dos grandes riscos para as companhias, alerta Wood.

Esse buraco que existe entre a realidade e a ficção, diz ele, é um dos grandes responsáveis pelo crescimento absurdo do número de livros sobre negócios e auto-ajuda, que inundam as prateleiras das livrarias com exemplos tão perfeitos que pintam um mundo cor-de-rosa com a profundidade de uma poça dágua.

São todos parecidos, diz Wood: a história de um gerente herói, ou a receita fácil para ter sucesso na empresa, ou a última moda da administração. Esses livros são dramas improváveis, com personagens estereotipados, enredos inverossímeis e finais sempre felizes, analisa o consultor. Ou, como ele inicia o capítulo sobre o assunto: o cruzamento dos livros de negócios com a literatura de auto-ajuda deu origem a um curioso híbrido, que responde às carências dos leitores e enriquece editoras.

Apesar de bastante crítico, Wood é bem-humorado e usa uma linguagem leve para ilustrar os bastidores da vida corporativa. Na dedicatória, ele brinca: o livro é especialmente indicado para executivos que ainda têm ilusões em relação à carreira e às empresas; pode também ser lido por profissionais já desiludidos com a vida empresarial. Antes de cada capítulo, é citada uma frase irônica de algum célebre escritor sobre a administração, muitas tiradas do livro O melhor do mau humor, de Ruy Castro.

Os líderes, estrelas desse novo mundo da administração, são mitos modernos, compara o autor. Depois da era dos grandes empreendedores e dos gerentes eficazes, é a vez dos líderes-celebridades. Tirando aqueles que realmente fizeram alguma coisa importante - ou deram sorte, como diz Wood -, o essencial mesmo é ter uma boa imagem. É a receita que leva ao fracasso, na opinião do especialista em mudança organizacional. Penso que já é mais que hora de deslocar o foco da figura do líder, quase sempre endeusado, para o processo de liderança, que vai muito além do líder e precisa ser melhor entendido.

Na mente dos ambiciosos trainees e nas revistas de negócios, o gerente é a grande celebridade. E tem várias funções. Sonha com conquistas e controla ou induz os homens a fazer o que for preciso para atender aos objetivos organizacionais. Ao mesmo tempo, é um escravo da própria imagem, servo da empresa e manipulador de sentidos.

As próprias escolas de administração, no Brasil e no mundo, não conseguem ensinar essas diferenças, reclama Wood. Cada vez mais, elas estão deixando de lado o objetivo real de ensinar para abraçar a causa dos caça-níqueis. Dados citados no livro mostram que, nos últimos dez anos, enquanto o número de professores em cursos tradicionais nas escolas de negócios dos Estados Unidos cresceu 21%, o número de universidades corporativas cresceu 400%.

No Brasil, o fenômeno é parecido. Uma sala vazia, um retroprojetor, algum espírito empreendedor e poucos escrúpulos são suficientes para criar um MBA.

Wood concorda com o pesquisador canadense Henry Mintzberg, professor do Insead, na França, que afirma que os programas dessas escolas não capacitam para administrar. Mas, pior: fazem crer que capacitam. Ensinam a retórica e fazem os estudantes acreditarem que podem controlar situações e solucionar problemas complexos de um dia para outro. Criam uma imagem obsessiva de liderança que torna o líder um homem de idéias certas que fez tudo certo e surgiu para salvar a pátria.

No Brasil, a situação é ainda pior. Misturou-se o conceito original do MBA (Master in Business Administration) americano com resquícios de um ensino esclerosado de terceiro grau, com doses generosas de faz-de-conta, define Wood. Para aplacar funcionários desmotivados e economizar nos salários, diz ele, muitas empresas estão contratando cursos fechados e chamam de MBA. Nos Estados Unidos, eles viraram uma febre. No Brasil, uma piada. São o sonho dos alpinistas corporativos e, pretensiosamente, fator de garantia de emprego no bazar global.

O autor provoca: Talvez seja mais realista interpretar o fenômeno como um contrato psicológico coletivo delirante: os professores fingem que ensinam, os alunos fingem que aprendem e as empresas fingem que valorizam o capital humano e que ficam mais competitivas.

Por um lado, frases como nossa missão é contribuir para o progresso da humanidade, nosso foco é o ser humano e queremos estar entre os melhores lugares para se trabalhar não saem da boca de executivos, lembra Wood. Mas ele tenta ver o lado positivo da mudança que, a seu ver, muitas vezes começa com boa dose de hipocrisia. Primeiro, vem o discurso. Depois, aos poucos, vai se ajeitando a realidade para corresponder à imagem projetada. Se for este o caso, talvez estejamos no início de uma grande e positiva mudança.


Para verificar preço e disponibilidade do livro, clique aqui.

Fonte:
Jornal Valor Econômico;
Livraria Cultura.
Autor:
 
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Vida a Crédito
de Zygmunt Bauman.

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