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Pregação divertida
Livro:
Sexo, drogas e economia
Autor:
Sandro Silveira
Pregação divertida
Por Sandro Silveira.
Publicado originalmente no jornal , em 05/06/2004.
Obra explica meandros da sociedade moderna e evolução das relações econômicas globais.
Quando você tiver o livro Sexo, drogas e economia em suas mãos, tenha um pouco de paciência quando começar a folheá-lo. Você lerá pérolas como os economistas são as únicas pessoas que alertam sobre escolhas difíceis e negociações. Sem dúvida, é muita pretensão querer convencer alguém dotado de mínima inteligência que esta categoria profissional seria a única a oferecer isso, sem falar em meus pais.
Em outro trecho - e olhe que ainda estou na segunda página do livro - cita-se que os economistas constantemente fazem perguntas como: por que isso está acontecendo?, aquela declaração é verdadeira?, quem se beneficia? Ora, fazem essas perguntas uma penca de profissionais, como historiadores, todo o leque de policiais, advogados em suas diversas ramificações. Esses tipos de perguntas marcaram minha primeira aula de jornalismo!
Mas se você passar por esse início de livro, verá que a autora, Diane Coyle, atingirá o objetivo declarado de demonstrar que a economia é essencialmente uma maneira particular de pensar o universo, que pode ser aplicada a quase todas as situações que envolvem indivíduos, empresas, indústrias e governos. E para quem eventualmente achou, devido aos dois parágrafos iniciais, que tenho algo contra os economistas, digo que não há exagero quando ela escreve que nenhuma outra disciplina pode atingir o mesmo pragmatismo iluminado.
Não tenho dúvidas sobre isso. A economia é pragmática por buscar o resultado prático, estar envolta a números - algo sólido quando bem analisado - e assumir que as pessoas são racionais no sentido de que agirão, na maioria esmagadora das vezes, em benefício próprio. E isso é notado nas páginas que exibem conhecimentos econômicos aplicados à compreensão do mundo real, como esportes, música, sexo, drogas e música. Tudo, claro, com o uso, também, do que se chama de economia comportamental.
E, às vezes, a realidade é exposta com bom humor. Segundo a autora, um economista que pesquisou o negócio prostituição, insinuou que o verdadeiro mistério não é por que algumas mulheres se tomaram prostitutas, mas a razão de ainda mais não utilizarem esse ramo como fonte de renda. Outra fatia do mercado de sexo, agora na era da internet, está se modificando.
O novo meio de comunicação reduziu a circulação de revistas pornográficas na Inglaterra de 1,5 milhão em 1997 para 1,1 milhão no ano 2000. Esse fato levou as duas maiores editoras britânicas a venderem suas revistas e investirem na pornografia na rede mundial eletrônica.
No mercado de drogas, também avaliado economicamente, nota-se que há, senão um monopólio no fornecimento em um país ou grande região, algo perto disso. O domínio do mercado, mostra a autora, não é obtido por meio da oferta de melhores produtos, mas é mantido pelo uso da violência. A brutalidade vale a pena - e aqui expõe-se o raciocínio do traficante, porque luta-se por lucros muito altos. Os rendimentos gerados pelo tráfico de drogas, por serem ilegais, precisam de lavagem. Por isso, o alcance econômico dos traficantes estende-se a atividades legais, explica Coyle. O livro vai além, analisando custos e benefícios de diferentes opções de combate às drogas.
A autora mostra, por meio da área esportiva, o efeito superstar, diretamente relacionado a quantos milhões de espectadores, leitores e ouvintes estão atentos a um determinado astro. Embora esse astro provavelmente não tenha uma função social tão importante quanto a de um professor, seu salário será milhões de vezes maior. O mesmo raciocínio aponta os astros na música, no cinema e setores pouco televisivos como a economia.
Na área musical o livro mostra, por exemplo, que o advento dos CDs aumentou o número de artistas pequenos, uma vez que já não se depende tanto das gravadoras, quanto na era do vinil. Mas fica claro que o sucesso (venda em larga escala) depende muito de marketing, talvez a parte mais cara do ramo musical. E aí entra o poder das gravadoras.
Outro trecho do livro expõe como o Brasil e outros países em desenvolvimento são prejudicados globalmente. Poucas pessoas se dão conta da escala de apoio à agricultura ou do grau de proteção que a agricultura tem. Na União Européia, subsídios (ajuda em dinheiro) agrícolas somam 120 bilhões de euros - dinheiro suficiente para uma viagem de primeira classe ao redor do mundo para cada, uma das 45 milhões de vacas da Europa. Essa ajuda barra a entrada de produtos agrícolas mais baratos de outros países. E Coyle pergunta: Nós gostamos tanto assim dos agricultores para pagar um terço a mais em nossas contas de supermercados? Pense naquilo que você poderia fazer com mais US$ 25 ou US$ 50 por semana.
Percebe-se que é um bom livro para iniciados em economia ou para quem quer conhecer sua aplicação básica ao mundo real. Ao final apresenta-se um glossário para cada um dos 25 capítulos, além das dez regras do raciocínio econômico. Bem pensado!
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