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A Arte de Viajar
Livro:
A Arte de Viajar
Autor:
Alain de Botton
Editora:
Rocco
A Arte de Viajar
Era uma Caravan prata, seis cilindros, a álcool. Bebia quantidades industriais, é bem verdade, mas nunca me deixou na estrada, a pinguça. Juntos, rodamos mais de cinqüenta mil quilômetros pelo interior do Brasil. De dia, ao som de Miles Davis, Ella Fitzgerald e John Coltrane. Cinco da tarde, parávamos para assistir o mundo desabando torrencialmente sobre lavouras, cerrados, matas e rios. O mundo desabava sobre nós. Pela janela, o calor seco, os cheiros amazônicos, a textura das antropofagias de Tarsila nos pores-do-sol do Planalto Central.
Dia desses, li o comentário de José Antonio Pinheiro Machado sobre o livro A Arte de Viajar, de Alain de Botton. Numa ida à Livraria Cultura, fui atrás da indicação. O trecho abaixo me fez comprar o livro:
“Somos inundados de conselhos sobre os lugares aonde devemos ir, mas ouvimos pouquíssimo sobre por que e como deveríamos ir – se bem que a arte de viajar pareça sustentar naturalmente uma série de perguntas nem tão simples nem tão triviais, e cujo estudo poderia contribuir modestamente para uma compreensão do que os filósofos gregos denominaram eudaimonia (eudomonismo, no Novo Dicionário Aurélio) ou desabrochar humano.
Lendo A Arte de Viajar lembrei a intensidade dos porquês, dos comos e dos encantamentos que já catei pelo Brasil, pelo mundo afora. “As viagens são parteiras do pensamento. Poucos locais são mais propícios a conversas interiores do que um avião, um navio, um trem [uma Caravan prateada] em movimento”, afirma o autor. Sei precisamente ao que ele está se referindo.
A Arte de Viajar não é um guia turístico. O livro traz um relato envolvente das emoções que o autor e figuras como Baudelaire, Flaubert, Van Gogh, Humboldt e outros sentiram quando em viagem. Por exemplo, descobri que tenho pelo menos uma coisa em comum com Baudelaire (1821-1867): assim como o poeta, admiro não só os locais de partida e chegada, mas também as máquinas de locomoção. Ele, os transatlânticos. Eu, as Caravans prata e os trens da Europa. Como ele, amo as nuvens. Elas também podem ser máquinas de locomoção: nos levam “para qualquer lugar, qualquer lugar”.
Por Marco Valério.
Diretor da e colaborador da Revista Digital.
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