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Toques de genialidade
Livro:
Inventing the 20th Century: 100 Inventions that Shaped the World - From the Airplane to the Zipper
Autores:
Stephen Van Dulken e Andrew Phillips
Toques de genialidade
Por Martha San Juan França.
Publicado originalmente no jornal , em 17/05/2002.
Você sabe quais os cem maiores e mais prosaicos inventos do século XX?
Considerado o maior inventor de todos os tempos, Thomas Alva Edson (1847-1931) cunhou a frase hoje célebre: Gênio é 1 por cento inspiração e 99 por cento transpiração. Estava certo, mas não totalmente certo. A genialidade é também a habilidade de pensar de uma forma original, sem medo de parecer esquisito para a maioria das pessoas. É o resultado do acaso, ou até mesmo da sorte de estar no lugar adequado na hora conveniente, e dispor de amigos, conhecidos ou parentes que podem ajudar a pessoa inspirada a levar adiante suas criações.
Poucas idéias saem prontas sob a forma de um invento da mente privilegiada de uma única pessoa, diz Stephen Van Dulken, o autor do livro Inventing the 20th Century: 100 Inventions that Shaped the World - From the Airplane to the Zipper (New York University Press), em entrevista ao Valor. Na maioria das vezes, as invenções resultam de uma centelha de idéia que em seguida precisa ser continuamente trabalhada para ter um preço acessível, ser mais útil ou ter novos usos (os tais 99 por cento de transpiração).
Van Dulken pode ser considerado um especialista no assunto. Verdade que nunca inventou nada, mas passou sua vida avaliando as invenções e idéias brilhantes dos outros como especialista do da British Library e autor de vários livros sobre a história das invenções. Nesse último, analisa o que há de mais curioso, inovador e útil nesse problemático século XX. Como o século anterior de Edson, que também mereceu uma análise do autor, os últimos cem anos exigiram incessantes inovações técnicas em um tempo recorde. Inovações que, por sua vez, aceleraram ainda mais o ritmo das mudanças em todos os setores. Trata-se do século da produção e do mercado de massa, no qual as invenções só foram aceitas quando puderam estar ao alcance de um número muito grande de pessoas - quer fossem relevantes ou não.
Por isso mesmo, no panteão das cem criações que chamaram a atenção de Van Dulken constam tanto inventos fundamentais para o desenvolvimento da ciência e da tecnologia - o caso de computadores, radares, da máquina xerox, do plástico polietileno, do náilon e do aço inoxidável -, como outros mais prosaicos, porém essenciais no mundo de hoje - casos do zíper, da lâmina de barbear, do post-it e da caneta esferográfica, sem falar no teflon das panelas, do auto-atendimento em supermercados (sim, esse tipo de venda também foi patenteado por um americano, Clarence Saunders, em 1916), ou do saquinho de chá, invento muito caro aos ingleses.
A maioria esmagadora refere-se a patentes obtidas originalmente nos Estados Unidos e em países europeus, o que reflete como sempre a balança geopolítica do poder durante o século XX e, portanto, o peso dos recursos destinados ao desenvolvimento científico, médico e militar. Uma exceção é a caneta esferográfica, cuja patente foi requerida em Buenos Aires, em 1943, pelo jornalista e aventureiro húngaro Laszlo Josef Biro, então refugiado na Argentina, mas que só obteve sucesso nos anos 50, quando foi comercializada pelo Barão Bic na Europa, e pela Parker nos EUA.
Isso não quer dizer que o livro negligenciou ou subestimou os inventores talentosos de outras partes do mundo, menos ainda os casos daqueles emigrantes que deixaram seu país de nascimento em busca de uma vida nova ou para escapar de perseguições políticas e religiosas por parte dos muitos regimes totalitários gerados durante o século XX, diz o autor. Esse é um assunto delicado para os brasileiros, porque Van Dulken põe em primeiro lugar na sua lista de inventores talentosos do início do século XX um caso emblemático para o Brasil. Trata-se dos irmãos Wilbur e Orville Wright, aqueles que os americanos cismam em dizer que foram os pioneiros na construção do mais pesado que o ar, em detrimento do 14-Bis de Santos Dumont.
Como se sabe, as experiências com o 14-Bis foram iniciadas em julho de 1906. Em 23 de outubro, Santos Dumont sobrevoou os campos de Bagatelle, em Paris, diante de uma comissão do Aeroclube da França, para um passeio de 60 metros. Foi visto e aclamado por milhares de pessoas. Seria de supor, diante de tantos testemunhos, que ninguém contestasse a primazia do brasileiro. Mas, nos EUA, vale a patente requerida pelos irmãos Wright nove meses antes do primeiro vôo, realizado por eles sem testemunhas em 17 de dezembro de 1903. Após isso, os irmãos tentaram vender o aparelho aos exércitos americano, francês e inglês.
Como a patente foi requerida pelos americanos, eles tiveram a honra de ocupar as páginas do livro como os autores da primeira grande invenção revolucionária do século. Isso não impede que outras pessoas tenham contribuído antes e depois para a invenção do avião, afirma diplomaticamente Van Dunken aos brasileiros revoltados pela injustiça. Como ele mesmo diz, os exércitos das três grandes potências da época se interessaram pelo invento e grandes somas em dinheiro foram oferecidas aos irmãos Wright, mas os inventores americanos não fizeram nenhuma demonstração de vôo antes de 1908.
Enquanto isso, Santos Dumont, um inventor de talento com alma de poeta, cansou de mostrar o seu aparelho, mas nunca se importou em requerer patentes e nem tentou vendê-lo para empresários e muito menos para exércitos. Tinha horror à guerra e, no dia 23 de julho de 1932, suicidou-se por não suportar ver seu invento ser usado contra os paulistas na Revolução Constitucionalista pelas tropas federais.
Moral da história: acrescente-se à lista de Van Dulken, além da inspiração e da transpiração, da sorte e das amizades, uma característica fundamental do século XX: a mentalidade comercial. A grande diferença entre os séculos anteriores e este é que no passado o sucesso das invenções não dependia tanto dos intrincados caminhos do mercado ou, pelo menos, esses caminhos não eram tão intrincados como hoje parecem. Nesse sentido, Van Dulken mostra como produtos geniais, como a câmera automática conhecida até hoje como Polaroid e o Tupperware, embalagens de plástico elogiadas por toda boa dona-de-casa, só foram reconhecidas depois que uma grande companhia se interessou pela descoberta ou uma eficiente estratégia de marketing se encarregou de torná-la essencial no cotidiano das pessoas.
No caso da Polaroid, invento registrado pelo americano Edwin Land, então um estudante de física de Harvard, para agradar a filha, em 1948, a Kodak, que fornecia os filmes, tentou desenvolver câmera semelhante por conta própria. Foram anos de disputa até 1991, quando a empresa concordou em pagar 925 milhões de dólares pelos prejuízos da Polaroid. A história do Tupperware foi menos dolorosa mas igualmente interessante. Earl Tupper, engenheiro que trabalhava na época na Du Pont de Upton, Massachusetts, criou as vasilhas famosas de plástico, mas durante anos não obteve muito sucesso com as vendas. Por acaso, uma dona-de-casa e vendedora, Browie Wise, começou a fazer demonstrações do produto na casa das amigas, dando início às famosas Tupperware Home Parties. Deu tão certo que Tupper desistiu da venda em lojas e espalhou a moda.
A história das patentes das invenções neste século é infindável e ainda vai dar o que falar. Na sua lista de cem, Van Dunken coloca algumas que deverão gerar controvérsia, como a fusão a frio, nunca comprovada, mas cuja patente foi requerida por Stanley Pons e Martin Fleischmann; a clonagem de animais, requerida pelos criadores da ovelha Dolly; e o vasodilatador criado originalmente para ajudar pessoas com hipertensão e arteriosclerose, que demonstrou ser mais eficiente contra disfunções eréteis, patenteado pela Pfizer com o nome de Viagra. Quem quiser saber mais sobre patentes e invenções - uma necessidade hoje, para quem não pretende ser passado para trás - o livro dá o caminho: os sites da e do dos Estados Unidos.
Fonte:
Jornal ;
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