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Edição 564, Porto Alegre, 13/03/2003  
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Intelligence Wars: American Secret History from Hitler to Al-Qaeda

Pense nos arquivos da CIA como o inconsciente norte-americano. Lá será possível encontrar evidências do que os líderes dos Estados Unidos realmente pensam e pensaram – bem como seus verdadeiros anseios e ações. Estas são pistas importantes sobre quem efetivamente é o povo norte-americano” – Thomas Powers

O livro é uma compilação de diversos ensaios acerca dos serviços de inteligência dos Estados Unidos que traça uma história de sucessos estrondosos e fracassos gigantescos, além de incertezas intrigantes. As histórias relatadas vão desde o heroísmo de “Will Bill” Donovan durante a Segunda Guerra Mundial até as disputas entre a CIA e a KGB e o debate sobre o papel da inteligência secreta (ou espionagem) em tempos de guerra fria. Thomas Powers também analisa casos famosos como o fiasco da Baía dos Porcos (Bay of Pigs) e o assassinato de Kennedy, os anos em que William Casey passou à frente da CIA durante o governo Reagan, o escândalo de Aldrich Ames, além de outros fatos contemporâneos de grande repercussão. Acima de tudo, Powers questiona a CIA: ela estaria pronta a cumprir com sucesso o desafio de defender os Estados Unidos contra o terrorismo?

Segredos revelados
Por Caio Blinder


Esta é uma resenha sobre um livro que é uma coletânea de resenha de livros.

Jogo de palavras à parte, a escolha é valiosa porque o momento é ideal para discutir guerras secretas e o mundo da inteligência. Os americanos estão eufóricos com a captura de Khalid Sheikh Mohammed, acusado de ser o número 3 da rede Al-Qaeda. “Fantástico”, teria exclamado o presidente Bush quando soube da prisão.

Não sei qual foi a exclamação de Thomas Powers, mas me aventuro a dizer que ele tem muitas interrogações sobre o episódio. Desde garoto, este jornalista e autor é obcecado pelo mundo da inteligência, as guerras secretas e os lances da espionagem. Powers escreveu em 1979 uma obrigatória biografia sobre o furtivo (que adjetivo seria mais apropriado?) Richard Helms, que dirigiu a CIA nos tempos de Lyndon Johnson e Richard Nixon.

O novo tour de force de Powers é uma coletânea de 24 resenhas que ele escreveu entre o final dos anos 1970 e 2002, num arranjo cronológico sobre a história secreta americana de Hitler à rede Al Qaeda. Vamos saltar escalas como o macartismo, a espionagem soviética, o assassinato de Kennedy e as tentativas de assassinato de Fidel Castro para nos fixarmos nos ensaios sobre 11 de setembro.

Powers traça os inevitáveis paralelos com Pearl Harbor para retratar um fracasso de imaginação da inteligência americana. Em 2001, como nos meses que precederam o bombardeio japonês em 1941, não havia informação detalhada sobre os planos de ataque, mas havia evidências de que viria coisa feia. Mas Powers responsabiliza a comunidade de informações pela falta de habilidade para construir hipóteses sobre um ataque audacioso contra o país e aponta as lendárias rivalidades entre os órgãos encarregados de segurança.

Outros jornalistas competentes e congressistas diligentes mergulharam em investigações e conclusões semelhantes às de Powers. No seu relatório divulgado em dezembro passado, o senador Richard Shelby detalhou os sinais perdidos ou mal interpretados que apontavam para grandes ataques terroristas em 2001. As conclusões se tornaram clichês como incapacidade para conectar os pontos ou visualizar padrões recorrentes.

Mas como conectar os pontos?

No seu relatório, Shelby mencionou que somente a divisão de contraterrorismo do FBI reunira 68 mil pistas desde 1995. Um clássico problema no trabalho de inteligência é o que no jargão é conhecido como “barulho”: existe muito mais informação inútil do que útil para ser interpretada. Guerras secretas não são apenas furtivas. Elas são confusas e ambíguas. Um autor competente como Powers tem condições de escrever um cristalino postmortem. No calor da luta é outra história, igualmente fascinante, mas muito mais complicada e tortuosa.

A sociedade, com razão, espera informações precisas sobre operações terroristas. No entanto, resvala para o pânico quando as autoridades oferecem um difuso jogo de cores. Nos EUA, um dia é o alerta amarelo; no outro, o laranja.

Mas, de fato, o quebra-cabeças do terror e das guerras secretas têm muitas cores e pontos não conectados.

Foi fantástico. Nem todo dia, porém, é dia de capturar Khalid Sheikh Mohammed.


Caio Blinder pode ser lido na sua coluna digital – Primeira Impressão – no site da BBC Brasil.

O autor Thomas Powers é ganhador do prêmio Pulitzer em 1971, contribuindo hoje com as publicações The New York Review of Books, The New York Times Book Review, Harper’s, The Nation, The Atlantic e Rolling Stone. Também é autor de diversos livros, entre eles The Man Who Kept the Secrets: Richard Helms and the CIA (1979) e Heisenbergs War: The Secret History of the German Bomb (1993).

Fonte:
Amazon.com
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Vida a Crédito
de Zygmunt Bauman.

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