Pesquisar 
Edição 475, Porto Alegre, 13/11/2008  
  versão para
impressão
enviar para
um amigo
 
   
 
Vertigem

Livro:
Vertigem
Autor:
W.G. Sebald
Artigo:
Em formidável obra de estréia, Sebald questiona a memória
Por Joca Reiners Terron

Publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo

Escritor tardio, somente aos 46 anos W.G. Sebald publicou Vertigem, seu primeiro romance que, totalmente fora de ordem, sai só agora no Brasil sucedendo livros mais recentes.

Assim, seu estilo nasceu sólido feito magma frio. Estilo não significa pouco na curta obra do alemão: autor de descrições tão precisas quanto preciosas, Sebald alcança com palavras (e não são muitas, graças a sua fatura sóbria) o que o afresco busca representar pictoricamente -imagens velozes em que nuanças da cor são usadas para transportar o leitor até as paisagens descritas.

Sua literatura, porém, parece questionar a veracidade de lembranças contidas em imagens sempre fugidias.

Desde o início, em Vertigem, a deambulação reflexiva acompanhada de peregrinações (seus livros se assemelham muito a diários de viagens) conforma a estrutura episódica dessas histórias que igualmente trafegam entre os gêneros, com predominância da pulsão ensaística a palpitar na linguagem.

Aqui, principiamos por acompanhar o jovem Henri Beyle (o nome verdadeiro de Stendhal) na travessia dos Alpes junto das tropas napoleônicas, em 1800. Por meio de seus diários de campanha e também dos posteriores, de viagens pela Itália, Sebald começa a desdenhar do alcance da memória e reconhece o irromper da fantasia naquela que seria a melhor fase de Beyle, a da maturidade pós-50 anos de idade.

Depois, vemos o próprio Sebald (em 1980) sobrevivendo a uma severa depressão e transitando pelas mesmas cidades italianas conhecidas por Beyle.

Lembrança

De início baseado no caos da repetição e da rotina, esse peripatetismo culmina no reconhecimento das limitações da lembrança (não é sua primeira visita àqueles locais), nos detalhes das pinturas e dos afrescos que se deformam e nas impressões que se distorcem com o tempo.

Pulamos então para uma descrição da breve e infeliz passagem de Franz Kafka pela mesma região em 1913 (e novamente os diários adquirem importância).

O salto, então, é dado para 1987, quando (depois de uma ausência de 30 anos), Sebald retorna à sua cidade-natal, Wertach im Allgäu (referida apenas com um misterioso W), para tão-somente perceber, assim como Beyle ao descobrir anos depois que sua lembrança de juventude da cidade de Ivrea não era verdadeira, mas surgida da imagem reproduzida num prospecto, que não reconhece quase nada e pior, que isto não tem mais importância.

Tudo como na conhecida anedota de Borges, que da mesma forma se entristecia por não ter recordações verdadeiras das coisas passadas, mas apenas recordações de recordações de recordações.

Vertigem é um formidável primeiro livro que antecipa a temática do autor alemão que ganharia densidade em Os Anéis de Saturno, Os Emigrantes e Austerlitz, seus livros posteriores.

Criador de obra tão desafortunadamente sucinta (ele morreu num acidente de automóvel em 2001) quanto fundamental, W.G. Sebald questiona a frágil idéia de identidade da vida humana no século 21.
Autor: W.G. Sebald
 
Acesse as edições anteriores:
 
História do Brasil - Uma Interpretação
de Adriana Lopez e Carlos Guilherme Mota.

Leia a resenha
 
A Revista Digital é uma publicação on-line da Pólo RS - Agência de Desenvolvimento.
A entidade se reserva todo o direito sobre as matérias criadas para a revista e não se compromete com conteúdos retirados de outras fontes.
Críticas ou sugestões podem ser enviadas para os editores da Revista Digital.