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Ficando para Trás
Livro: Ficando para Trás
Organizador: Francis Fukuyama
Artigo: Por que somos assim
Por Diogo Schelp
Publicado originalmente na revista Veja
Nas ciências políticas e econômicas, há um enigma que, se decifrado, poderia resultar na fórmula definitiva para o sucesso das nações: por que a América Latina não prosperou como os Estados Unidos? A pergunta já mereceu a atenção de estudiosos de todos os matizes ideológicos e, na maioria das vezes, levou a respostas esquemáticas, mágicas. Uma das teorias em que os latino-americanos mais gostam de acreditar, apesar de todas as evidências em contrário, afirma que seu atraso é culpa da exploração e do imperialismo de Washington. A perpetuação dessa ideia equivocada só serviu para abastecer o sentimento antiamericano e não criou nenhuma solução real para os desafios da região. O livro Ficando para Trás é um antídoto contra as explicações fáceis para a disparidade econômica e social da América Latina em relação aos Estados Unidos. Organizada pelo cientista político americano Francis Fukuyama, a obra reúne análises de dez especialistas, metade deles latino-americana.
Com boa argumentação e dados fartos, os autores dedicam grande espaço para definir quais fatores não servem como explicação para o descompasso no continente. São três as teses descartadas. A primeira é a que atribui as diferenças à geografia. Segundo essa visão, fatores como o clima tropical e a proliferação de doenças atrapalharam o desenvolvimento dos países que, hoje, são classificados como pobres. O determinismo geográfico não se sustenta porque, nos primeiros séculos após o descobrimento da América, muitas colônias espanholas eram mais ricas do que as inglesas. Além disso, países como a Argentina, de clima temperado, não se encaixam na descrição fatalista acima.
A segunda tese equivocada, conforme os autores de Ficando para Trás, é a que culpa o papel desempenhado pelos Estados Unidos na América Latina após o fim do período colonial. Ainda que seja verdade que a política externa americana cometeu abusos e interfiriu militarmente na América Central em mais de uma ocasião, o mesmo não aconteceu no México, no Brasil e na Argentina. O argumento que esses países foram prejudicados por um suposto sistema de dependência comercial em relação aos Estados Unidos não convence porque o mesmo tipo de integração econômica existiu com outras regiões, como o Leste Aiático, que estão se desenvolvendo rapidamente. Finalmente, a terceira tese furada é a que atribui o atraso latino-americano ao catolicismo, em princípio pouco propenso a absorver a benéfica combinação de valores capitalistas e democráticos. Para refutar essa explicação, há o fato de que, em todo o mundo, a maioria dos países que se democratizaram a partir da década de 70 tem o catolicismo como cultura religiosa predominante.
Houve, sim, um outro aspecto cultural que ajudou a definir os desempenhos díspares de Estados Unidos e América Latina. No ensaio Bandeirantes e Pioneiros, de 1954, o escritor Vianna Moog demonstrou que os colonos ibéricos estavam mais interessados no extrativismo ou na escravização dos índios, enquanto os ingleses tinham um apego maior à nova terra, que eram obrigados a cultivar por conta própria. Isso deu origem, na América britânica, a direitos de propriedade e estrutura de governo mais sólidas do que no resto do continente. Essa cultura política pode ter sido a base para os três fatores que, mais tarde, definiram o sucesso americano: instituições formais (leis, sistema político) e informais (disposição da população de respeitar as leis); decisões políticas adequadas ao florescimento capitalista (abertura comercial, por exemplo); e estrutura social mais igualitária (alcançada com o foco na educação). Da ausência desses elementos nasceu o paradoxo latino-americano, que o mexicano Enrique Krauze descreve assim no prefácio do livro: "A América Latina é o Ocidente, mas permanece à sua margem".
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| Autor:
Francis Fukuyama
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