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Edição 559, Porto Alegre, 29/07/2010  
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O lucro do impacto social
29/07/2010


Pensar uma organização não governamental (ONG) como negócio tem sido o diferencial do trabalho da britânica Impetus Trust. A empresa é dirigida por executivos que trabalhavam em grandes bancos de investimento nas áreas de private equity e venture capital, ou seja, ingressavam em pequenas companhias para ajudá-las em seu crescimento e profissionalização. Agora, eles transferem seus conhecimentos de mercado financeiro para o terceiro setor. A Impetus faz a intermediação entre doadores e ONGs, mas olhando a organização com os mesmos critérios que seriam aplicados por um investidor que esteja em busca de lucro - ou, no caso da ONG, de impacto social.

À frente da Impetus está a brasileira Daniela Barone Soares, 38 anos, com passagens pelo Citi, BancBoston e Goldman Sachs. No ano passado, o jornal britânico Independent incluiu seu nome em sua Happy List, que relaciona as cem pessoas que fazem do Reino Unido um lugar melhor para se viver.

Em Brasília, Daniela se reuniu com dirigentes de estatais brasileiras, para tentar fazê-las repensar seu relacionamento com as ONGs, a partir da experiência adquirida em quatro anos de Impetus.

O pensamento comum do doador, e não apenas no Brasil, diz Daniela, é o de transferir recursos para que a ONG cumpra determinado propósito, mas sem se preocupar com o funcionamento da organização. Em outra situação possível, determinada empresa quer promover uma ação de finalidades ambientais e prefere transferir recursos para que uma ONG fique com a incumbência, em vez de atuar diretamente.

Nossa visão de trabalho é diferente. Acreditamos que a ONG precisa de alguém que a olhe por inteiro e não apenas de dinheiro carimbado para a compra de um item específico, afirma Daniela.

A Impetus tomou emprestada a filosofia do venture capital para fazer filantropia com método e estratégia de negócio. Daniela reconhece que buscar interessados em fazer doações no Reino Unido é relativamente fácil, uma vez que esta é uma prática comum no país. Mas quando se trata de uma ONG com um plano de atividades que visa provocar impacto social, a tarefa já não é tão simples.

Para escolher uma ONG, um primeiro passo é o contato com seus dirigentes. No terceiro setor, todo mundo é bonzinho, tem boa intenção. Mas nós procuramos profissionais, que tenham dedicação e competência, diz Daniela.

A Impetus faz uma auditoria na organização e examina seu projeto. Feita a doação, acompanhará a gestão por um período de cinco anos. A intenção é capacitar a ONG para caminhar sozinha.

No período de supervisão, as decisões dos administradores da ONG não poderão dar errado. Alguns desses procedimentos, considerados chaves para que o impacto social aconteça, serão monitorados com atenção redobrada pela Impetus, de forma que as metas estabelecidas sejam alcançadas. A organização terá todo apoio administrativo - alguém da equipe da Impetus passa pelo menos cinco dias por mês dentro da ONG, ajudando na implementação das ações.

Além do apoio à gestão, a organização também conta com uma equipe de colaboradores, especialistas nos mais diversos serviços, para transferir conhecimentos específicos para atuação junto aos setores a que as ONGs se dedicam.

Com esse plano de ação, a Impetus procura montar um trabalho que quebre o ciclo que leva a um problema social, explica Daniela. Por exemplo, a mãe que não tem como dar educação a um filho, que se envolve com a criminalidade, e que vai ter outro filho destinado, provavelmente, a viver nas mesmas condições. Enfim, a ideia não é resolver o problema de um determinado cidadão apenas, mas montar um plano pelo qual se faça a integração de educação, treinamento e emprego, de modo que o ciclo negativo seja quebrado.

A Impetus já forneceu meios de sustentação a12 ONGs, das quais 5 estão caminhando sozinhas. Além do apoio a esse tipo de entidade, a Impetus está desenvolvendo um trabalho que começa pelo ataque ao problema social. O escolhido foi a reincidência de presos em atos ilícitos. Na Inglaterra, segundo Daniela, três de cada quatro ex-prisioneiros voltam a cometer crimes e retornam à prisão em um período de dois anos.

Se conseguirmos equacionar esse problema e reduzir a reincidência, a solução levará a uma economia de recursos para o governo, que não terá de manter aquelas pessoas na prisão. A ideia é que essa economia, ou parte dela, seja repassada para as ONGs e se transforme em receita fixa, diminuindo assim a necessidade de reunir tantas doações, explica Daniela.

Durante um ano, a Impetus mapeou 80 ONGs que poderiam auxiliar nesse projeto. Ao final do processo, selecionou quatro, que passaram pelo crivo da avaliação dos administradores e auditoria.

Muitas ONGs querem apenas o dinheiro e não pretendem desenvolver um plano de negócios com o acompanhamento exigidos pela Impetus. Mas é com regras estritas que o doador pode ter a certeza de que seus recursos estão sendo bem empregados. Os aportes são trimestrais e liberados somente se as metas estabelecidas forem cumpridas.

A utilização de práticas de venture capital aliadas à filantropia aumenta a capacidade das ONGs de provocar impacto social por meio de ações bem direcionadas.

As ONGs escolhidas pela Impetus têm pequeno e médio portes e também podem contar com o apoio de fundações, que contribuem com recursos próprios.

A Impetus restringe suas atividades ao Reino Unido. Pode, assim, fazer acompanhamento adequado do trabalho das ONGs financiadas, o que não seria possível se estendesse sua atuação diretamente a partir da Europa. Daniela diz que a realização de projetos no Brasil exigiria a participação de pessoas qualificadas e pelo menos US$ 3 milhões para iniciar o trabalho.

Luiz Eugenio Figueiredo, vice-presidente da Associação Brasileira de Private Equity & Venture Capital, lembra que algumas ONGs atuam no Brasil para auxiliar doadores a aplicar recursos em determinadas causas. Mas reconhece que falta capacidade para as organizações caminharem sozinhas. No Brasil, não há tradição de doação. A profissionalização das ONGS certamente auxiliaria a amadurecer a iniciativa de doar.

Fonte: Ana Paula Ragazzi / Valor Econômico.
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