| |
A Terra dos Bolsas Perdidas - 13/11/2008
- Rápido Camila rápido! Deixa o resto para trás e entra logo na camionete que nós temos mais de 6.000 km pela frente.
Flores, já no volante do carro, apressava a mulher. O terceiro oficial de justiça havia sido despistado pela manhã, mas deixara a intimação à revelia. O próximo passo jurídico seria o seqüestro dos bens por solicitação de onze credores. E a única maneira de salvar alguma coisa foi torrar tudo num site da Internet. Sobrou o automóvel, algumas quinquilharias que foram acondicionadas na caçamba. Com o dinheiro arrecadado, mais o resgate das ações, deu para juntar pouco menos de R$200 mil, os quais não chegavam a cobrir 6% da dívida.
O rapaz, com seus trinta e poucos anos, sempre fora considerado o mais burro da família. Nunca dera certo em emprego; e os negócios que tentava sempre acabavam em sofridos prejuízos para os pais e irmãos. Mas desde 2004 a sorte dele parecia ter virado. O clã de médicos e advogados ficava boquiaberto com o dinheiro que o parente pródigo passava a exibir. Essa mudança aconteceu depois dele ter feito um curso rápido de investimento na bolsa de valores.
O jogo começou com R$500 emprestados da prima. Ao cabo de seis meses, Flores já dispunha de casa própria, carro do ano, roupas de grife e freqüentava os locais mais badalados e caros da noite paulistana.
Apesar de alguns baques, a fortuna continuou a crescer rapidamente. Nesse meio tempo, veio o casamento com a modelo que chegara a ser destaque na Playboy, feito às pressas por conta da gravidez acidental. Mas Camila, depois de uma recepção fria na família, acabou sendo bem aceita, por ser uma menina batalhadora e de boa índole.
Tudo ia bem até os primeiros meses de 2008. As ações das empresas de petróleo e mineração não paravam de subir e segundo as projeções iriam continuar assim indefinidamente.
Mas o indefinidamente não foi eterno. As posições do investidor começaram a ser derrubadas. No momento em que se recomendava aguardar, ele mudou radicalmente sua carteira de ações, as quais também caíram assustadoramente. O golpe de misericórdia foi mesmo no início da segunda quinzena de setembro, quando o Ibovespa despencou, fazendo-o perder completamente o lastro. O custo mensal de mais de R$ 100 mil para levar a boa vida, que antes era pago sem sentir, ficou repentinamente proibitivo.
A solução, então, foi deixar de honrar prestações, cartões de crédito e outras contas para fazer a maior quantidade de dinheiro possível com o objetivo de sumir por uns tempos. O que ele não calculava é que os credores também estavam de olho no mercado e executaram as contas tão logo foi registrada a inadimplência.
Finalmente Camila se acomodou no banco traseiro do x-terra com o filho no colo. E na calada da noite do dia 25 de setembro que a família iniciou a viagem rumo ao norte do Pará. O objetivo era chegar a tempo para grilar alguma terra, já que o governo federal havia mostrado disposição para doar até 4% da Amazônia Legal para os ocupantes ilegais. Muitos corretores e operadores do mercado financeiro estavam fazendo o mesmo.
O povo local até apelidou a concentração daqueles que pareciam ser almofadinhas da cidade grande de Terra dos Bolsas Perdidas.
Eles eram motivo de piada, com a bagunça que faziam nas áreas ocupadas, além dos hábitos estranhos, como o de perguntar por café expresso e pretzel nas biroscas dos vilarejos amazônicos.
Continua...
_____________________________________________________________
Eduardo Starosta*
eduardostarosta@uol.com.br
|
|
Fonte: |
| |
|
|