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Edição 538, Porto Alegre, 04/03/2010  
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Economia Bandida
04/03/2010

No livro A Economia Bandida, de Loretta Napoleoni, a menção aos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) não é aparentemente elogiosa. Afinal, diz o texto, esses quatro países estão entre os maiores produtores de medicamentos falsificados do planeta. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), no mundo, uma em cada dez pílulas é falsificada. Na Nigéria, oito em cada dez.

O texto não fala só de falsificação de remédios. Há falsificação de tudo. De alimentos, brinquedos, produtos eletrônicos, bens de consumo duráveis, roupas, sapatos, bolsas e até perfume. Ali aparece um tal de Chinel nº 5, livremente inspirado no Chanel nº 5.

A pirataria não é o único tema. Ao contrário. Há nele, sim, pirataria e falsificação, mas também prostituição, biopirataria - e um quinto dos genes do corpo humano já é propriedade privada, definitivamente patenteada -, lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, excesso de peso, hiperendividamento, queda dos salários, migração ilegal e as vantagens do sistema financeiro islâmico. Tudo isso e mais um pouco, inclusive a disputa que está se armando entre potências, como Estados Unidos, Rússia e Canadá, pelo controle de terras e mares que o derretimento do Polo Norte vai possibilitar.

Entre os objetos de cobiça estão algumas rotas comerciais, que reduzem o tempo de transporte de 17 para 8 dias entre o Pacífico e o Atlântico. Enfim, nada escapa da batalha de interesses, nem mesmo alguns dos resultados previstos do aquecimento global.

Mas, ao contrário, do que pode parecer a princípio, Loretta acredita que um mundo menos hostil vai emergir do desaparecimento de marcas e patentes, enquanto a qualidade das mercadorias falsificadas melhorará a ponto de tornar impossível distingui-las das originais, o que provocará uma cavalar redistribuição de riqueza em escala global, certamente ajudando a consolidar a China como principal economia do planeta.

Ela não argumenta sobre qual será, dentro desse suposto novo padrão, o estímulo para criar novos medicamentos ou investir tempo e dinheiro para gerar novos produtos e descobertas. Mas, de fato, esse é apenas um dos aspectos desse mundo pós-economia bandida imaginado por ela.

Outro aspecto, crucial, é que, na visão de Loretta, haverá uma volta ao padrão-ouro e a moeda âncora será o velho dinar, enquanto o sistema financeiro obedecerá à lógica das finanças islâmicas, que rejeita a ideia de que dinheiro pode criar dinheiro. Por fim, considera: os governos centrais delegarão ainda mais poder para as autoridades locais, já que as tribos são a melhor resposta para a globalização.

Por mais que o mundo concebido por Loretta pareça exótico demais, é louvável a tentativa de uma explicação estrutural e única para movimentos tão distintos como a pirataria e o endividamento dos cidadãos americanos.

Editado no Brasil pela Difel, Economia Bandida mostra que a economia que falsifica, prostitui, lava dinheiro, etc., não é um fenômeno excepcional, é endêmica, faz parte do DNA social da humanidade. Dessa forma, seu crescimento é o sinal de que há algo de errado. E esse algo é o descompasso entre a economia e a política. Ou seja, num mundo de economia globalizada, a política permanece entrincheirada dentro das fronteiras nacionais. A política já não domina a economia e, por isso, ela acredita, a economia deixou de estar a serviço dos cidadãos para se tornar uma força selvagem, exclusivamente voltada para o dinheiro fácil à custa dos consumidores.

Não por acaso, o crescimento da economia bandida se deu a partir do desmoronamento do Muro de Berlim. Segundo ela, o objetivo último da vitória na guerra fria - a democratização do antigo bloco soviético - não foi obtido. Ao contrário. Os vencedores foram os fora da lei, os oligarcas russos, os que souberam se aproveitar das oportunidades para fabricar fortunas instantâneas, os que puderam usar sua rede de contatos e violência para controlar mercados e processos.

Tudo se parece com o tempo do faroeste, mas sem o xerife. Ou, dito de outra forma, as reformas econômicas se adiantaram às transformações políticas. Basicamente, esses países liberalizaram a economia sem criar as instituições que deveriam controlar e guiar a transição para a economia de mercado.

Com Estados nacionais ainda mais fragilizados ou em absoluto colapso, o muro caiu, como ela diz, sobre a cabeça das mulheres, apontando uma relação direta entre a queda e o crescimento da indústria da prostituição, com russas, polacas, eslavas, búlgaras, etc.

Fonte: Jornal Valor Econômico por João Carlos de Oliveira.
 
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