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Edição 244, Porto Alegre, 11/03/2004  
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Um pássaro na mão e três voando - 11/03/2004

n.d.

A inquietude que acomete os profissionais graduados de alto escalão em certos momentos da carreira parece ter tido uma pausa nestes tempos de recessão. Se até alguns anos o convite para atuar numa empresa por melhores salários e benefícios soava como um irresistível canto de sereia, hoje os executivos têm pensado pelo menos três vezes antes de optar pelo desconhecido. A nova onda de relutância está exposta em pesquisa recém-concluída pela Korn/Ferry International, de Los Angeles, com mais de 70 escritórios em 36 países. Dos 300 profissionais de recrutamento entrevistados, 70% responderam que enfrentavam alguma ou muita dificuldade em atrair candidatos para um novo posto. "Há uma menor disposição para correr riscos", diz Flávio Kosminsky, sócio diretor da Korn/Ferry.

Os caçadores de talentos, sustenta a pesquisa, estão se deparando com uma certa aversão a jogos imprevisíveis, mesmo se a mudança implicar em cargos melhores e salários maiores. Além de se calçar melhor com evidências de que o movimento de troca para uma cultura corporativa diferente vai fazer sentido, os profissionais estariam dando preferência às chamadas blue chip companies - empresas grandes, de marcas estruturadas, menos sujeitas a modismos e com maior grau de estabilidade. Aos olhos de um candidato de nível sênior, por exemplo, tais companhias têm 84% das preferências, contra apenas 16% de empresas menores, ainda que com alto potencial de crescimento.

A atitude de permanecer a bordo de embarcações aparentemente mais robustas e, portanto, menos sujeitas aos sabores das marés, não ocorre neste momento por acaso, na opinião de Kosminsky. O susto com a bolha da internet e a queda livre de ações nos últimos anos fizeram com que os executivos se dessem conta do tamanho do risco que estavam correndo. Como resultado, também apontado pela pesquisa, o vaivém de cargos parece agora muito mais orientado segundo a lógica do dinheiro no bolso, sem dar tanta importância para bônus e ações. Nos pacotes de negociação firmados entre empresas e empregados, sublinha o estudo, 68% procuram mais cash e menos opções em ações como forma de remuneração, enquanto somente 5% prefere o contrário.

Especialmente sobre os executivos brasileiros, Kosminsky ressalta que havia uma propensão histórica a correr mais riscos e pensar no curto prazo, até mesmo por conta das variações nos humores da economia. Profissionais maduros e experientes, no entanto, continuam com a tendência de sondar a solidez da proposta com extremo cuidado. "Pessoas muito bem qualificadas sabem o seu valor e o que cada movimento seu significa na carreira", observa ele.

Num cenário de incertezas econômicas, em que os executivos se apegam como nunca a um pássaro e relutam em trocá-lo não por dois, mas três voando, é preciso repetir as perguntas de sempre, além de acrescentar outras, antes da decisão. Kosminsky aconselha a levar em consideração as experiências e habilidades que serão ganhas no novo posto; se a empresa em questão investe em treinamento e desenvolvimento; e o real valor da ciranda de cargos. Ser promovido de gerente a diretor para uma empresa de menor porte, por exemplo, nem sempre pode significar um salto hierárquico. "É a velha pergunta, se você quer ser um diretor qualquer ou gerente de uma companhia sólida. Cabeça da sardinha ou rabo do tubarão", compara Kosminsky, acrescentando que, mesmo com as ressalvas da nova realidade de mercado, profissionais de nível médio mostram maior apetite pelo risco. Para ele, deixa-se um emprego, quando o outro é comprovadamente mais excitante e oferece mais oportunidades. "Mas tudo sempre depende do momento de cada um", pondera.

A sócia-diretora do Career Center, Luciana Sarkozy, também tem notado que os executivos estão mais hesitantes para mudar de lugar, com reflexões de fazer inveja a Kasparov antes de aceitar um convite. Além de avaliar a solidez e a estratégia da companhia no Brasil, os profissionais querem saber o seu grau de autonomia, com quem vão trabalhar ("um bom partner"), e se a nova função implica mais aprendizado. "A mudança tem de seguir uma linha lógica. É preciso tomar cuidado para a carreira não virar um grande patchwork", alerta Luciana. Movimentos na carreira podem ser tão irreversíveis como um grande tabuleiro de xadrez, alertam os consultores. Vence o jogo quem sabe a hora certa de dar o xeque-mate.

Vacina para funcionários contra a tentação da troca

As estratégias para cativar um funcionário e evitar que ele troque de camisa podem ser tão ou mais sofisticadas que as técnicas de ganhar um novo cliente. Pelo menos é o que pensa Rodrigo Mascarenhas, presidente da RM Sistemas, de Belo Horizonte (MG). À frente de 580 funcionários que atuam na área de software-houses, ele criou um curioso pacote de benefícios com o claro objetivo de mantê-los como seus fiéis escudeiros por um bom tempo. Segundo suas próprias palavras, trata-se de uma espécie de "kit motivação", que vai da folga por meio período no dia do aniversário até palestras internas com economistas que versam sobre o bom gerenciamento das finanças pessoais. Tudo para que ninguém vá para a empresa resmungando, com vontade de fazer outra coisa. "Não quero que as pessoas fiquem tentadas a mudar de emprego", diz ele.

A empresa faturou R$ 72 milhões em 2002 e R$ 95 milhões em 2003. Os bons resultados, acredita Mascarenhas, devem-se mais às suas fórmulas de motivação e ao trabalho constante para que sempre impere um bom clima entre os funcionários. A folga no dia do aniversário, bem como palestras, e até uma massagista do programa "Delete o Stress" valem do contínuo ao presidente, sem exceção. Uma outra idéia que tem tido bastante sucesso, conta o presidente, é a de incentivar todos os funcionários a prestar serviços em uma organização não-governamental (ONG) de sua preferência pelo menos uma vez ao mês, por quatro horas. Uma vez por semana, os funcionários também podem contar com uma psicóloga, que os orienta sobre problemas pessoais.

Muitas das iniciativas, salienta Mascarenhas, não partiram da diretoria ou dele mesmo, mas dos funcionários, que sempre são convidados a expressar suas opiniões e sugerir benefícios que façam diferença no seu dia-a-dia na empresa. Daí, muitas das palestras ministradas por especialistas enfocarem temas como saúde, qualidade de vida, relacionamento familiar, educação infantil, estética, terceira idade, entre outros.

Além de cativar o público interno, Mascarenhas procura envolver-se com obras beneficentes. A empresa tem projeto de apoio a menores carentes na região metropolitana de Belo Horizonte, investimento na educação de potenciais colaboradores e também aos portadores de deficiência física. Por trás de todos eles, a filosofia é uma só: "Profissionais satisfeitos produzem mais e melhor".
Autor: n.d.
n.d.
 
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