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'Vocês não precisam ler o meu livro' - 04/03/2010
Andreas Müller / Revista Amanhã
O consultor americano James Hunter é autor de um dos mais bem-sucedidos cases de autoajuda para negócios. Seu livro, , já vendeu mais de 3,5 milhões de cópias no mundo - sendo 2,5 milhões no Brasil. Nesta entrevista, ele analisa as razões desse sucesso à brasileira e afirma que as pessoas não precisam aprender mais nada além do que já sabem sobre liderança.
Só o Brasil responde por mais de 70% das vendas de "O Monge e o Executivo". Como explicar isso?
No Brasil, as pessoas estão procurando por novas maneiras de se relacionar com seus líderes e por mais relacionamentos no trabalho. O brasileiro, em geral, é uma pessoa que gosta de se relacionar. Já estive aí mais de 16 vezes, fiz diversas palestras e uma das coisas que ficaram marcadas foi justamente a preocupação que o brasileiro tem de construir bons relacionamentos com as pessoas ao seu redor.
Você costuma dizer que "O Monge e o Executivo" trata de fazer a coisa certa - ter paciência, autocontrole, ser gentil etc. Ao mesmo tempo, há centenas de pessoas em Harvard e outras universidades trabalhando duro para entender como funciona a liderança. O que mais precisamos aprender, afinal?
Nada.
Como assim?
Eu costumo dizer isso o tempo todo. Quando se trata de liderar, as pessoas precisam fazer o que já sabem. Vocês não precisam nem mesmo ler o meu livro. Quando eu falo de liderança, eu não estou "instruindo" ninguém, eu estou apenas lembrando de coisas que todo mundo já sabe. Liderança é uma questão de fazer as coisas certas. Minha contribuição é ajudar as pessoas a se lembrar de quais são essas coisas.
Em "O Monge e o Executivo", conhecemos a história de John Daily, um executivo que se torna um líder a partir de mudanças em seu próprio comportamento. Na vida real, é possível se tornar um bom líder por conta própria?
Na verdade, no livro a gente não sabe o que o John faz. Ele aprende essas coisas, mas nós não sabemos se ele efetivamente implanta as coisas que aprendeu ou se as esquece. Tudo que sabemos é que ele concorda com os princípios da liderança servidora. Ele os considera bons e quer adotá-los, quer mudar. Mas há uma grande diferença entre querer mudar e mudar de fato. No meu próximo livro, que vou lançar neste semestre, nós vamos descobrir que, na verdade, John não mudou. Apenas 10% das pessoas que passam por um programa de treinamento em liderança conseguem mudar.
O que é preciso para mudar?
Muito caráter e muito comprometimento. As pessoas que realmente mudam são aquelas que estão muito comprometidas com a mudança e pensam sobre isso todos os dias. Não estamos falando de pessoas que leem o livro, e sim de pessoas que aplicam o livro. Todo mundo concorda com respeito, saber ouvir, honestidade etc. Isso é fácil. A parte difícil é trazer esses princípios para dentro do jogo.
No Brasil, o livro costuma aparecer nos catálogos de autoajuda. Era esse segmento que você almejava?
Não. Nos Estados Unidos e em qualquer outra parte do mundo, o livro é vendido na seção de negócios. Não entendo como ele foi entrar em uma seção diferente aí no Brasil. Mas o importante é que as pessoas pratiquem os princípios de liderança que encontram no livro. Pouco importa se ele é autoajuda ou não.
O fato de ser um romance não afasta a obra das estantes de negócios?
O livro trata de liderança, que é um tema prioritário nos negócios, mas o faz por meio de uma parábola - o que até ajuda a atrair o leitor. As pessoas em geral gostam de histórias, de parábolas. Jesus, por exemplo, falava através de parábolas e era muito efetivo na forma de transmitir seus ensinamentos. Não que as demais abordagens não sejam eficientes, mas a parábola tem uma força muito grande.
Onde você aprendeu os ensinamentos que dão corpo a "O Monge e o Executivo"?
Bem, eu trabalho como consultor há mais de 30 anos aqui nos Estados Unidos. Já convivi com bons e maus líderes e aprendi que os mais eficientes são os do tipo servidor.
Recentemente, a revista Amanhã trouxe à tona um estudo que questionava o modelo de líder servidor. Em linhas gerais, o estudo dizia que os líderes mais eficientes são aqueles que fazem o que precisa ser feito - e não necessariamente se destacam no trato com outras pessoas. Como você encara esse argumento?
Eu acredito que muitas pessoas confundem o significado de "servir" e veem o líder servidor como se ele fosse um escravo. Isso é um erro. O líder servidor não é um escravo. Ser escravo é fazer o que as pessoas querem. Ser um servidor é fazer o que as pessoas precisam. É diferente. O que os meus filhos e empregados precisam pode ser bem diferente do que eles querem. Os meus filhos precisam de disciplina, eventualmente de uma palmada. Mas é óbvio que eles não querem nada disso. O líder servidor precisa saber ouvir, ser compreensivo, etc. Mas também precisa identificar gaps de performance e impor a disciplina. Senão ele falha.
No livro, os personagens chegam à conclusão de que Jesus Cristo foi o melhor líder que já existiu. Até que ponto a religião ajuda os líderes de negócios a tomar melhores decisões e fazer o que as pessoas "precisam"?
Não sei exatamente. O que eu sei é que a religião pode ajudar, sim. Eu conheci muitos líderes excelentes que praticam a religião. Mas também conheci muitos líderes excelentes que não praticam. Há ambos os casos. Você pode ser um ótimo líder sem ter qualquer relação com a religião. No entanto, a maioria dos líderes servidores que eu conheço tendem a ser religiosos. Eles pensam mais nos valores. Eles levam a sério a religião e praticam isso no dia-a-dia. Essas pessoas tendem a levar a liderança servidora muito a sério.
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Autor:
Andreas Müller / Revista Amanhã n.d. |
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