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Edição 195, Porto Alegre, 13/03/2003  
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Por Arthur Torelly Franco
torelly@polors.com.br




A lenda do holandês errante



Na noite de três de agosto de 1942, dois oficiais estavam de serviço na cabine de comando do HMS “Jubilee”. Um deles era Nicholas Monsarrat, que se tornaria em poucos anos um escritor famoso com seu premiadíssimo livro “Mar Cruel”. Às 21 horas eles viram o Holandês Voador, com suas velas enfunadas, no centro de uma tormenta que se abatia sobre o Cabo da Boa Esperança. Existem registros no diário do Almirante Karl Doenitz, que os tripulantes de um submarino alemão enxergaram o navio fantasma na mesma região.

A lenda do “O Holandês Errante” data do século XVII. Ela narra a história do capitão Hendrick van der Decken, que ao retornar das Índias Orientais se vê frente a uma terrível tormenta no extremo sul da África. Quando a perspectiva de naufrágio é iminente, o capitão faz uma promessa desesperada. Se ele e sua tripulação forem poupados, permanecerão navegando até o dia do Juízo Final. Desde o surgimento da lenda, não foram poucos os navegantes que se defrontaram com o navio condenado em noites de tempestade. Alguns escritores, como Sir Walter Scott, auxiliaram a propagar a história de Hendrick van der Decken. Heinrich Heine criou a sua versão para a saga do navio fantasma, num livro publicado em 1834. Segundo o escritor alemão, o capitão do navio foi condenado pelo demônio a navegar pelo resto de sua vida. Apenas o amor incondicional de uma mulher poderia livrá-lo da maldição. A cada sete anos o holandês tem permissão de desembarcar num porto para tentar achar a amada que poderá lhe trazer a Redenção.

Richard Wagner leu esta obra de Heine, quando ocupava a posição de Diretor Musical do Teatro de Riga. Em 1839, o músico de 26 anos não conseguiu renovar o seu contrato. Acossado pelos credores, ele foge da cidade com sua esposa Minna. Os Wagner embarcam no porto de Pillau no Mar Báltico, para uma viagem de oito dias até Londres. Depois de passar pela costa da Dinamarca, o navio Tetis é atingido por fortes tempestades. Após 24 horas de tormentas, o comandante é forçado a buscar abrigo em um dos fiordes da costa norueguesa. Wagner ficou impressionado com a paisagem e com o eco formado nas gigantescas paredes de granito, que devolviam os gritos ritmados da tripulação em suas tarefas de recolher as velas e lançar a âncora. Essa cena deu origem ao famoso tema da canção dos marinheiros. Como o navio necessitava de reparos, Richard e a esposa passaram alguns dias numa aldeia de pescadores chamada Tromsond. A música e o cenário do “Der Fliegende Hollander” começavam a tomar corpo na mente de Wagner.

Após alguns dias em Londres, o compositor viajou para Paris cheio de esperanças. Levava uma carta de apresentação para o grande compositor Giacomo Meeyerbeer, cujas óperas “Robert le Diable” e “Les Huguenotes” faziam sucesso em toda a Europa. Começaram os piores anos da vida de Wagner. Como era um autor desconhecido não conseguia espaço para divulgar suas obras. Vivia dos empréstimos de amigos e da venda de um livreto de sua autoria, sobre Beethoven. Seu grande objetivo era o de concluir a ópera “Rienzi”, que havia iniciado a compor em Riga. Num momento de desespero, vendeu por quinhentos francos o primeiro esboço em prosa do “Holandês Errante”. O comprador Pierre Dietsch usou-o como tema para escrever a ópera “Le vaisseau fantôme” (O Navio Fantasma). O resultado foi medíocre.

Em maio de 1841 Wagner volta a trabalhar na concepção do “Der Fliegende Hollander” e conclui a partitura. Em abril de 1842 Richard e Minna viajam para Dresden, a fim de assistir a estréia de “Rienzi”. O sucesso da ópera foi tão grande que Wagner passou a ser tratado como um artista de reputação. No dia dois de janeiro de 1843, no Hofteather de Dresden e com Berlioz na platéia, Wagner rege pela primeira vez o seu “Navio Fantasma”. Estava lançada a primeira ópera que preenchia suas novas teorias sobre o drama musical integrado. Apesar de alguns críticos afirmarem que a obra está tecnicamente defasada em relação aos “Mestres Cantores” e “Tristão e Isolda”, julgamos que o “Der Fliegende Hollander” está mais avançado em suas formas musicais, do que “Tannhauser” e “Lohengrin”, que o sucederam.

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