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A autobiografia de Richard Wagner, Mein Leben (Minha Vida), foi ditada pelo compositor para sua esposa Cosima. Trata-se de recordações que vão desde a infância do autor, até maio de 1864. Neste mês Wagner festejou seu 51º aniversário. Acossado pela justiça e pelos credores ele havia fugido de Viena e foi acolhido na corte do rei Ludwig II da Baviera, admirador entusiástico do compositor de Lohengrin.
Em junho do mesmo ano, Cosima chega à Munich e consuma sua união com Richard Wagner, mesmo estando ainda casada com o músico Hans Von Büllow.
Em 1868 o casal, execrado pelos ministros da corte e pela conservadora sociedade da capital da Baviera, decide mudar-se para Tribschen, nas cercanias de Lucerna. Foi nesta localidade que Cosima iniciou por conta própria, no dia 1° janeiro de 1869, anotações independentes em um diário, sobre a vida de seu marido. Este trabalho iria estender-se até 12 de fevereiro de 1883, véspera da morte de Wagner.
As detalhadas anotações de Cosima, ao longo de quase cinco mil páginas do diário nos proporcionam não só uma imagem íntima do último terço da vida de Wagner, como retratam a história dessa época do século XIX com todos seus movimentos culturais, tendo como figura central um de seus maiores compositores.
O objetivo inicial desses diários era muito mais modesto, pois desejava registrar para nosso filho anotações muito precisas que contenham em cada dia, minha situação, meu trabalho, minhas opiniões, conforme Wagner colocou numa carta dirigida à Ludwig II, em onze de outubro de 1879.
Apesar da intenção paterna, Siegfried Wagner nunca colocou a mão nesses diários. Sua irmã mais velha, Eva, casada com Houston Stewart-Chamberlain apoderou-se dos mesmos quando da morte de Cosima, em 1930. Em 1935 ela legou os 21 cadernos para os arquivos da cidade de Bayreuth, com a condição de que eles ficariam selados nos cofres do Banco Estatal de Munich e não poderiam ser publicados por um prazo de trinta anos, após sua morte.
Eva veio a morrer em 26 de maio de 1942, mas problemas com litígios testamentários atrasaram novamente sua divulgação. Apenas em 1974 os diários foram entregues à cidade de Bayreuth para posterior publicação.
Para gáudio dos estudiosos e pesquisadores da vida e obra de Richard Wagner, Martin Gregor-Dellin e Dietrich Mack editaram e comentaram os Die Tagebücher – Cosima Wagner. Volume I: 1869-1877; Volume II: 1878 – 1883. (Ed. R. Piper & Co. Verlag, 1976 e 1977). Após a publicação em alemão, Geoffrey Skelton traduziu a obra para o inglês, sendo a primeira edição produzida pela Harcourt Brace Jovanovich, Inc.
Para os pesquisadores que não desejam investir muito tempo nesses verdadeiros cartapácios, existe uma edição condensada (516 páginas), dos Diários de Cosima, elaborada Geoffrey Skelton e impressa pela Yale University Press, New Haven and London.
De todo o conteúdo dos diários de Cosima, um dos mais instigantes diz respeito aos sonhos de Richard Wagner.
Quando se recordava de um sonho, ele transmitia o mesmo à sua mulher que o transcrevia nos diários. Cremos que nenhum outro grande artista do passado nos legou por escrito um material tão abundante sobre seus sonhos.
Eles mereceriam um profundo estudo, entretanto esta é uma tarefa para profissionais da psicanálise. Ao reunirmos dezenas desses sonhos mais significativos vamos reparar a existência de uma surpreendente concordância na estrutura dos mesmos o que facilita extrair determinadas conclusões. A simples reprodução de seu conteúdo nos esclarece várias facetas da personalidade de Wagner. Na próxima coluna Adágio iremos comentar os principais sonhos relatados por Wagner e tentar avaliar o seu significado.
Alguns dados biográficos de Cosima:
Cosima Francesca Gaetana Wagner nasceu no dia 25 de dezembro de 1837, em Bellagio, no Lago de Como, Itália. Ela e seus irmãos Daniel e Blandine eram filhos naturais do compositor Franz Liszt e Marie de Flavigny, a Condessa d’Agoult. Os amantes separaram-se quando Cosima tinha dois anos e ela e os irmãos foram criados pela mãe de Liszt. Marie seguiu a carreira literária e Liszt empreendeu uma série de viagens pela Europa apresentando-se como virtuose que era junto às grandes casas de concertos e sendo acolhido nos palácios da realeza. Mais tarde ele teve como companheira a Princesa Carolyne Von Sayn-Wittgenstein. Em suma, Cosima e os irmãos viveram praticamente como órfãos, abandonados pelo pai e pela mãe. Aos vinte anos ela contraiu núpcias com o maestro Hans Von Büllow. Este havia sido aluno de Wagner e mantinha fortes laços de amizade com o compositor. Cosima também já conhecia Wagner desde os quinze anos, quando Liszt apresentou a filha ao amigo em Paris. Ao assumir o cargo de Diretor Musical na corte de Ludwig, Wagner convocou Von Büllow para ser seu assistente e acolheu o casal em sua residência. Data desta época o início do romance entre o compositor e sua nova musa.
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