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Nos últimos dias, grande parte do público acompanhou pelos meios de comunicação o drama de milhares de turistas, inclusive algumas centenas de brasileiros, ilhados entre as ruínas de Machu Picchu e a vizinha aldeia de Águas Calientes. Fortes chuvas desabaram sobre a região, provocando avalanches de pedras e lama que sepultaram os trilhos do trem que liga a cidade de Cuzco a esse terminal ferroviário.
É a partir desse vilarejo perdido na cordilheira que se tem acesso à Cidade Sagrada dos Incas, a lendária Machu Picchu.
Para aqueles leitores que desejam familiarizar-se com um pedaço da história dessa civilização e da cidade perdida, reproduzimos texto já publicado há alguns anos, nesta Revista Digital.
Até o século IV d.C. o litoral do Pacífico, na América do Sul, e a cordilheira dos Andes eram habitados por diversos grupos étnicos. Eles vagavam pelos territórios sem estarem ligados a um poder central. Apenas no século X se formaram os estados regionais, formadores do primeiro império latino americano, e liderado pela dinastia Wari.
A formação do Império Inca tem suas origens a partir do século XIV. O cronista Garcilaso de la Vega registrou que o Sol fez sair das águas do Lago Titicaca, seus filhos Manco Capac e Mama Ocllo. O par divino tinha a missão de achar o vale escolhido aonde seria fundado o novo império. Manco Capac possuía uma vara de ouro que deveria ser enterrada no local apropriado. Após várias tentativas infrutíferas eles chegaram à montanha de Huanacauri, no centro da cordilheira. Ao fundo de um vale existia um pântano aonde Manco Capac conseguiu enterrar sua vara de ouro. Este ato marcou a fundação da cidade de Cusco, que se tornaria a capital do império Inca, o Tahuantinsuyu. Bastou um século para que os descendentes de Manco Capac expandissem a nova civilização, que se estendeu até a atual Colômbia, Equador, Bolívia, Chile e Norte da Argentina, absorvendo a maioria das etnias existentes.
A palavra Cusco, no dialeto quéchua, significa “umbigo do mundo”. Em 1523 os espanhóis chegam ao litoral do norte peruano e dão início à conquista do império inca. A varíola trazida pelos conquistadores mata Huayna Capac, pai de Huascar e Atahualpa, os últimos reis Incas. No dia 16 de novembro de 1532 o Império Inca estava totalmente subjugado pelos conquistadores.
Nos dias atuais, Cusco é visitada por milhares de turistas que tem a oportunidade de visitar os vestígios do esplendor dos palácios da capital inca, mesclados aos monumentos erigidos pelos conquistadores. Os espanhóis não eliminaram os incas apenas pelo uso das armas, mas também através de um rápido processo de miscigenação, que juntou o sangue dos conquistadores com o dos dominados.
Podemos afirmar que a atual arquitetura cusquenha também é fruto dessa mestiçagem. A imponente Catedral de Cusco foi edificada sobre o antigo templo destinado ao inca Viracocha. Os espanhóis desfiguraram o complexo arquitetônico de Sacsayhuaman, ao retirarem milhares de pedras para levantarem as paredes da sua igreja matriz. O templo da Companhia de Jesús foi edificado sobre o palácio de Huayna Capac e Koricancha o templo mais famoso e rico do império inca, dedicado à adoração do Rei Sol, foi transformado no Convento de Santo Domingo.
Mas, existe um lugar jamais mencionado nas crônicas escritas pelos espanhóis e em nenhum documento histórico que precedeu sua descoberta. Trata-se da cidade perdida de Machu Picchu, considerada o sítio arqueológico mais conhecido e espetacular do continente sul-americano.
Ninguém conhecia este lugar até o dia em que o historiador americano Hiram Bingham o descobriu por acaso. O pesquisador partiu de Cusco, em 1911, em busca da cidade perdida de Vilcabamba, o último bastião dos incas e pensou que a havia encontrado ao deparar-se com Machu Picchu. Hoje sabemos que as ruínas de Espírito Pampa, localizadas anos mais tarde na distante selva peruana, são em realidade os restos de Vilcabamba.
Existem várias hipóteses sobre a cidadela, sendo que durante muitos anos prevaleceram as teorias de que Machu Picchu seria um centro cerimonial habitado pelas virgens do Sol ou uma cidade fundada secretamente durante a conquista, para preservar a cultura inca e reaviva-la futuramente. As atuais teorias sustentam que o local seria uma segunda residência ou palácio de verão do chefe Inca.
Parte da fascinação que envolve o visitante ao entrar em Machu Picchu, deixando-o deslumbrado com uma paisagem digna de ocupar o posto de oitava maravilha do mundo, se deve a inexistência de informações precisas sobre a origem do lugar e por conseguinte sobre as razões pelas quais os incas decidiram ocupá-lo e povoá-lo.
Em recente viagem a Machu Picchu, levei como guia de viagem o poema Alturas de Machu Picchu. Nada melhor do que a força da palavra do poeta Pablo Neruda (1904-1973) para descrever a dimensão mística e a energia de Machu Picchu. O poema foi escrito após uma visita do autor ao santuário inca e pode ser encontrado no livro Canto Geral. Esta obra, junto com Confesso que Vivi, compõe os dois maiores sucessos da extensa produção literária do autor.
Para apreciação dos leitores, destaco alguns trechos do poema Alturas de Machu Picchu:
Entonces em la escala de la tierra he subido
entre la atroz maraña de las selvas perdidas
hasta ti, Machu Picchu.
Alta ciudad de piedras escalares,
por fin morada del que lo terrestre
no escondió en las dormidas vestiduras.
En ti, como dos líneas paralelas,
La cuna del relámpago y del hombre
Se mecían en un viento de espinas.
Esta fue la morada,éste es el sítio:
Aquí los anchos granos del maíz ascendieron
Y bajaron de nuevo como granizo rojo.
Aquí la hebra dorada salió de la vicuña
A vestir los amores, los túmulos, las madres,
el rey, las oraciones, los guerreros.
Madre de Piedra, espuma de los cóndores.
Alto arrecife de la aurora humana.
(Pablo Neruda, página 29).
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