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Edição 477, Porto Alegre, 27/11/2008  
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Por Arthur Torelly Franco
torelly@polors.com.br




A Ópera como Arte Visual


Durante o século XIX, a maioria dos Teatros de Opera não se preocupava com a importância dos cenários. Estes eram fabricados a partir de grandes telas de lona. Após a aplicação da pintura as mesmas serviam de decoração visual para diversas obras. Quando Der Fliegende Holländer estreou em Dresden, a maioria dos cenários era remanescente da montagem de Rienzi. Ainda não existia nos teatros a função do Stage Director ou Diretor de Cena. Quanto melhores eram os intérpretes, menos importância tinham os cenários. Na segunda metade do século XIX certas prioridades começaram a ganhar mais peso na balança dos componentes do conceito operístico.

Richard Wagner foi um dos inovadores, eliminando as luzes da platéia durante o espetáculo e dirigindo a montagem de suas óperas. Por ocasião da estréia de Tristan und Isolde em Munich, Wagner contratou os melhores artistas cênicos da corte. Ângelo Quaglio preparou os cenários do I e III atos e Heinrich Döll responsabilizou-se pela parte visual do II ato. Franz Seitz foi o responsável pelo vestuário dos intérpretes.

As teorias e inovações de Wagner se espalharam pela maioria das casas de ópera européias, mas a passos lentos. Apenas no início do século XX, Gustav Mahler decidiu revitalizar a Ópera de Viena, ao contratar em 1903 o pintor Alfred Roller para dirigir à parte cênica. Este artista dedicou-se ao seu trabalho cuidando dos mínimos detalhes da produção, bem como soube combinar o arrojo de seus cenários com as modernas técnicas de iluminação. Deve-se à Roller a montagem da primeira apresentação da ópera Der Rosenkavalier, em janeiro de 1911. O artista ficou famoso ao iniciar a revolução na cenografia com a criação das Torres Roller, colocadas uma de cada lado do palco. Elas permitiam rápidas mudanças de cenário e quando giradas alteravam o tamanho do palco.


Na mesma época surgiu outra grande inovação técnica, o palco giratório de Karl Lautenschlager. Ele foi usado pela primeira vez no Residenz Theater de Munich para uma nova encenação de Don Giovanni.

No começo do século XX novas teorias e técnicas de desenho surgiram das mãos de Adolphe Appia, um dos maiores responsáveis pela inovação das artes visuais no ramo operístico. Seu trabalho concentrou-se básicamente nas óperas wagnerianas e a convite de Toscanini ele desenhou uma das mais belas produções de Tristan und Isolde para o La Scala de Milão

O estreitamento das relações entre a ópera, o teatro e as artes visuais tornou-se visível com o impacto causado pelo Balé Russo do empresário Serge Diaghilev, instalado em Paris. Pela primeira vez podia-se observar um trabalho dinâmico e cheio de criatividade, unindo compositores, coreógrafos, intérpretes e artistas cênicos. Stravinsky fez seu primeiro trabalho com Diaghilev ao montar seu balllet Pássaro de Fogo, em 1910. O designer e artista Leon Bakst foi o responsável pelo exotismo dos cenários e costumes que deram maior brilho à obra do compositor russo.


A associação entre a música e as artes cênicas deu um grande passo à frente quando, em 1914, ocorreu a estréia de O Rouxinol, com a produção musical conduzida por Pierre Monteux enquanto Alexandre Benois era o responsável pela direção de cena.

O trabalho de Diaghilev tornou-se aclamado em Paris. Até Henri Matisse apresentou-se para desenhar a produção visual de Chant Du Rossignol, peça teatral baseada na obra O Rouxinol. O pintor foi contratado sob forte oposição de Stravinsky. Este apreciava a obra de Matisse, mas não acreditava que o mesmo tivesse condições para trabalhar como Diretor de Cena. O resultado ficou abaixo da expectativa de Diaghilev, e provocou a ira de Pablo Picasso, cenógrafo nas horas vagas, que assim se pronunciou: Matisse! O que é Matisse? Uma sacada com um vaso cheio de flores caindo por todos os lados.

Os esforços pioneiros de Diaghilev fizeram com que os grandes produtores de ópera passassem a contratar os grandes mestres da pintura para a criação cenográfica.

Giorgio de Chirico foi convidado para cenografar I Puritani na abertura do Festival do Maggio Musicale de Florença. Oskar Kokoschka, contratado por Furtwängler, desenhou a produção antológica de A Flauta Mágica para o Festival de Salzburg. Chagall trabalhou para a ópera de Paris e Salvador Dali criou os cenários para uma memorável apresentação de Salomé no Covent Garden em 1950.

A partir da segunda metade do século XX, a função de Diretor de Cena passou a ocupar um destaque tão importante quanto ao de Diretor Musical. Dezenas de profissionais começaram a comandar as principais produções operísticas.
Cada um deles buscou a permanente inovação visual, produzindo montagens ora aplaudidas, ora vaiadas pelo público mais conservador. Dentre os principais diretores, registramos os nomes de Wieland e Wolfgang Wagner, Luchino Visconti, Franco Zefirelli, Götz Friedrich, Gunther Schneider-Siemmsen, Otto Schenk, Jean-Pierre Ponelle, Patrice Chéreau, Joachim Herz e Harry Kupfer.

Hoje ir à ópera não mais significa escutar boa música e destacados solistas. A interpretação teatral e a arte visual passaram a complementar o trabalho do Diretor Musical, tornando-se um novo pólo de discussão entre os apreciadores daquilo que Wagner convencionou chamar de A Obra de Arte Total.

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de Fiódor Dostoiévski.

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