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Robert Schumann
Por ocasião do bicentenário do nascimento de Robert Schumann, muitos ensaios estão sendo publicados, com avaliação de sua vida e obra. Steven Isserlis, violoncelista britânico refere-se ao compositor como um romântico definitivo. Lamentavelmente a obra deste atormentado músico raramente tem o mesmo destaque em relação à de outros compositores do período. A coluna Adágio, através deste artigo faz sua homenagem a Robert Schumann, que nasceu em Zwickau, na Saxônia, no dia oito de junho de 1810.
Quem analisar a personalidade de Robert Schumann verá que a mesma é formada por um complexo de fragmentos: o que viveu à sombra da esposa, o compositor insubstituível de canções para piano, o fracassado compositor de sinfonias, o suicida em potencial, o homem que vivia dominado pela influência do sonhador Eusébio ou do impulsivo Florestan, dois de seus principais avatares.
Apesar dos apelos insistentes da mãe que o encaminhou para as escolas de Direito em Heidelberg e Leipzig, aos 19 anos Schumann desistiu da carreira universitária para estudar piano. Durante três anos ele morou na residência de Friedrich Wieck, seu professor, e dedicou-se de corpo e alma ao objetivo de tornar-se um virtuose. Foi nesta época que ele veio a conhecer a jovem Clara Wieck, filha de Friedrich e que viria a tornar-se uma das pianistas mais aclamadas de toda a Europa.
Concluídos os estudos, em 1832, Schumann começou a dedicar-se à composição e fundou com alguns amigos o jornal Neue Zeitschrift für Musik - Novo Jornal da Música – onde sob o pseudônimo de Eusébio ele escrevia editoriais sobre os rumos da nova música alemã. Foi ele quem anunciou a chegada aos palcos de um gênio chamado Chopin, bem como se tornou defensor incondicional da música de Berlioz.
Assim como aconteceu com Nietzsche, Robert Schumann contraiu sífilis, doença que lhe abreviou a vida e o levou à demência. Em 1834 ele teve que abandonar o piano e passou unicamente a compor, já que alguns de seus dedos ficaram deformados. Estas seqüelas se originaram devido ao uso de mercúrio, substância largamente usada naquela época, para o tratamento da sífilis. Ele passou a década de trinta lutando contra estados depressivos e de melancolia, que o levaram a primeira tentativa de suicídio.
A maioria de suas obras foi inspirada por Clara Wieck, sua grande paixão. Datam desta época o Carnaval para Piano, Opus 9, oito fantasias para piano que foram agrupadas na obra Kreisleriana para piano, Opus 16 e a Fantasia em Dó Maior para piano, Opus 17.
A década de quarenta foi uma das mais importantes na vida de Schumann. Durante quatro anos, o professor Wieck usou de todas as armas possíveis para impedir o matrimônio de Clara com Robert. Este foi obrigado a apelar para a justiça, e após uma série de audiências humilhantes para ambas as partes, o professor perdeu a causa. As núpcias de Clara Wieck e Robert Schumann foram celebradas no dia 12 de setembro de 1840, data em que ela atingiu a maioridade.
No primeiro ano de seu casamento, Schumann escreveu 140 Lieder (Canções), na sua grande maioria canções de amor. Dentro dessa volumosa produção destacamos como os principais ciclos de Lieder, Frauenliebe und Leben, Dichterliebe e Liederkreis.
Após escrever 23 Opus para piano e lançar seus formidáveis ciclos de canções, Schumann foi instado por Clara a escrever uma sinfonia. Em 1841, ainda inibido pela permanente presença do espírito de Beethoven, Schumann escreveu sua primeira sinfonia, batizada de Primavera. Esta obra teve estréia na Leipzig Gewandhaus, sob a regência de Félix Mendelssohn. Nos seguintes dez anos Schumann viria a compor mais três sinfonias, sendo a Renana, Sinfonia nº 3 em Mi Bemol Maior, Op. 97 a mais escutada na atualidade. Giuseppe Sinopoli considerava esta sinfonia, juntamente com a 7ª Sinfonia de Beethoven e a abertura da ópera Parsifal, de Wagner como ritos de passagem na longa jornada pelo mundo da música.
Apesar do sucesso da Renana, não poderíamos deixar de recomendar a nossos leitores a 4º Sinfonia de Schumann. Esta obra foi completada logo após a estréia da 1ª Sinfonia, mas Schumann não ficou satisfeito com o resultado. Dez anos após ele a revisou completamente. Esta sinfonia, em quatro movimentos deve ser executada sem pausas. Ela é a mais melancólica das sinfonias de Schumann e exprime a essência do romantismo, na Romanza que constitui o segundo movimento. O crítico Philip Hale escreveu: Uma das partituras mais assombrosas da música orquestral está no Trio do Scherzo. Nesta sinfonia, o compositor reproduz a dramaticidade de Beethoven e o lirismo de Schubert.
A partir de 1843 o estado mental de Schumann entrou em declínio. Graças aos esforços de Clara, ele passou a acompanhá-la em suas excursões pela Europa. Após o nascimento dos primeiros filhos eles fixaram residência em Dresden, aonde viveram por cinco anos. Schumann ainda conseguiu escrever seu Concerto para Piano em Lá Menor e a ópera Genoveva.
Em 1850 eles se mudaram para Düsseldorf e sua doença se agravou. Schumann tentou mais uma vez o suicídio, atirando-se no rio Reno. Salvo por pescadores, ele passou duas semanas em estado psicótico, ora imaginando escutar musica divina, ora sendo atacado por tigres e hienas. Passou a viver recluso, comunicando-se apenas com a esposa e o novo amigo Johannes Brahms, cuja música ele admirava.
Em sua luta contra a insanidade, o compositor implorou para ser internado em um asilo. A princípio Clara recusava-se a colocar o seu amado Robert em uma casa de lunáticos, mas acabou concordando. Schumann, o mais romântico dos compositores Românticos, faleceu aos 46 anos de idade, no dia 29 de julho de 1856.
Obras recomendadas:
Dichterliebe e Liederkreis, de Robert Schumann, com o baixo-barítono Thomas Quasthoff e o pianista Roberto Szidon. RCA Victor Red Seal (09026-61225-2).
Para Robert Schumann não foi fácil escrever seu vitorioso ciclo de canções, logo após o sucesso das obras de Schubert e Beethoven. Neste disco, o destaque especial vai para as canções do Dichterliebe, todas elas com letra de Heinrich Heine. O Liederkreis, baseado em Eichendorff revela as maiores alturas atingidas pelo romantismo alemão. Este CD ainda nos brinda com as canções Belsatzar e Romanzen und Balladen III, baseadas em textos de Heine, Seidl e Lorenz. Para a nova geração, informamos que o pianista Roberto Szidon é brasileiro, nascido no Rio Grande do Sul. Após seus estudos em Porto Alegre, ele completou seu aprendizado com Cláudio Arrau, Felicia Blumental e Artur Rubinstein. Thomas Quasthoff é um digno sucessor de Dietrich Fischer-Dieskau como intérprete das canções de Robert Schumann.
Herbert Von Karajan in rehearsal and Performance: Este DVD nos traz a filmagem realizada pelo cineasta francês Henri-Georges Clouzot, com a íntegra dos ensaios da Quarta Sinfonia de Schumann, assim como pela execução da mesma durante uma gravação. Durante o ensaio Karajan nos brinda não apenas com a música, mas nos faz mergulhar no significado desta sinfonia.
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