Quando as canções dos Stones pareciam mudar o mundo

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Perdi a turnê dos Rolling Stones por estas águas. Uma pena, mas tranquilo – fico feliz com as minhas lembranças. Estive presente nas areias de Copacabana naquele show de dez anos atrás e, com mais impacto ainda – porque se tratou da primeira vez -, também estive no Maracanã em 1995.

E, vamos ser sinceros: desde então (na verdade desde bem antes), pouca coisa mudou. É o mesmo repertório, o mesmo ambiente. A carreira dos Stones pode servir como um exemplo da relatividade das coisas. Há décadas a banda parece estar parada no tempo, fazendo o mesmo, e ótimo, show.

Mas nada faz sentido sem referência aos primeiros anos dos Stones, quando a velocidade das mudanças foi outra – tão rápida que era capaz de deixar qualquer um tonto.

Que capricho do destino e da história – de colocar um grupo de jovens londrinos no olho de furacão, quando o seu propósito inicial nada mais era do que tocar blues em homenagem aos grandes negros americanos.

Mas, como sempre, os tempos fazem o homem. O mero desejo de tocar o blues já era um sinal das mudanças, a busca por uma identidade nova. Uma Inglaterra saindo da Segunda Guerra Mundial, deixando de ser império e investindo no social. O nascimento de novas possibilidades e perguntas, como a grande dúvida existencialista: como ser?

O início do boom da música inglesa dos anos 60 reflete duas coisas – um amor pela musica negra americana e uma comemoração da nova prosperidade.

Até hoje os músicos ingleses da época não param de prestar homenagem aos seus heróis do outro lado do Atlântico. Mas junto com essa humildade logo veio uma arrogância – tipo, “a gente não precisa se limitar a copiá-los, podemos usar a música deles como base para expressar a nossa realidade”. Aí, a coisa ficou interessante.

O grande triunfo no início da carreira dos Stones foi Satisfaction, em maio de 1965. A simplicidade aparente da canção esconde uma sabedoria extraordinária. Aborda as limitações da cultura do consumo, a sua incapacidade de cumprir a suas promessas, a sua necessidade de gerar insatisfação constante para ficar crescendo.

É a canção que abre alas para a segunda metade dos anos 60, quando, em vez de comemorar-se a prosperidade, houve uma cultura de jovens aberta, contestadora e inquieta. A música estava na vanguarda e, durante alguns anos turbulentos, os Stones funcionaram como uma voz dessa geração.

Com a pílula anticoncepcional agora disponível, abrindo novas possibilidades sexuais, a banda lançou no início de 1967 Let’s Spend the Night Together, uma celebração do amor livre. Poucos meses depois veio We Love You, uma ultra-hippie resposta às autoridades que viviam tentando prender a banda por usar drogas. Um ano depois, chegou uma mensagem mais agressiva para o poder,Street Fighting Man, refletindo o ambiente quase revolucionário de 1968.

Em dezembro do ano seguinte veio mais uma obra-prima, Gimme Shelter, um hino inquietante e apocalíptico. Com sensibilidade, a banda sentiu o perigo do momento.

Poucos dias depois do lançamento de Gimme Shelter, houve o show grátis em Altamont, Califórnia. Marcou o fim do sonho hippie, da ideia de uma cultura de massa jovem capaz de se autorregular. Foi uma noite de caos e loucura, com a segurança feita pelos Hells Angels, que espancaram ate a morte um jovem negro na plateia.

Altamont é um marco importante na carreira dos Stones. E o momento de ruptura entra a banda e o público. Nunca mais o grupo seria a voz instintiva de parte de uma geração. A banda fechou-se em si própria, uma situação amplificada pelo deslocamento ao sul da Franca para fugir dos impostos ingleses.

Ainda produziu grandes músicas – houve experiências interessantes com reggae, e uma última obra-prima em 1978, Miss You, uma ótima interpretação da era disco. Mas já não teve o mesmo peso cultural. Como a banda declarara em 1974,It’s Only Rock ‘n Roll.

Mas durante anos na década anterior, não tinha nada de “somente”. Os Stones brincavam com fogo, lançando álbuns que refletiram e influenciaram um tempo de turbulência.

E isso ajuda a manter a banda viva ate hoje. As multidões que vão assisti-los não estão somente curtindo um show maravilhoso de rock. Estão também fazendo um tipo de comunhão – com uma época em que era possível pensar que as canções da banda realmente tinham o poder de mudar o mundo.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick

Fonte: BBC Brasil

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