Inclusão social perde brilho com crise no Brasil e na América Latina

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O presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, resumia a princípios deste mês de outubro de 2015 os avanços sociais da América Latinano último meio século: “A esperança de vida aumentou de 59 anos a 75 anos, a mortalidade infantil reduziu-se de 96 por 1.000 a 16 por 1.000, a pobreza extrema caiu pela metade e pela primeira vez na história, há mais latino-americanos na classe média do que na pobreza”.

Bruno Lino, que trabalhava em loja que fechou em São Paulo

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No Brasil, a queda da renda é muito pior que a queda do PIB. O prognóstico é bem negativo para o futuro, principalmente nas zonas metropolitanas. Marcelo Neri, pesquisador e ex-ministro do Governo Dilma

A síntese de Kim não detalhava que esses avanços se interromperam quase por completo na década perdida dos anos oitenta. E que devem muito ao que Eduardo Gudynas, do Centro Latino-americano de Ecologia Social, chama da “conjugação inesperada”na década vencida (2004-2013): “Os altos preços de matérias-primas geraram maiores excedente e reforçou-se o papel do Estado no combate à pobreza”.

Gudynas sublinha que se privilegiaram as compensações em dinheiro, em referência a programas de transferência de renda como o brasileiro Bolsa Família. Houve também avanços na redistribuição dos rendimentos, embora a América Latina continue sendo, de longe, a área mais desigual do mundo. Guillermo Calvo, da Universidade Columbia, teme que os lucros sociais não consigam se manter: “O déficit fiscal leva a um ajuste. Pode ser que as transferências aos pobres se mantenham, mas vai se tirar do investimento, o continente crescerá menos e serão criados menos empregos”, prognostica. “Muitos dos que ingressaram nas classes médias vão cair de nariz.”

No Brasil: queda da renda e desemprego

No caso do Brasil, a desaceleração da economia já cobra fatura na área social, segundo o economistaMarcelo Neri, ex-ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos do Governo Dilma. “A desigualdade parou de cair no país e agora ela está andando de lado. O que me preocupa nessa era de desajustes de contas públicas é que a desigualdade não vai voltar a cair nos próximos anos e estagnamos em um nível alto”, afirma Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da FGV-RJ e ex-presidente do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas).

O especialista explica que nos últimos anos, a melhora na distribuição de renda brasileira não se deu apenas pela implementação de programas sociais, como o Bolsa Família. Segundo Neri, o fator que mais contribuiu para melhorar a vida dos 40% de brasileiros mais pobres foi o aumento da renda média do trabalhador. Durante a última década, a parcela mais pobre do Brasil viu seus ingressos crescerem 5,8% ao ano. “Ou seja, avançava muito mais que o PIB brasileiro, sendo que, desse valor, 3,9% vinham da renda do trabalho. Eles subiram na vida porque trabalharam, pois o mercado estava aquecido e algumas questões estruturais avançaram, como a educação. Claro que os programas sociais deram um empurrão, mas a maior parte veio do esforço do trabalhador”, explica.

Pode ser que as transferências aos pobres se mantenham, mas serão criados menos empregos. Muitos dos que ingressaram nas classes médias vão cair. Guillermo Calvo, da Universidade Columbia

É justamente esta renda do trabalhador que tem caído fortemente neste ano de recessão e de certo panorama de estagflação, uma combinação de inflação e desemprego altos. “A queda da renda é muito pior que a queda do PIB em si. Na virada deste ano, a reversão foi muito rápida e o prognóstico é bem negativo para o futuro, principalmente nas zonas metropolitanas”.

O economista avalia que ainda é cedo para concluir que os avanços conquistados estejam em risco em nível nacional, no entanto já vê alguma regressão “do que foi conquistado pelas classes mais baixas principalmente nas regiões metropolitanas e nas periferias”. Um das pressões contra essas conquistas é a queda do emprego formal. Só neste ano foramfechados mais de 600.000 postos formais de trabalho nos dados contabilizados até setembro pelo Ministério do Trabalho. É o pior resultado desde 1992. Nos últimos 12 meses, as perdas chegam a 1,2 milhão de vagas.

Na opinião do cientista político Pedro Fassoni de Arruda, da PUC, a nova política de ajustes das contas públicas no país, que avalia necessária, inevitavelmente implicará em cortes na educação e saúde. “Mas os avanços estruturais dos últimos anos foram importantes e não devem voltar a estaca zero. Ainda estamos em um momento conjuntural”, conclui.

Fonte: El País

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