Escola do RS usa tecnologia para trabalhar projetos interdisciplinares

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Foto: Marcelo Oliveira/Agência RBS

Foto: Marcelo Oliveira/Agência RBS

 

Você sabe como o leite se forma dentro do corpo das vacas? Ou quais combinações químicas ocorrem no motor de um trator para ele “pegar” e o motorista dar a partida? Sabe explicar o que acontece dentro de um celular quando ele “lê” aqueles códigos do tipo QR?

Os alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Zeferino Lopes de Castro, de Viamão (RS), na região metropolitana de Porto Alegre, não só sabem como conseguem explicar os processos para os professores e para as famílias usando diversas tecnologias. Desde 2013, a unidade, que fica na zona rural do município, modificou a proposta pedagógica e tem, além das aulas regulares, períodos dedicados ao desenvolvimento de trabalhos interdisciplinares, realizados em grupos que integram alunos do 1º ao 3º ano e do 4º ao 9º ano.

O desenvolvimento dos projetos, da concepção até a apresentação para a comunidade, segue sempre o mesmo processo. Os professores definem, nas reuniões pedagógicas, um destino para levar os 112 alunos do 1º ao 9º ano – a chamada “saída disparadora”, que tem relação com os temas previstos no currículo da escola e, consequentemente, com a realidade da escola.

A escolha do lugar é importante porque a visita deve suscitar a curiosidade das turmas. Entre os lugares já visitados, estão, por exemplo, o Centro de Estudos Budistas Bodisatva de Viamão, o Museu de Ciências e Tecnologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e uma fazenda de produção de leite, que motivaram, respectivamente, pesquisas sobre dragões, magnetismo e o projeto já citado sobre a composição do leite bovino, entre outros temas.

No dia seguinte à visita, os professores fazem rodadas de perguntas com os alunos, numa sessão que reúne toda a escola, questionando-os sobre o que mais gostaram e principalmente sobre o que mais gostariam de saber sobre o que viram. Com as dúvidas – por exemplo, “como o vento se transforma em energia?” – tornadas “públicas” para todos, ocorre o agrupamento das crianças em torno das questões comuns. Ou seja: aqueles que se interessam por um mesmo tema farão o trabalho juntos, independente do fato de serem amigos ou colegas do mesmo ano.

“No princípio, tentamos deixar os pequenos com os grandes, mas não deu certo. Os menores ainda estavam sendo alfabetizados enquanto os mais velhos tinham outros interesses. A diferença de idade atrapalhava. Então, acabamos separando. Os mais velhos têm uma postura mais investigativa”, explica a diretora da Zeferino, Rosa Maria Friedl Stalivieri, no carog há pouco mais de um ano. Rosa lecionava na escola quando o projeto começou, saiu para dirigir outra unidade e retornou como diretora.

Execução
A partir do momento de definição dos grupos, os alunos têm entre seis e oito semanas para desenvolver os trabalhos e responder à pergunta inicial. A resposta deve ser publicada na forma de um site didático, construído pelos estudantes, com base nas pesquisas feitas. Todas as páginas são feitas na plataforma gratuita Google Site pelos próprios alunos. A página deve reunir todos os passos do projeto: a pergunta principal (“Como o vento produz energia?”, “Como o corpo da vaca produz o leite?”, entre outros exemplos), as dúvidas adicionais, as curiosidades e os conhecimentos que as crianças já têm antes de dar início às pesquisas. “Essas certezas são temporárias, porque tudo começa a mudar conforme eles começam a esmiuçar o tema”, afirma a diretora.

Conforme a pesquisa se desenvolve, os estudantes montam um protótipo de algum sistema funcional, com o objetivo de mostrar, na prática, para toda a turma, os detalhes sobre o objeto de estudo. Essa atividade é realizada normalmente nas oficinas de robótica, de jogos digitais e de multimídia que a escola promove, como apoio ao desenvolvimento do projeto. O grupo que estudou o leite bovino, por exemplo, montou um sistema com potes plásticos de sorvete e usou água com leite de magnésia. Já outro grupo reproduziu uma retroescavadeira com seringas.

Todo o processo de pesquisa é informatizado, já que os alunos pesquisam em sites de busca e em arquivos digitais. “Os pequenos costumam procurar mais por vídeos para entender como algo funciona. Já os maiores leem mais”, explica o professor de matemática da Zeferino, João Rodrigues Roxo Junior. “Os temas vão surgindo – no fim, a aula de projetos é uma aula sobre várias coisas e, principalmente, sobre a aplicação delas. É o interesse deles que protagoniza o processo.”

Segundo ele, que também é responsável pelas oficinas de robótica há pouco mais de um ano, na construção do protótipo os alunos são obrigados a pensar em vários conceitos. Alguns projetos acabam rendendo maquetes e não “engenhocas”, mas a ideia é sempre que as crianças despertem para as possibilidades de aprender por diversos caminhos.

Em outro projeto, os alunos decidiram estudar o funcionamento do QR Code – aquele tipo de código de barras bidimensional que, ao ser lido pela câmera de um celular, por exemplo, aciona algum comando (clique aqui para ver um exemplo). O objetivo deles era entender que informações contém um QR Code, como elas são dispostas na imagem e como são interpretadas pelo equipamento que faz a leitura. No dia da apresentação dos trabalhos para a comunidade, os alunos espalharam diversos códigos pela escola. Para lê-los, os visitantes deveriam baixar o aplicativo desenvolvido pela turma e, ao decifrar cada palavra, deveriam montar uma frase. Quem conseguisse, depois de ouvir as explicações dos alunos, ganhava um chocolate, o que fez sucesso ao envolver a comunidade.

Rotina diferente
Os projetos ocupam três turnos – dois pela manhã e um à tarde –, totalizando 12 horas semanais. É nesse tempo que os alunos se reúnem com os professores, debatem o trabalho e fazem pesquisas. Como faz parte do Mais Educação, programa de expansão da jornada escolar do governo federal, a unidade é integral, o que facilitou a adoção desse novo sistema.

No período de desenvolvimento do projeto, toda semana há uma espécie de atualização coletiva, em que os grupos mostram como estão evoluindo – inclusive para os colegas que estudam outros temas. A cada rodada, o número de projetos muda – a escola já chegou a ter 22 ao mesmo tempo. Os grupos sempre mudam, de forma que um mesmo aluno pode trabalhar com colegas de diversas idades e anos diferentes, além de professores com quem ainda não têm aulas regulares.

“Esse contato é muito rico, especialmente para os menores”, explica a professora Cláudia Drese. “Melhora o relacionamento entre todos e eles desenvolvem habilidades como ter iniciativa, dar opinião, saber explicar e falar em público, entre outras coisas que serão importantes no futuro, inclusive no mercado de trabalho.”

Como cada projeto pode durar até 8 semanas, acabam ocorrendo, por ano, quatro rodadas – ou seja, são quatro saídas disparadoras. Como a escola é considerada pequena, os professores afirmam que é mais fácil administrar. Mas a diretora lembra que, por ter uma rotina dinâmica, o trabalho às vezes é dobrado. “Há o momento de aula, de projeto, de oficina. Há a troca de grupos, professores e orientadores de grupos. Esse dinamismo todo exige bastante de todos nós”, conta.
No final da rodada de projetos, ocorre a mostra para toda a comunidade, numa espécie de feira escolar. As famílias votam em quatro projetos – dois por criatividade e dois por conhecimento.

Equipamentos e infraestrutura
A decisão da Zeferino de implantar o sistema de projetos foi tomada depois que a escola recebeu equipamentos tecnológicos do Programa Escolas Rurais Conectadas, promovido pela Fundação Telefônica/Vivo. Trabalhar com projetos interdisciplinares não é uma exigência do programa – a ideia foi do corpo docente da escola.

A escola foi selecionada em 2013 para participar do programa, que atua com formação de professores, disseminação de material pedagógico e distribuição de equipamentos tecnológicos. O Escolas Rurais Conectadas já levou internet 3G a mais de 10 mil unidades rurais em nove estados. No caso da Zeferino, além de ser beneficiada com o recebimento de tecnologia, a escola foi “adotada” como laboratório do programa por ter o porte ideal para a aplicação e o uso de práticas inovadoras de aprendizagem. Todos os alunos entre o 1º e o 3º anos receberam um tablet e, os do 4º ao 9º, um netbook, que podem ser levados para casa. O uso é individual e a escola estimula que cada um cuide bem do próprio equipamento. Os professores receberam notebooks, sendo que aqueles que lecionam para os mais novos receberam também um tablet.

O programa levou para a Zeferino um laboratório de informática, kits de robótica, uma impressora 3D, filmadoras, projetores e uma conexão por meio de fibra ótica, essencial para que tudo funcione. A parceria da fundação com a Zeferino foi prorrogada até o ano que vem, quando a Telefônica/Vivo.

Para a gerente de projetos da Fundação Telefônica/Vivo, Mila Gonçalves, Viamão é um caso de sucesso no projeto por diversos fatores. “Ter infraestrutura disponível, uma secretaria de Educação disposta a ser parceira e motivação da escola e da equipe pedagógica são elementos de uma combinação que não é muito fácil encontrar”, afirma. Para ela, as mudanças na escola são nítidas.

A secretária de Educação de Viamão, Márcia Colou, concorda. “Desde que a Zeferino entrou no projeto, muitas mudanças ocorreram. Hoje colhemos bons frutos de 2013 e 2014 que foram anos de muito conhecimento e experimentações. Após tantas adaptações, considero que estamos na fase ideal, já que a escola conquistou a sua identidade e os alunos têm um sentimento de pertencimento em relação a ela”, diz. A experiência da Zeferino vai inspirar mais oito escolas da rede municipal de Viamão a trabalhar com projetos (leia mais aqui).

Obstáculos e aprendizado coletivo
O Todos Pela Educação esteve na Zeferino no início de setembro e acompanhou uma reapresentação de diversos projetos. As crianças mostraram os sites e os protótipos. Quem assiste às explicações pensa que a escola funciona assim há bastante tempo, tamanha é a naturalidade dos grupos ao falar sobre as pesquisas. O esquema de trabalho agrada alunos, famílias e professores. Mas nem sempre foi assim: o começo foi bastante complicado.

“Houve muita discussão entre os professores e faltava referencial teórico para montarmos a proposta”, afirma a diretora Rosa. “Os que não se adaptaram saíram por conta própria. Como temos um desenho de escola hoje, passado o período principal de experimentações, as coisas estão mais fáceis. Alguns chegam assustados, mas entendem o nosso ritmo aos poucos.”

Em relação a uma escola comum, a grade horária não é muito diferente. No caso de matemática, os alunos têm quatro períodos de aula, enquanto outras escolas da rede têm cinco. “Mas o que o aluno perderia de aula, ele ganha no momento do projeto, que é quando os conhecimentos são potencializados”, explica ela.
Para chegar a esse “modelo” atual, foram superados muitos obstáculos. “Tentamos fazer uma carga horária com mais aula seriada do que projeto. Depois invertemos… e acabamos mudando de novo, até encontrar um modelo balanceado”.

Ela não descarta mais mudanças no futuro. “Acho que, no futuro, podemos aumentar o tempo de projeto porque todos estão entendendo, especialmente a comunidade. Mas para isso é necessária uma lei – tem que ser legal perante ao município, e isso deve ser debatido com a prefeitura” (leia mais aqui).

O maior desafio é, segundo os professores, trabalhar conteúdos que os alunos ainda não tiveram em aula – e que, muitas vezes, ainda vão demorar a ter. Por exemplo: um projeto sobre imãs envolve conceitos de magnetismo que não fazem parte das orientações curriculares do 5º ano. “Quando eles vêm com uma dúvida que não faz parte do currículo daquele ano, temos que pensar na melhor forma de explicar. O aluno tem direito de ter dúvida e interesse no que ele quiser e não só quando chega o momento determinado de aprender um conteúdo específico”, afirma a professora de ciências Jamile da Silva Rodrigues.

Para o professor João, trabalhar na Zeferino enriqueceu a formação docente. “Tenho que aprender e me atualizar sempre, especialmente por conta do uso de tecnologia”, diz.

Famílias
Com a mudança no currículo da escola, os pais estranharam a nova grade de horários dos alunos. Até a ideia virar realidade, houve muita discussão. “A comunidade ficou apavorada e eu, como mãe de aluno daqui, também, porque nós perguntávamos como havia sido o dia deles e eles respondiam: “não tive aula, só projeto”. Imagina os outros pais… eles não entendiam”, lembra a diretora.

O maior problema inicial era a falta de horários bem definidos, o que foi corrigido com o tempo, segundo ela. “Hoje, eles entendem os projetos e sabem como funciona. Tanto que ninguém mais vê a Zeferino sem ser nesse modelo que trabalha com projeto. Os pais inclusive comentam que é bastante difícil escolher só dois trabalhos entre os cerca de 20 que acontecem por rodada.”

Avaliação
Vários critérios para avaliar os projetos já foram discutidos pela equipe pedagógica da escola – incluindo a possibilidade de contar nota para todas as disciplinas. Hoje, o boletim do aluno vem com as notas por disciplina e uma observação sobre o desempenho nos projetos desenvolvidos, feita pelos professores que coordenaram.

“Chegou a acontecer de alguns não aparecerem nas aulas de projeto – só nas aulas regulares”, lembra Rosa. Hoje, a adesão dos alunos, no geral, é boa, incluindo a dos adolescentes.

 

FONTE: Todos Pela Educação – http://www.todospelaeducacao.org.br/reportagens-tpe/35764/escola-do-rs-usa-tecnologia-para-trabalhar-projetos-interdisciplinares/

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