E os outros 90%?

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por Felipe Vieira, jornalista

 

O Rio Grande do Sul chegou nesta sexta-feira a uma situação limite, o fundo do poço! Não há mais o que cavar nos cofres públicos para pagamento dos funcionalismo. Não existem novas soluções criativas que empurrem o problema com a barriga para 2016, 2017 ou 2018. A hora é de enfrentar a questão de frente. Como dizia o meu querido Joelmir Beting: “No Brasil, sempre temos que torcer para que a luz no fim do túnel, não seja um trem na contramão para nos atropelar”. Infelizmente, para nós a torcida acabou. O Estado era um trem na contramão e nos atropelou a todos.

Entendo que o funcionalismo deve ser pago em dia. Nenhum de nós da iniciativa privada gostaria de receber seus salários em atraso e com isso criar um efeito cascata de atrasar nossas dívidas e pagar consequentemente juros e correção. Por sinal a maioria dos servidores públicos, aqueles que estão na ponta do atendimento onde a população mais precisa saúde, educação e segurança ganham mal e vão ter problemas maiores para pagar suas contas. Segundo a Secretaria da Fazenda, 92% recebem menos de R$ 5.000 mês.  Sim, 8% representam 48% dos gastos com estatais com salários. A bola de neve vai crescer, e os reflexos vão se sentir nas áreas de comércio e serviços rapidamente.

O parcelamento do salário do funcionalismo é uma péssima alternativa, mas ninguém me apontou uma melhor. Ainda bem que os governantes não têm uma máquina de fazer dinheiro. Porque eles não resistiriam e irresponsavelmente fariam mais dívidas e agravariam ainda mais nossa situação. Não é de hoje que entrevisto economistas que previam a catástrofe do Rio Grande do Sul. Antes que alguém atire a primeira pedra em um integrante do funcionalismo, lembre-se: eles não são culpados sozinhos. Há uma parcela de culpa muito grande da sociedade que foi alertada e não tomou nenhuma providência, deixando o corporativismo tomar conta. Muitas vezes ouvi de forma irresponsável: “O Estado não quebra”. Pois bem, quebrou! E agora?

Agora é hora de pararmos de chorar e nos lamentar. O Rio Grande do Sul não pode ser tomado pelo chororô. Nós, os 90% da população não podemos entrar nessa onda como se todos fossemos funcionários públicos. Espero, sinceramente, que não passe pela cabeça do governador Sartori de que a solução seja o aumento de impostos. Não confunda nossa solidariedade e até parcela de responsabilidade por omissão da crise vivida pelo Estado. Esta forma errada de delegarmos tudo para os nossos “representantes”.

Nos últimos anos, fomos vitoriosos em dois momentos, quando os gaúchos gritaram CHEGA DE AUMENTO DE IMPOSTOS. Os deputados estaduais nos ouviram, mas, infelizmente, quando nos descuidamos, a maioria deles acabou cedendo a pressão das corporações. Galerias lotadas fizeram eles esquecer que quem paga a conta somos nós. Por sinal, se esses que seguem lá e votaram com as corporações tivessem vergonha na cara, parcelavam seus salários e os de seus apaniguados.

Não há como suportarmos mais um aumento da carga tributária. Sei que o funcionalismo também paga impostos e espera que mais uma vez eles se levantem contra a solução fácil. Os 90% que não estão envolvidos diretamente com a questão já estão esgotados. Cansados de ter que sacar dinheiro do bolso para pagar não o salário baixo de quem trabalha dentro da sala de aula, nos hospitais e postos de saúde ou nos dando segurança nas ruas. Mas, das castas que se estabeleceram no serviço público e querem seguir sugando o leite não percebendo que a vaca magra está moribunda.

A hora é de Sartori, o governador de plantão em quem estourou a bomba na mão chamar todo mundo e sabermos como vamos dividir o fardo. Não é crível que os 90% de gaúchos e gaúchas simplesmente sejam chamados a pagar a conta sem saber como vamos acabar com o problema. Porque senão o próximo governador de plantão vai ter a mesma solução e o seguinte também e cada vez mais nossa querência amada ficará empobrecida.

 

FONTE: http://felipevieira.com.br/site/opiniao-e-os-outros-90/

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