A Música na União Soviética

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Imagine participar de um jogo sem que ninguém tenha lhe revelado quais são as regras, e o preço por quebra-las pode significar a morte.

Ser um artista num estado totalitário significa participar de um jogo surreal de armadilhas mortais, submissão, humilhação, traições periódicas. Neste contexto o compositor Dmitri Shostakovich brincou de gato e rato com as autoridades soviéticas durante toda sua carreira.

Muito de seus amigos e colegas morreram ou foram confinados nos brutais gulags soviéticos, mas Shostakovich sobreviveu.

O compositor nasceu em São Petersburgo no dia 25 de setembro de 1906. Ele sobreviveu à Revolução Russa, ao grande terror stalinista que dizimou cerca de trinta milhões de russos e a Segunda Guerra Mundial. Seus pais o matricularam no Conservatório da então capital do império em 1916.

Seus professores e colegas ficaram impressionados com seu talento musical ao escutar sua obra de conclusão de curso, a 1ª Sinfonia. Esta lhe valeu uma boa soma em dinheiro que lhe permitiu trabalhar numa obra para orquestra e coral para homenagear o 10º aniversário da revolução bolchevique. Assim foi criada a 2ª Sinfonia.

Após lançar a 3ª Sinfonia que homenageou o Dia do Trabalho, Shostakovich enveredou para o terreno lírico. Sua primeira ópera, O Nariz, baseou-se num conto de Nikolai Gogol e foi apresentada ao público em 1929.

Durante o período em que Lenin governou a União Soviética, as artes não sofreram qualquer cerceamento no que diz respeito a liberdade criativa. Já sob Stalin, teve início um longo período de repressão ao estilo modernista.

A música de Shostakovich foi acusada de excesso de formalismo, designação soviética para qualquer estilo com sabor muito forte de modernismo ocidental. O Nariz desapareceu dos palcos soviéticos e só foi visto outra vez em solo russo em 1974.

O compositor mudou seu estilo, usando sua música como trilha sonora de filmes como As Montanhas Douradas, Sozinho e Contraplano cujos enredos atacavam os patrões capitalistas e os proprietários de terra que obstruíam a experiência soviética de coletivização agrária. Consta que Stalin encantou-se com A canção do contraplano, que veio a se tornar uma das melodias mais representativas da era soviética.

Empolgado com seu sucesso perante as autoridades, Shostakovich escreveu uma nova ópera intitulada Lady Macbeth do Distrito de Metzensk. A trama foi inspirada num texto de Nikolay Leskov, escrito em meados do século XIX. A ópera estreou em Leningrado, em 1934 sendo muito bem recebida pelo público. Em janeiro de 1936, Stalin, um grande apreciador de óperas, foi ao Teatro Bolshoi assistir à Lady Macbeth. Shostakovich estava presente e foi com pavor que assistiu a Stalin e outros importantes membros do Politburo retirar-se do camarote antes do final do espetáculo.

Dias após, o Pravda, órgão oficial do Partido Comunista, divulgou um editorial não assinado intitulado Caos em vez de música. Criticas contundentes foram feitas ao enredo, considerado obsceno bem como à música composta de sons dissonantes e desordenados. O editorial encerrava com a frase: Shostacovich está fazendo um jogo que poderá terminar muito mal.

Naquela época, terminar muito mal significava ser executado como inimigo do povo, ser preso e desaparecer ou ser exilado para um gulag na Sibéria.

Shostakovich entendeu de imediato a precariedade de sua situação. A sogra do compositor foi presa e enviada para um campo de trabalhos forçados e sua irmã foi exilada para a Ásia Central. Começava o período do grande terror de Stalin, contra políticos e representantes das artes em geral.

O autor sobreviveu. Baixou a cabeça, selou os lábios e cancelou o lançamento de sua 4ª Sinfonia. Ele só iria iniciar sua reabilitação com o lançamento da 5ª Sinfonia, em novembro de 1937. A nova obra apresentava o estilo exigido pelo Partido: acessível ao grande público e harmonioso.

Com a chegada da Segunda Guerra Mundial e a invasão da União Soviética pelos nazistas, Leningrado viu-se submetida a um cerco que durou quase 900 dias. Enquanto o exército e o povo resistiam às investidas do exército alemão, Shostakovich compôs sua 7ª Sinfonia que recebeu o nome de Leningrad.

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Cópias microfilmadas da partitura chegaram à Londres e a Nova Iorque. A 7ª Sinfonia foi interpretada dezenas de vezes nessas cidades bem como em Moscou a na própria Leningrado. A sinfonia passou a representar a combatividade e resistência do povo russo. Pela primeira vez em sua história a revista americana TIME publicou em sua capa a foto de um compositor. Nela, Dmitri Shostakovich aparece com seu capacete de bombeiro voluntário. Ele havia se alistado no exército vermelho, mas foi recusado devido o alto grau de miopia.

Apesar de sua posição de herói e estar nas boas graças de Stalin, Shostakovich e outros importantes compositores russos como Grigori Popov, Nikolai Miaskovski, Sergei Prokofiev, Vano Muradelli e Aram Katchaturian, todos distinguidos com o prêmio Stalin de Música, entraram em desgraça com a União de Compositores Soviéticos. Isto ocorreu no ano de 1948. Devido às suas tendências formalistas os músicos tiveram que fazer uma autocrítica pública. Como exemplo, citamos o depoimento de Vano Muradelli, em relação à sua ópera A grande amizade:

Minha ópera é uma aberração para o ouvido humano normal. É um fracasso como criação artística já que eu falhei em percorrer os falsos caminhos da invenção musical e do formalismo.

Com a morte de Stalin em 1953 e o posterior colapso da União Soviética acabaram-se as regras impostas aos músicos, escritores e demais membro de movimentos artísticos. Todas essas regras, formuladas por dezenas de burocrata a serviço do poder podem ser resumidas numa única palavra: CENSURA.

Clique aqui e assista parte da abertura da 5ª Sinfonia de Shostakovich:

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