Viviane Senna defende novo modelo de educação para o século XXI

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Foto: BBC Brasil

No mês passado, o Instituto Ayrton Senna abriu uma nova seara de atuação com a inauguração do chamado “Edulab21″, um laboratório de inovação dedicado a produção e disseminação de pesquisas científicas que possam contribuir para a formulação de políticas públicas para a educação.

“A ideia é gerar e disseminar conhecimentos que possam ajudar a levar o século 21 para dentro da escola”,

explica Viviane. Em uma cerimônia para promover a iniciativa, a psicóloga explicou para a BBC Brasil por que acredita que o sistema educacional parou no século 19 e o que é preciso fazer para resolver esse problema. Confira:

BBC Brasil – Por que a senhora diz que a escola está ficando para trás?

Viviane Senna – Se pudéssemos transportar um cirurgião do século 19 para um hospital de hoje, ele não teria ideia do que fazer. O mesmo vale para um operador da bolsa ou até para um piloto de avião do século passado. Não saberiam que botão apertar. Mas se o indivíduo transportado fosse um professor, encontraria na sala de aula deste século a mesma lousa, os mesmos alunos enfileirados. Saberia exatamente o que fazer. A escola parece impermeável às décadas de revolução científica e tecnológica que provocaram grandes mudanças em nosso dia a dia. Ficou parada no tempo, preparando os alunos para um mundo que não existe mais.

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BBC Brasil – O que há de tão errado com a educação hoje?

Viviane Senna – Um dos problemas é que o professor não tem a menor chance de ser a “fonte do conhecimento”, com o conhecimento se multiplicando de forma exponencial, em questão de segundos. Até o século passado, uma descoberta revolucionária demorava décadas para acontecer. Hoje, temos uma grande inovação a cada cinco anos. Só neste ano a previsão é de que sejam produzidos mais conhecimentos e informações do que nos últimos 5 mil anos. Na prática, isso significa que se um aluno começa um curso técnico de quatro anos, por exemplo, quando chega ao terceiro ano, metade do que aprendeu no primeiro já está defasado.

Não dá para continuar com um sistema em que o professor é o detentor do conhecimento e o aluno um arquivo em que esse conteúdo deve ser “depositado” – basicamente, o modelo do século 19. Precisamos levar o século 21 para a escola. O que significa criar sistemas que deem aos alunos oportunidade e capacidade de acessar esse arsenal de novidades produzido de forma constante em diversas disciplinas.

BBC Brasil – O que seria a escola do século 21?

Viviane Senna – Quando falamos em escola do século 21 as pessoas pensam que estamos falando em levar tablets e smartphones para as salas de aula. Não é só isso. É claro que essas novas tecnologias da informação são importantes, mas não são suficientes. São uma pequena parte dessa imensa revolução na produção de conhecimento que estamos vivenciando. O que precisamos é de uma escola que consiga preparar as crianças para viver, se relacionar e trabalhar em um mundo complexo como o que temos hoje, uma sociedade e uma economia do conhecimento.

A criança não pode apenas decorar conceitos ou receber informações do professor. Precisa desenvolver um pensamento crítico e um raciocínio lógico aguçado, desenvolver sua capacidade de inovar, ser criativa e flexível e de resolver problemas. Essas habilidades socioemocionais são cruciais para que as pessoas e países possam prosperar. E o professor deve ser um mediador nesse processo. Mais do que o conhecimento certo, precisamos fomentar as atitudes certas.

Qual casamento sobrevive se o casal não tiver muita flexibilidade, persistência, criatividade? Não adianta ser inteligente. Essas habilidades são determinantes, seja na vida pessoal, na família, no trabalho e na vida em sociedade. E elas podem e devem ser desenvolvidas intencionalmente. Devem deixar de ser um currículo oculto para se tornar uma meta do sistema de ensino, como a aquisição de determinados conhecimentos de português e matemática.

BBC Brasil – O que pode servir de inspiração para a mudança?

Viviane Senna – Há diversas experiências interessantes nessa área. No Japão, por exemplo, desde a pré-escola as crianças passaram a receber brinquedos grandes, com os quais não podem brincar sozinhas. Elas precisam da ajuda dos amiguinhos. O objetivo é desenvolver a competência de colaboração nos alunos desde pequenos, porque eles já entenderam que essa capacidade de trabalhar em grupo será importante para os japoneses em um mundo globalizado, em que eles têm de lidar com pessoas e povos de cultura diferentes.

No Colégio Estadual Chico Anysio, no Rio de Janeiro, em parceria com a Secretaria Estadual de Educação do RJ, já trabalhamos esses conceitos sobre os quais falei. Os alunos participam de três tipos de projetos: de intervenção, em que trabalham em times para levar adiante ações envolvendo a escola e a comunidade; de pesquisa, em que fazem pesquisas relacionadas a diferentes áreas de conhecimento; e os projetos de vida, em que refletem sobre suas trajetórias escolares e vivenciam situações que lhes permitam construir suas identidades e projetos de vida.

Em escolas públicas do interior de São Paulo, junto com a Secretaria Estadual de Educação de SP, desenvolvemos soluções educacionais em que os estudantes desenham e colocam em prática ações para melhorar a escola e comunidade. E, para chegarem a soluções para problemas reais, aprendem conceitos básicos das disciplinas regulares, como Português e Matemática. Também criamos, em parceria com a OCDE e as secretarias estadual e municipal de educação do Rio, um sistema para avaliar o os resultados desses projetos, o SENNA – sigla em inglês para avaliação nacional de competências socioemocionais ou não cognitivas.

BBC Brasil – O Instituto Ayrton Senna está lançando um centro de estudos que vai coletar e produzir pesquisas para contribuir para a ‘evolução’ da escola. Que tipo de descoberta pode ajudar?

Viviane Senna – Na área de neurociência, por exemplo, estamos avançando no conhecimento das chamadas funções executivas, ligadas ao córtex pré-frontal. Algo que se descobriu recentemente, e que tem sido confirmado por pesquisas na área de psicologia e economia, é que as capacidades de você autorregular seu comportamento, estabelecer metas e ser persistente na busca dessas metas, ter disciplina e responsabilidade têm um impacto imenso na aprendizagem escolar e na sua trajetória pessoal e profissional.

Uma criança disciplinada, perseverante e focada aprende. E as pesquisas mostram que pode ter tanto ou mais sucesso na escola e fora dela do que uma criança considerada muito inteligente, com QI alto. Não adianta ser um Einstein em potencial. Então algo que precisamos pensar seriamente é como desenvolver essas qualidades. Outra coisa interessante que as pesquisas têm mostrado é que as habilidades socioemocionais podem ter um impacto maior que o nível socioeconômico de uma criança em seu desempenho escolar.

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BBC Brasil – Como assim?

Viviane Senna – Há vinte anos, era comum ouvir no Brasil que as crianças pobres não conseguiam aprender direito porque eram subnutridas, não comiam bem. Esse discurso foi superado, mas muita gente ainda continua tentando atribuir o problema do fracasso escolar a dificuldades criadas pelo nível socioeconômico dos alunos. Como se esse fosse um fator determinante. A escola lava as mãos. Diz: a criança não aprende porque é pobre, vem de uma família desestruturada.

Há de fato alguma correlação entre nível socioeconômico e aprendizagem, mas o papel da escola é mudar isso. Senão teríamos de concluir que é preciso enriquecer todas as crianças brasileiras e suas famílias para que elas consigam aprender – o que é um absurdo. A educação deve ajudar na ascensão social da criança. Não o contrário. O que os estudos mostram é que mesmo crianças pobres, com backgrounds familiares desfavoráveis, conseguem prosperar na escola e na vida se tiverem as habilidades socioemocionais certas.

BBC Brasil – Especialistas dizem que, embora nos últimos anos o Brasil tenha conseguido aumentar a média de anos de estudos da população, ainda não avançamos na questão da qualidade. Algum sinal de mudança?

Viviane Senna – Na área de educação pública, o Brasil é como um espadachim, obrigado a lutar em duas frentes. De um lado, temos tarefas bastante primárias pendentes. Ao contrário de países desenvolvidos, ainda precisamos ensinar a população competências cognitivas básicas como ler e escrever. Ao mesmo tempo, o país também tem de começar a adaptar as escolas públicas para atender a essas novas demandas do século 21. A boa noticia é que as habilidades requeridas pela realidade de nosso século facilitam o desenvolvimento das habilidades cognitivas básicas. Ou seja, se fizermos avanços em uma frente, avançar na outra se torna mais fácil.

BBC Brasil – Mas estamos dando algum passo para avançar na questão da qualidade? Em um momento o governo promete que seu lema será ‘pátria educadora’. Logo em seguida, a educação é atingida pelos cortes para promover o ajuste fiscal …

Viviane Senna – O Brasil está em um momento bastante difícil do ponto de vista econômico, político e ético. E a educação não pode ser isolada desse contexto adverso. Mas acho que nossa grande tarefa hoje ainda é identificar qual direção queremos tomar em termos de educação pública, porque se não sabemos para onde vamos, não importa se o contexto está favorável ou não. Nenhum vento ajuda quem não sabe em que porto quer atracar.

 

FONTE: BBC Brasil – http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/06/150525_viviane_senna_ru

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