TECNOLOGIA MOVIDA A CARVÃO

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O simples desejo de diferenciação ou a necessidade de entrar em contato com uma realidade mais crua e verdadeira constam entre os principais motivos para que o interesse das novas gerações pelo mundo analógico esteja em franco crescimento

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Um mundo com arestas, mais rústico, sem tanto polimento. Mais próximo, talvez, dos sentidos, do instinto, da autenticidade. Na contramão das previsões tecnomassificantes e de ordem generalista sobre o futuro – de origem mercadológica, acadêmica ou vindas do próprio público. A verdade é que o número de pessoas que preferem o analógico ao digital, a máquina de escrever ao notebook, o disco de vinil ao CD, o filme em película às câmeras e aos dispositivos que, como diziam os antigos, “só faltam falar”, é crescente.

E, o mais interessante disso tudo: grande parte desses interessados em equipamentos “movidos a carvão” não o são por saudosismo ou por apego a objetos relacionados a épocas já vividas – afinal, trata-se de jovens da geração Y, ou seja, de pessoas nascidas após os anos 1980, que cresceram em um mundo com internet e com fácil acesso às novas tecnologias.

Esse fenômeno cultural/comportamental é tema de um estudo iniciado em 2013 por Joonas Rokka, professor associado de Marketing na Neoma Business School (França), que realiza pesquisas sobre branding, cultura do consumo e mídias digitais.

De acordo com esse estudo – que abrange um grupo variado, em termos de formação e de origem, de adolescentes a balzaquianos, moradores de Helsinki, capital da Finlândia –, a tendência é mais presente na cena alternativa, em ambientes de contracultura mais distantes do hype da mídia digital. “Esses jovens querem sentir a sua cidade, ir para a rua, colecionar suas próprias impressões. Eles se interessam pouco pelo consumo massificado dos conteúdos online”, declara Joonas.

O professor acredita que a atração pelo analógico está diretamente relacionada à sobrecarga do mundo digital. “Em 2014, os LPs de vinil ressurgiram para alcançar milhões de dólares em vendas pela primeira vez em 18 anos. Como explicar o crescimento das vendas do vinil quando quase todas as músicas podem ser facilmente acessadas via sofisticadas tecnologias online? Também notamos uma tendência de volta à fotografia e ao cinema analógicos. As mídias nesse formato oferecem uma estética particular, não polida, que pode ser explorada e usada para criar novos significados. Eu diria que se trata de uma reação às emergentes e massificadas mídias digitais”, completa o acadêmico.

O psicanalista e ensaísta Tales Ab’Saber dá o seu parecer sobre os estímulos da atualidade que nos fazem voltar os olhos para o passado, aqui representado pelos objetos e produtos culturais: “É a tentativa de se reapropriar, de revalorizar as coisas, de fazer voltar o mundo do valor de uso das coisas. Na verdade, um valor de uso baseado em uma tentativa de produção de singularidade humana no mundo da corrosão geral, sem caráter, como dizia Sennett [Richard] da cultura geral de massa e de programação do desejo”.

Para Joonas Rokka, as pessoas encontram conforto e aconchego ao fazer links com o passado em um mundo que se encontra cada vez mais focado no futuro e se movendo a uma velocidade estonteante. “A cultura de consumo é muito apegada a seu passado. As tendências retrô e vintage são bons exemplos. Também enfatizo que esse ‘saudosismo do passado’ não é, a meu ver, a única nem a melhor explicação para esse ressurgimento das mídias analógicas. Muitos dos que entrevistei não tinham nenhuma experiência real com as mídias analógicas agora adotadas, jamais usaram máquinas de escrever ou escreveram uma carta a mão antes. Isso me leva a crer que há uma espécie de fascínio pela estética do passado que o analógico parece oferecer. Por outro lado, é uma conclusão apressada dizer que o analógico pode voltar e substituir o digital no futuro. Em vez disso, vemos a coexistência de várias mídias analógicas e digitais que podem assumir variadas formas e expressões.”

CHIADOS, TEXTURAS E RITOS

Interessado por discos de vinil, por máquinas de escrever e por filmes em película, o estudante de Letras Felipe Marcondes, de 24 anos, declara: “Sou das antiguidades. O disco e a película têm uma textura muito particular, impossível de emular fielmente no digital. O chiadinho do vinil é o exemplo mais evidente disso. Por outro lado, há a questão do ritual, de colocar o disco e ajeitar a agulha da vitrola. Além disso, há neles algo que considero muito valioso e que nos afasta do banal: nenhum adepto da fotografia analógica sai por aí tirando foto de tudo e queimando filme à toa”.

No entanto, Felipe confessa não abrir mão das novas tecnologias e das vantagens por elas oferecidas, especialmente no que diz respeito à democratização da produção e à divulgação da arte. “É ótima a facilidade que temos hoje para fazer um disco, um filme, fotografia; isso dá acesso e possibilita que mais pessoas produzam – eu me incluo entre os beneficiados. Esse gosto pelos aparelhos mais antigos é apenas outra via, nem melhor nem pior, nem mais autêntica nem mais falsa, apenas outra.”

O empresário, produtor musical e lenda viva da música independente paulistana, Luiz Calanca, é procurado por pessoas do mundo inteiro em busca de discos raros e originais, assim como de reedições em vinil de gravações antológicas. “A maioria dos jovens que hoje se interessa por discos históricos do Pink Floyd, do Black Sabbath e do Led Zeppelin, por exemplo, vem por influência de pais, mães e avós; eles querem resgatar algo que não viveram.”

Luiz, que há 35 anos comercializa discos de vinil e conta com um acervo de cerca de 110 mil títulos, acredita que a mídia também é responsável por esse interesse. “A mesma mídia que nos anos 1990 enterrou o vinil, voltou a valorizá-lo. Vi muitas pessoas se arrependerem amargamente de ter trocado coleções inteiras por alguns CDs, que atualmente não têm o mesmo valor de mercado do que um disco de época. Hoje o caminho é inverso, a mídia incentiva os jovens a valorizarem o vinil.” Ele ainda afirma: “O status agregado à diferenciação, ao conhecimento e à ostentação é outro fator determinante para que tantos jovens queiram comprar discos raros, muitas vezes disputados por colecionadores”.

Tales Ab’Saber ressalta que, dentre todos os objetos analógicos que retornam da massa geral de hiperinformação digital, o disco é realmente algo muito especial.

“Se um livro é um amigo que atravessa eras para transpor a cultura da humanidade e da diferença de um mundo para o outro, o disco, com seu encantamento gráfico e narrativo poderoso e sua dimensão de pequena obra de arte total, é o amigo íntimo, o amigo da vida, o amigo da rua, sempre próximo, a qualquer hora.”

Segundo o psicanalista, estes objetos são mais do que coisas, são parceiros de vivências em todos os níveis da vida subjetiva e marcos culturais profundos. “Eles são os verdadeiros objetos de arte de uma virtual sociedade democrática nunca plenamente realizada, e que hoje se realiza em uma infinidade de bits digitais esvoaçantes, incapazes de preservar em sua materialidade qualquer daqueles valores. Aqui, a nostalgia de algo antigo é a tentativa mais profunda de rememoração de elementos da humanidade que deixam rapidamente de influenciar o mundo da vida, certamente não para melhor”, finaliza.

Fonte: Revista da Cultura

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