A JAULA DE EZRA POUND

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Um poeta deste século que afirme não ter sido influenciado por Ezra Pound, merece mais a nossa piedade do que a nossa reprovação – Ernest Hemingway

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Quando os talibãs começaram a chegar à base americana de Guantánamo, a imprensa e a televisão divulgaram imagens do campo de detenção “Raios-X”. Ao invés de serem colocados nas tradicionais celas, os prisioneiros foram confinados em jaulas de 1,80 x 2,40 metros, onde o teto de zinco é ligado ao piso de cimento por uma tela de aço. O “hóspede” fica exposto às intempéries sem contar o desconforto causado pelas fortes lâmpadas halógenas que brilham durante toda noite. Esse tipo de cárcere vem sendo utilizado há muitos anos pelo exército norte-americano. Ao terminar a II Guerra Mundial, essas jaulas eram comuns no “Centro de Treinamento Disciplinar”, situado na cidade de Pisa. Um de seus prisioneiros foi Ezra Pound, poeta, escritor, ensaísta, músico, amigo de James Joyce, T. S. Elliot, William Yeats e Ernest Hemingway. Por um mês ele esteve “enjaulado” sob vigilância permanente. Foi o início de um período de reclusão que iria durar treze anos.

Segundo Peter Ackroid, um de seus biógrafos, Pound foi o responsável pelo modernismo nas letras, assim como Picasso foi para a pintura e Stravinski para a música.

Ezra Pound nasceu em Hailey no estado de Idaho em 30 de outubro de 1885. Após concluir seus estudos na Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia, lecionou por um curto período no Wabash College em Indiana. Por volta de 1905 começou a idealizar a estrutura dos “Cantos”, ciclo de poemas com mais de cinco mil versos que viriam se transformar na sua obra maior. O crítico Eugenio Montale considera “Os Cantos” como o mais vasto poema dantesco-joyciano que nossa época conheceu.

Convencido que a poesia era a maior razão de ser em sua vida, Pound abandonou o meio universitário e viajou para a Europa em 1908. Após morar alguns meses em Veneza, onde publicou seu primeiro livro chamado A Lume Spento, mudou-se para Londres onde passou a trabalhar para revistas literárias.

Data dessa época a sua amizade com William Yeats e James Joyce. Após ler os originais do Retrato do Artista quando Jovem, Pound começou a publicá-los em série na revista The Egoist. A admiração de Pound pela obra de Joyce foi comprovada com a divulgação dos primeiros capítulos de Ulysses em Little Review.

Em 1921, T.S. Eliot, convalescia de um colapso nervoso e decidido a parar de escrever entregou os originais de um livro de poemas para Ezra Pound. Este revisou e editorou o trabalho ainda incompleto, evitando que a obra maior de Eliot, The Waste Land caísse na obscuridade.

A partir de 1915 Pound lançou os primeiros Cantos, Cathay, Homage to Sextus Propertius e Indiscretions.

Em 1920, ele e sua esposa Dorothy foram viver em Paris, época em que conviveram com Cocteau, Hemingway e Stravinski. Foi nesse período que o escritor resolveu aventurar-se no mundo da música. Sua primeira composição para violino foi apresentada ao público em dezembro de 1923, num concerto realizado no Salão do Conservatório de Música. A violinista Olga Rudge, solista do espetáculo, acabou se tornando amante de Pound, e participou de um complexo triângulo amoroso que perdurou até a morte do escritor em 1972. O degrau mais alto que Pound galgou como compositor foi atingido com a encenação de sua ópera Le Testament. A estréia aconteceu na Sala Pleyel em 26 de junho de 1926, contando com a presença dos amigos T.S.Eliot, James Joyce, Jean Cocteau e Ernest Hemingway.

Até essa data Pound já tinha escrito 16 Cantos. Decidido a dar continuidade a sua obra, o escritor se mudou com a esposa para a pequena cidade de Rapallo, na Itália. No início da década de trinta, novos volumes dos Cantos já tinham sido lançados e um novo Ezra Pound começava a entrar em cena.

O escritor que nunca havia abraçado uma ideologia política descobriu Mussolini e aderiu ao fascismo de corpo e alma. Em paralelo a sua obra poética, começou a escrever uma série de artigos, onde textos raivosos eram dirigidos aos banqueiros de Wall Street, ao presidente dos Estados Unidos, ministros ingleses, editores de livros, jornais e revistas, professores universitários e escritores.

A exemplo de Richard Wagner, Pound entrou num processo de paranóia devido a problemas financeiros e começou a descarregar sua ira contra os judeus. Durante a segunda guerra ele apresentava um programa semanal na rádio governamental de Roma. Além das diatribes contra o presidente Franklin Roosevelt e ao sistema econômico norte americano, sua sanha antissemita passou a beirar os limites da insanidade.

Essas atividades fizeram com que o escritor fosse levado para o cárcere de Pisa no dia 24 de maio de 1945.

Depois de passar trinta dias na “jaula”, Pound perdeu a memória e sucumbiu. Foi transferido para o hospital da prisão onde após uma pequena melhora concentrou todas suas energias na criação dos 10 Cantos Pisanos. Meses mais tarde foi transferido para os Estados Unidos, onde seria julgado por alta traição. Submetido a uma junta de psiquiatras o escritor foi considerado insano, escapando do julgamento e da pena capital. Isso não o livrou de ser internado no pavilhão para loucos criminosos do Hospital St. Elizabeth em Washington. Ezra Pound só alcançou a liberdade em 18 de abril de 1958 quando seu processo foi arquivado. No final do mesmo ano ele retornou para a Europa, indo morar com sua filha Maria, nos Alpes Italianos. Em 1965 ele e Olga Rudge participaram do Festival de Spoleto, oportunidade em que a ópera Le Testament foi encenada em sua homenagem. Ezra Pound morreu em Veneza no dia 1º de novembro de 1972.

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