Todos têm algo a ensinar

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Em meados dos anos 90, a educação nos Estados Unidos passou por uma fase difícil. Estudos mostravam que apenas 40% dos alunos formados no equivalente ao ensino médio apresentavam um nível de aprendizagem satisfatório. A maioria dos estudantes, portanto, não absorvia o conteúdo.

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Foi quando um grupo de executivos e empresários liderado pelo então presidente da empresa de tecnologia IBM, Louis Gerstner Jr., uniu-se em torno de uma missão: pressionar os gestores públicos a aprimorar a qualidade das redes públicas de ensino e ajudar quem se dispusesse a encarar a empreitada.

Muitas dessas empresas passaram a condicionar a abertura de unidades num estado à adoção de padrões de ensino melhores na rede local. Deu resultado. De 1995 a 1999, a maioria dos estados americanos adotou currículos mais rigorosos e elevou o nível das avaliações dos estudantes.

A experiência americana mostrou que o setor privado e a sociedade podem exercer um papel ativo para melhorar a qualidade do ensino. A boa notícia: existem no Brasil empresas e entidades do terceiro setor empenhadas em ajudar os gestores públicos nessa tarefa.

Os resultados dessas iniciativas são animadores. Tome-se o caso de Pernambuco, onde 80% da rede estadual de en­sino médio aplica, ao menos em parte, um modelo criado pelo Instituto de Corresponsabilidade pela Educação (ICE), organização não governamental fundada pelo ex-presidente da multinacional holandesa Philips no Brasil Marcos Magalhães.

Nessas escolas, as aulas são em período integral e os estudantes podem cursar disciplinas optativas de acordo com o que pretendem fazer depois de completar o ensino médio. Os professores foram treinados para ajudá-los a discernir as possibilidades para o futuro — aulas extras preparatórias para o vestibular também se tornaram par­te do currículo.

Magalhães começou a criar esse modelo em 1999, quando ainda trabalhava na Philips. Ele se inspirou nas iniciativas que executivos como Gerstner, da IBM, estavam aplicando nos Estados Unidos para espalhar a educação em tempo integral por seu estado natal.

De 2007 a 2013, a evasão escolar entre os estudantes matriculados nas escolas públicas de ensino médio de Pernambuco caiu de 22% para menos de 5%. Há sete anos, a nota média dos estudantes pernambucanos era a 22a no ranking do Índice de Desenvolvimento do Ensino Básico (Ideb) — em 2013, o estado havia pulado para o quinto lugar.

Além de Pernambuco, o ICE hoje colabora com escolas públicas nos estados de São Paulo e Goiás, em capitais como Rio de Janeiro e Vitória e em cidades do interior, como Sobral, no Ceará. Um dos papéis do instituto é buscar apoio das empresas para o poder público implantar as aulas em tempo integral — tanto no ensino médio quanto no fundamental.

“Manter os alunos na escola o dia todo custa caro, porque é preciso, entre outras coisas, aumentar a carga horária dos professores”, afirma Magalhães. “As empresas podem colaborar não apenas com dinheiro mas também com ajuda para melhorar processos que tornem o sistema educacional mais eficiente.” Na prática, histórias como as do ICE mostram um tipo de arranjo cada vez mais comum.

De um lado, empresas e empresários contribuem com tempo, dinheiro e boas práticas de gestão. De outro, instituições nas quais trabalham profissionais especializados em educação cuidam de transferir esses recursos para a rede pública de ensino. As experiências dos municípios de Sobral, no Ceará, e de Foz do Iguaçu, no Paraná, indicam como esse arranjo pode funcionar.

Na última década, as escolas desses municípios melhoraram a média de 4 para 7 nas notas do Ideb para o ensino fundamental. Para isso, eles contaram com a ajuda de institutos financiados por grandes empresas, como o Todos pela Educação, o Instituto Ayrton Senna e a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, que cuida de educação na primeira infância.

“O terceiro setor tem papel importante para fazer a ponte entre o governo e o setor privado”, diz Pedro Villares, presidente do Instituto Natura. “Podemos mostrar aos gestores quais são as experiências bem-sucedidas e ajudar a multiplicá-las.”

O crescente envolvimento das empresas com a educação não deixa de ser um investimento — não é razoável acreditar que um país possa se desenvolver sem contar com um povo instruído. E nisso estamos bastante atrasados.

Um levantamento do economista Jorge Arbache, da Universidade de Brasília (UnB), mostra que os brasileiros só atingiram a média de sete anos e meio de estudo em 2000 — um século depois de países como Estados Unidos e Canadá chegarem a esse nível. “A precariedade da instrução da mão de obra é uma das razões pelas quais a produtividade brasileira não está crescendo”, diz Arbache.

Um dos problemas do setor público que se refletem negativamente na qualidade da educação é a dificuldade de pensar no longo prazo. Geralmente, as mudanças nos governos põem por terra as tentativas de planejamento. Colaborar para a criação de programas estratégicos é, por isso, uma das principais contribuições das empresas para o sistema educacional. Isso está acontecendo no estado de São Paulo.

Em 2011, o empresário Jair Ribeiro, sócio do banco Indusval, reuniu doações de empresas e instituições — entre elas o Instituto Natura, a Fundação Itaú Social e a Fundação Victor Civita, mantida pelo Grupo Abril, que edita a revista EXAME — para encomendar à consultoria McKinsey um plano para as escolas paulistas.

O documento delineia as ações que a Secretaria Estadual de Educação precisa executar para colocar a rede de ensino paulista entre as 25 melhores do mundo até 2030. O papel das empresas agora é fiscalizar a aplicação das medidas ao longo do tempo.

Ribeiro também é um dos fundadores da Parceiros da Educação, ONG cujo principal programa é fazer com que empresas adotem escolas da rede pública para ajudá-las nas dificuldades de gestão. Ele tem acompanhado de perto como funciona a aproximação entre os educadores e a iniciativa privada.

“Ao reunir empresários, nós trazemos capacidade de gestão para as escolas”, diz Ribeiro. “Mas não temos o conhecimento necessário para enfrentar as demandas das salas de aula como os professores e os funcionários. Podemos fazer muito pela educação, desde que tenhamos paciência e humildade para pedir licença a quem realmente vive o dia a dia das escolas.”

Inspiração internacional

A experiência do estado de Goiás também mostra como a capacidade de planejamento da iniciativa privada está sendo aplicada com proveito.

Desde 2011, o ensino goiano vem passando por um choque de gestão provocado pela aplicação de um plano elaborado pela consultoria Bain & Company — o trabalho custou 2 milhões de reais, bancados pelo Movimento Brasil Competitivo, ONG criada pelo empresário Jorge Gerdau, e por doações de empresas instaladas em Goiás, como a montadora Mitsubishi, a rede de concessionárias Caoa e a fabricante de alimentos Cargill.

Parte do plano foi inspirada numa experiência aplicada pela prefeitura de Nova York: o governo estadual selecionou um grupo de 300 professores de desempenho acima da média para compor uma espécie de tropa de elite. Eles passaram a ser tutores pedagógicos, cujo trabalho é ajudar outros docentes a melhorar a qualidade das aulas.

Cada tutor é responsável por até três escolas e recebe um adicional de salário de 1 500 reais pelo trabalho. Também houve incentivos para aumentar o engajamento dos professores — eles passaram a receber uma bonificação salarial caso não faltem durante o ano e cumpram tarefas geralmente negligenciadas, como a preparação de planos de aula.

A avaliação dos alunos tornou-se mais rigorosa. Com essas medidas, Goiás passou do 16o para o primeiro lugar no ranking do Ideb de 2009 a 2013. “Frequentemente, nos dávamos conta de que uma turma inteira não aprendia determinado conteúdo porque o professor não sabia ensinar”, diz Thiago Peixoto, ex-secretário de Educação de Goiás — ele assumiu em 2011 e deixou o cargo para disputar a última eleição, na qual foi eleito deputado federal.

A tecnologia pode ter papel relevante para diminuir um problema crônico no Brasil — a desigualdade entre os estudantes que chegam à universidade. A rede de ensino superior Kroton, com mais de 1 milhão de alunos, constatou que 25% dos estudantes matriculados desistem do curso no 1o ano. O motivo: falta de base suficiente para acompanhar o conteúdo das aulas.

“A dificuldade de manter os alunos por causa da deficiência no ensino básico é um dos grandes desafios de nosso negócio”, diz Rodrigo Galindo, presidente da Kroton. A empresa está tentando superar esse obstáculo com a ajuda da internet — os alunos são orientados a reforçar os estudos nas matérias nas quais têm mais dificuldades assistindo a aulas disponíveis gratuitamente online, como as oferecidas em português na plataforma de ensino virtual Khan Academy.

“A tecnologia não substitui o professor, mas permite personalizar o aprendizado dos estudantes”, afirma Ricardo Santos, gerente de educação da empresa de tecnologia Cisco. Isso é muito importante num país como o Brasil, onde há muita desigual­dade de aprendizado entre os jovens. É preciso, porém, saber como usar as potencia­lidades das novas ferramentas.

“A tecnologia não é um fim, e sim um meio”, afirma Milton Burguese, diretor de educação do Google Brasil. Em outras palavras, sem o uso adequado, o investimento em equipamentos modernos pode ser desperdiçado. “O maior desafio não é a infraestrutura física, mas preparar os professores para usar a tecnologia”, diz Flavia Goulart, gerente de projetos da Fundação Lemann.

Muitos empreendedores veem nisso um mercado promissor. É o caso da Samba Tech, empresa mineira que desenvolve sistemas de distribuição de vídeos online, que está concentrando sua atuação na área educativa. “Há espaço para crescer nesse mercado”, diz Gustavo Caetano, sócio da empresa. Os desafios na educação são enormes — e é necessária toda a ajuda possível para superá-los.

Fonte: Exame

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