DE SONHO, DE SANGUE E DE AMÉRICA DO SUL

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone

O que nos afasta e o que nos aproxima, sul-americanos?

reportagem_america_latina_edc90

“Por força desse destino, um tango argentino me vai bem melhor que um blues.” Esse destino, cantado por Belchior no clássico A palo seco, é o de termos nascido ao sul da terra da liberdade, a América. Resulta disso o substantivo sul-americano, sudamericano, sud-américain, south american ou zuid-amerikaanse – não esqueça que por aqui também se fala francês, inglês, guarani, aimará, quéchua e holandês, além de um universo e meio de idiomas e dialetos indígenas. Para simplificar, os descendentes menos carinhosos de nossos colonizadores hoje se referem a nós como sudacas. Com todo o respeito a Piazzolla e Belchior – o bigode mais talentoso da MPB –, mas tão bem quanto o tango me cairia um samba brasileiro, uma zamba cueca peruana, um candombe uruguaio, uma cumbia colombiana, um vallenato venezuelano, uma tonada chilena, a bomba del chota equatoriana, a guarânia paraguaia ou uma toba boliviana.

COLONIZADOS
A paz foi embora destas terras e tão logo ancorou por aqui aquilo que por século se chamou, estupidamente, de civilização. Os “civilizados”, no caso, eram nossos colonizadores, um bando de aventureiros destemidos que venciam um Atlântico em barcos de madeira e velas de cânhamo – sim, a Europa nos descobriu velejando com grandes folhas de maconha – para acrescentar novas fronteiras aos reinos. Desde então, a história de nosso subcontinente resume-se à resistência contra colonizadores e imperialistas (e qualquer semelhança com a contemporaneidade não é mera coincidência).

O período pós-guerras – napoleônicas, de Farrapos, do Paraguai, das Malvinas, do Chaco, do Pacífico e outras mais – dividiu nossos quase 18 mil quilômetros quadrados em 13 países, sendo o Brasil o maior e o Suriname o menor. Além deles, existem outros três territórios que o rigor eufemístico de nossos tempos costuma nomear como “dependências”, “territórios além-mar” ou “departamentos ultramarinos”: Guiana Francesa, as Ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul, e as Malvinas (que um dia ainda voltarão a ser argentinas). No bom português, são a versão moderna das colônias. Ao norte, conectamo-nos à América Central pelo istmo do Panamá, sendo Punta Gallinas, na Colômbia, o extremo norte de nosso subcontinente. Ao sul, separamo-nos da Antártida pelo Estreito de Drake. Ponta Seixas, na Paraíba, é onde mais longe chegamos a leste, e Punta Pariñas, no Peru, a oeste. Somos nada menos do que 12% da superfície terrestre e 6% da população mundial. Entre estes, somos andinos, latinos, negros, indígenas, migrantes dos mais distantes e diferentes povos, entre eles russos, polacos, indianos, africanos, alemães e etc. O que nos aproxima – além de sabermo-nos herdeiros da mistura das diferenças – é um passado em comum, a história que nos reconhece a todos como um só: colonizados.

“As dinâmicas econômicas das colônias espanhola e portuguesa na América foram evoluindo ao longo da colonização e a formação das identidades nacionais foi sendo construída nesse processo. Em princípio, a relação colônia-metrópole foi a marca geral para todas, com o mínimo de relação, sempre tutelada, entre as colônias ou mesmo dentro de cada uma delas. Na medida em que essa tutela foi se tornando insuportável para as elites locais, os movimentos de independência ganharam força, mas as relações prioritárias continuaram seguindo os fluxos econômicos da época colonial”, explica Leandro Freitas Couto, mestre em relações internacionais pela UNB e atual diretor do Departamento de Gestão do Ministério do Planejamento. Ele explica que, por conta de uma colonização absolutamente exploratória, a formação dos países sul-americanos foi bastante tensa e gerou as mais diversas formas de violência. Entretanto, tão logo iniciados os processos independentistas, as elites regionais passaram a disputar o poder central, conformando as primeiras fronteiras, que já ganhavam contornos parecidos com os de hoje, ainda que com diferenças essenciais, como uma Bolívia com saída para o mar (perdida na Guerra do Pacífico, para o Chile, que ficou com a província de Antofagasta) e um Paraguai 40% maior e infinitamente mais rico e poderoso. Leandro explica que, durante os processos independentistas, o Brasil era visto com desconfiança por conta da ascendência portuguesa, do regime monárquico e da extensão territorial. “Embora Simon Bolívar – o libertador da América espanhola – tenha feito movimentos em direção ao Brasil, o Império não demonstrou nenhuma empolgação com o movimento interamericanista. Com o nascimento da república, o fluxo brasileiro em direção à América foi muito mais uma aproximação com os Estados Unidos do que com os vizinhos, com os quais ainda administrávamos relações tensas.”

RESISTÊNCIA
Escondido junto a toda carga negativa que o termo colonizado traz consigo, está o espírito de resistência e o desejo de libertação, muito mais engrandecedores e dignos de nota. O histórico de invasões incutiu a insubordinação entre as características que nos aproximam como povos sul-americanos, pois, apesar de subjugados, jamais nos entregamos: que os quechuas, os guaranis e os quilombolas de ontem e de hoje não me deixem mentir. Mas é fato que a constituição de cada nação se deu, e ainda se dá, por meio de uma luta física e simbólica interminável, e da absorção das culturas de colonizados, colonizadores e migrantes, o que faz com que cada país tenha seus vínculos culturais específicos. Por infelicidade, eles não necessariamente conversam com os seus vizinhos de quintal. No caso específico do Brasil, durante séculos, a prioridade foi aproximar-se dos Estados Unidos, como explica Leandro: “As relações com Washington foram o eixo central das relações internacionais do Brasil nos primeiros anos de república. A aproximação com a América se dá no âmbito do movimento pan-americanista patrocinado pelos Estados Unidos. Com a evolução da sociedade brasileira, a complexificação da sua matriz produtiva, nascimento da indústria, a urbanização, enfim, os múltiplos interesses que passam a influenciar na definição das posições internacionais do Brasil, e a projeção mundial que passam a ter os Estados Unidos durante o século 20, o distensionamento gradual das relações com os vizinhos”.

O pesquisador esclarece que foi apenas após a Guerra Fria e as ditaduras, quando se registrou uma guinada de interesse estadunidense da América do Sul para a América Central, que os blocos locais passaram a ganhar relevância nas políticas internacionais do Brasil e, consequentemente, dos demais países ao nosso redor. Desta mudança de perspectiva, e da necessidade de uma construção de identidade regional, surgem propostas mais concretas como a da Comunidade Sul-Americana de Nações, feita em 2004, que levou à constituição da União das Nações Sul-Americanas, a Unasul: “Por isso, podemos dizer que o Brasil se apresentou, a princípio, como americano, depois como latino-americano e só recentemente, a partir dos anos 1990, reconhece a América do Sul como componente regional da sua identidade”.

PAN-LATINO
Há outras ciências caras, para além da geografia, que devem ser consideradas quando tentamos mapear a integração, ou mesmo a essência cultural comum. O princípio de que somos todos americanos nos leva a refletir sobre outras denominações: afinal também carregamos o lastro de “pan-americanos” e “latino-americanos”. Todas elas nos levam ao âmago da questão: a América. Os séculos 20 e 21 acentuaram uma distinção econômica, política e militar que constituiu uma espécie de bifurcação. De um lado temos a América anglo-saxã – Estados Unidos e Canadá – que conseguiu modernizar suas economias e, no caso estadunidense, tornar-se a maior potência do globo. Do outro lado está a América Latina. Com o tempo, o termo “América” passou a remeter unicamente aos Estados Unidos, ao passo que tudo abaixo do Rio Grande foi generalizado como “Latino”.

Para Marina Moguillansky, doutora em ciências sociais da Universidad Nacional de San Martín, na Argentina, “a América Latina é um espaço complexo, que abarca diferentes identidades, povos e culturas. É muito heterogêneo e fragmentado política e culturalmente, ainda que haja aspectos que nos identifiquem. Um desses aspectos é o fato de nós nos enxergarmos como subdesenvolvidos, e acredito que é assim que o mundo nos enxerga também. Mas é claro que somos sociedades com enormes potencialidades”. Marina não crê que a modernidade tenha edificado qualquer tipo de identificação nova entre os povos e as nações latinas, com exceção de uma já mencionada neste artigo: “Temos uma história comum de dominação, de ocupar um lugar subalterno nas relações políticas, comercias e culturais. Ainda é assim no capitalismo atual”.

Outro aspecto de identificação e aproximação, segundo Marina, é o idioma espanhol compartilhado por grande parte dos países latino e sul-americanos. A questão idiomática, é claro, aparta o Brasil. Mas ela ressalta que nossas relações com a Argentina, por exemplo, melhoraram muito e a integração que vemos hoje é não apenas inédita, mas também muito promissora. “Mesmo assim, as relações entre Argentina e Uruguai, por exemplo, são mais próximas, por conta da longa história que os dois compartilham, pelo idioma, pela idiossincrasia, pela proximidade geográfica e especialmente por existir, entre os países hispanos, uma circulação cultural, que é sobretudo televisiva e cinematográfica.” Em uma via oposta, há aspectos contemporâneos que nos distanciam. Entre eles, um é absolutamente concreto: a infraestrutura. “Rodovias, portos, sistema aéreo etc. Nada disso foi pensado para nos conectarmos entre nós, mas sim para nos conectarmos com o capitalismo mundial. Ou seja, é um fluxo para fora, e não para dentro. Além disso, as rivalidades históricas nos distanciam, os conflitos de fronteiras e a competição pela hegemonia regional criam novos entraves.” Com relação a este último item, a especialista ressalta que o Brasil tem exercido um papel imperialista, “especialmente nos últimos anos”.

Opiniões divergentes tem a doutora em história Celia Cussen, da Universidad de Chile: “Não é a sensação que tenho aqui, no Chile, onde há evidentes investimentos brasileiros em nossa economia”. De acordo com ela, os povos e países sul-americanos ainda se conhecem pouco, ou seja, ainda há um hiato de entendimento cultural entre nós, e especialmente entre o Brasil e os vizinhos de colonização espanhola. “Me surpreende que a distância entre nós ainda perdure, mas acredito que isso se deva muito à imensidão territorial e cultural do Brasil. Vendo aqui de fora, temos a sensação de que os brasileiros são muito mais autônomos no sentido identitário do que nós. Claro que essa percepção pode ser particular dos chilenos, um dos poucos países que não fazem fronteira com o Brasil. Mas, de toda forma, vemos o Brasil como um mundo em si e voltado para si mesmo, algo fora do nosso alcance.”

Porém, ainda que aparentemente vivendo em mundo separado, Celia consegue ver laços evidentes que nos unem para além da colonização: “Temos vínculos culturais muito mais sólidos que os europeus ou os africanos. Compartilhamos dois idiomas muito similares, uma tradição socialmente mestiça e, no plano religioso, o cristianismo. Por isso, tenho a impressão de que o mundo nos vê como um subcontinente unido, apesar das grandes diversidades políticas”. Além do mais, ela acredita que Chile e Brasil passam atualmente por um fenômeno muito parecido: a imigração intercontinental. A chegada de peruanos, bolivianos, colombianos e demais migrantes é, segundo Celia, uma oportunidade maravilhosa para ambos os países construírem identidades nacionais mais amplas. Mas alerta: “Para que isso ocorra, é preciso lutar contra a discriminação, o preconceito e os estereótipos de pessoas de cor e de tradições diferentes das nossas”.

Fonte: Revista da Cultura

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone