E você, caro professor, vai passar de ano?

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“Um dos maiores enganos de alguns educadores é justamente não se autoavaliar. Assim, correm um risco muito grande de se acomodarem em práticas que não dão certo”, afirma Leo Fraiman

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Nesta época do ano, costumamos observar um cenário bastante conhecido nas escolas. Muitos já estão de cabelos em pé, com as devidas olheiras e costas arqueadas. Cansados e, não raro, irritados. O pátio vira um lugar aonde se caminha a passos largos, rápidos. Tudo muda de energia neste momento.

Os alunos que não passaram de ano estão tristes e assustados em busca de uma forma de driblar como puderem suas dificuldades nas matérias nas quais estão abaixo da média. Os pais, com as vésperas do final do ano, ficam também assoberbados de atividades, reuniões e balanços a fazer. A direção da escola se vê equilibrando 15 pratos chineses, com as reformas que se aproximam, recebendo as novas matrículas, mostrando a escola aos novos candidatos a alunos e fazendo o possível para manter a calma diante daqueles que insistem (e todo ano eles estão ali) em rematricular os filhos aos 45 do segundo tempo.

Não raro, os professores também se encontram estressados e fora do eixo. Provas, relatórios, cobranças, preparação para os exames finais, mais relatórios, mais reuniões com as famílias dos alunos com notas baixas. E além de tudo também começam nas suas próprias famílias os mesmos preparativos de natal e ano novo. Isso sem falar das festividades de final de ano com todos aqueles com quem queremos, devemos, não queremos, ou não conseguiremos ver antes do final de 2014. Dos educandos, a preocupação geral é passar de ano. Dos educadores, é terminar o ano.

Neste momento cabe, portanto, uma pergunta. E você, meu caro colega, se estivesse sendo avaliado, como se sairia? Que nota teria a sua performance este ano como professor? Suas aulas motivaram ou deram sono? Seu carisma aumentou ou você se tornou uma pessoa mais distante de seus alunos? Aprendeu novas técnicas motivacionais sobre sua área de conhecimento ou ficou com aquela habitual, conhecida, aquela que você já conhece, independentemente do resultado? Encontrou uma forma de mostrar aos pais como fazerem um eco com o que você ensina, ou deixou para lá, afinal, isso é “um problema deles, se participam ou não?”. Foi um bom colega com os demais professores da escola onde trabalha, ou esteve tão preocupado com sua vida que não teve tempo de olhar aquela que teve neném, aquele outro cujo pai ficou hospitalizado, ou ainda um novato que você nem sequer teve tempo de um simples cafezinho de boas vindas? Leu algum livro interessante para se aprimorar, entrou em sites bacanas para se inspirar em novas práticas pedagógicas, ou foi no basicão mesmo? Que nota você se daria este ano? Vamos lá, faça as contas.

Costumamos admirar pessoas de sucesso, aqueles que saíram da curva e se destacaram. O que poucas vezes percebemos é que muitos dos profissionais mais bem sucedidos nas mais diversas áreas profissionais não tem necessariamente um QI elevadíssimo, nem habilidades extraordinárias.

O que os difere da maioria de nós é que eles fazem não o que tem vontade somente, nem aquilo que estão acostumados. Eles focam em fazer o certo e em se aprimorar constantemente. Para eles sucesso é sempre escrito no gelo, ou seja, a cada dia, a cada ciclo, a cada ano eles reavaliam suas ações e buscam uma forma melhor, mais simples, mais ágil e mais eficaz de fazer o que lhes cabe. Sucesso é uma somatória de ações ordinárias muito bem cuidadas, muito bem feitas. E cada ação conta.

Um dos maiores enganos de alguns educadores é justamente não se autoavaliar. Assim, correm um risco muito grande de se acomodarem em práticas que não dão certo, que estão desatualizadas, ou que geram desmotivação em seus alunos. Educam para o amanhã com as ferramentas muitas vezes já enferrujadas do passado. Cabe nos perguntarmos: com que direito uma pessoa faria isso? Já pensou ser operado por um médico que utilize um instrumento não higienizado? Que tal escutar uma orquestra desafinada? Comprar um produto que já vem quebrado ou faltando uma peça? Assistir uma aula desinteressante é a mesma coisa: dói, machuca, fere de diversas formas. Fere o direito de receber o bem e se interessar pela vida.

Precisamos cair na real sobre o fato de que as crianças e adolescentes de hoje ganharam voz e vez. Eles não baixam mais a cabeça para aulas chatas, desmotivadoras, nem para professores que mostram deliberadamente que não estão nem aí para eles. Quantos dos chamados “maus alunos” das escolas não estão apenas gritando por uma atitude nova nas salas de aula? Se é verdade que educandos por vezes são violentos e passam dos limites, também o é que os próprios educadores também praticam uma forma violência ao obrigar seus alunos a assistirem aulas chatas, cansativas, desmotivadoras e sem sentido. Teria um educador o direito a desmotivar seus alunos com a sua inação, com a sua apatia profissional?

A carteirada, o “cala a boca”, o fazer-de-qualquer-jeito não funciona mais. Da mesma forma como caíram ditaduras em diversas partes do mundo, estão caindo as fronteiras nas lideranças em toda parte. Ninguém mais baixa a cabeça se não precisar fazê-lo. Reclamamos quando somos mal atendidos pelas operadoras e telefonia, nos hotéis ou nos serviços públicos. Nos sentimos fortes ao protestar nas ruas, usamos o Facebook ou nas delegacias de defesa do consumidor. E nossos alunos também estão aprendendo isso. Justamente nas salas de aula onde trabalhamos, que é seu espaço social por excelência. Por isso, é melhor escutar o que eles tem a dizer, antes de adoecer e perder sua saúde, seu orgulho, sua estima e quem sabe seu cargo. Pois talvez seja um sinal de saúde deles a rebeldia contra a mesmice, a indiferença, a brutalidade, o mau trato de uma educação que não lhes toca a alma.

Se você acha que estou carregando na tinta aqui, fico muito feliz. Quem sabe na sua escola haja um acordo tácito de fazer bem feito, de educar como se deve, com um ambiente harmônico e colaborativo onde as pessoas se tratam com respeito e dignidade. Se é esta a escola que você trabalha, que ótimo. Mas será esta a realidade da maioria das nossas escolas?

Antes de finalizar este ano, reserve um espaço na sua agenda para se olhar no espelho e veja se ainda está lá aquele que um dia sonhou em transformar este país pela educação.

Cora Coralina era uma encantadora doceira que só em 1965, aos 75 anos, conseguiu realizar o sonho de publicar o primeiro livro, “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”. Foi a primeira mulher a ganhar o Prêmio Juca Pato, em 1983, com o livro “Vintém de Cobre – Meias Confissões de Aninha”. Aos 70 anos aprendeu datilografia para conseguir publicar seus poemas e contos tendo estudado apenas até a terceira série do primário. Entrou para a história pois acreditava que era “feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. Você, é feliz?

*Leo Fraiman é psicoterapeuta, escritor e palestrante. É autor da Metodologia OPEE, adotada atualmente por mais de 150 escolas em todo o Brasil, e também do livro “Como Ensinar Bem”, pela Editora OPEE, além de outros títulos publicados nas áreas de Orientação Profissional, Familiar e de Educação. Site: leofraiman.com.br

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