Mahler e o Poeta da Morte

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Gustav Mahler e Friedrich Rückert

Gustav Mahler e Friedrich Rückert

A poesia de Friedrich Rückert (1788-1866) foi uma poderosa inspiração para os compositores alemães e austríacos. Cerca de 120 de suas obras inspiraram Franz Schubert, Robert e Clara Schumann, Johannes Brahms, Richard Strauss, Alban Berg, Hugo Wolf e Gustav Mahler a colocar música em seus poemas.

Em 1830, Rückert perdeu dois de seus filhos num espaço de poucos dias devido a doenças da infância, incuráveis naqueles tempos. Arrasado pela morte inesperada dos mesmos, o escritor escreveu entre os anos de 1833 e 1834 uma trágica coletânea de 468 poemas à qual ele intitulou Kindertotenlieder – Canção para as crianças mortas.

O compositor Gustav Mahler (1860-1911) passou por uma infância miserável. Seus pais tiveram 14 filhos. Como o índice de mortalidade infantil no século XIX era de 50%, o óbito de recém-nascidos era um acontecimento rotineiro para os adultos. O jovem Gustav foi desde cedo assombrado pela morte ao assistir ao enterro de quatro de seus irmãos falecidos ainda no berço. Não bastasse isso, morreram sua irmã Leopoldine, ainda adolescente e Ernst, seu mais íntimo e querido irmão. Para fechar o trágico ciclo, Otto seu outro irmão cometeu suicídio. O tema da morte iria assombrar Mahler pelo resto de sua vida, bem como seria uma constante em sua obra.

O pai de Mahler, apesar de ser um rústico taverneiro e alcóolatra, investiu na vocação do jovem Gustav e além de comprar-lhe um piano, financiou sua estadia em Praga para estudar num bom colégio e receber aulas de música.

Não tardou muito para que Mahler viajasse para Viena, a capital musical europeia, para estudar piano com Julius Epstein no Conservatório de Música.

A primeira vocação de Mahler foi de trabalhar como dirigente orquestral. Em poucos anos, graças ao seu lema de trabalho e disciplina, já era considerado o melhor regente europeu, tendo feito uma brilhante carreira. Esta o levou da cidade de Kassel às grandes casas de ópera de Praga, Budapest e Hamburgo. Seu sucesso como regente e disciplinado administrador de teatros trouxe inovação e modernidade na montagem e direção dos espetáculos.

Mahler também ambicionava ser compositor e ao chegar ao final do século XIX já havia escrito alguns ciclos de canções e estreado duas sinfonias. Outro grande objetivo na vida de Mahler foi o de assumir a Direção Geral da Ópera de Viena. O compositor usou de todas as manobras políticas e de seu círculo de amizades para promover sua candidatura. Um confidente revelou que Mahler faria qualquer coisa para obter o cargo.

Sendo a Áustria o país mais antissemita da Europa, Mahler, descendente de judeus, não titubeou em descartar sua fé ancestral e se converteu ao catolicismo – um pré-requisito para o exercício de um alto cargo na corte dos Habsburgos.

Apesar de dedicar-se inteiramente ao trabalho e ser pouco afeito à vida social, Gustav Mahler veio a conhecer Alma Schindler, uma linda e volúvel jovem de 21 anos. Em poucos meses estavam casados e foram viver em Maiernigg às margens do Lago Wörth onde Alma teve as filhas Maria Anna e Anna Justine. Nesta zona rural e pacífica Mahler passou a dedicar-se diariamente à composição. É difícil de imaginar como entre os anos de 1901 e 1905, no seu período de maior sucesso como diretor de ópera e condutor de concertos Mahler ainda tivesse energia para criar três sinfonias, a 5ª, a 6ª e a 7ª que iniciaram a história sinfônica do século XX.

ADG2.pngEm meio ao ambiente de paz, serenidade e a criação das filhas, Alma achou estranho ver o marido trabalhar num ciclo chamado Canções para as crianças mortas. Em 1901 Mahler ficou impressionado ao ler os Kindertotenlieder de Friedrich Rückert e selecionou cinco dos mais impressionantes poemas do ciclo para musicá-los. Esta obra não deixava de ser um réquiem criado por Mahler para seus sete irmãos prematuramente falecidos. O compositor tentava purgar as dolorosas lembranças das mortes que se abateram sobre sua família. O ciclo d canções é uma mistura de angústias, sentimentos, resignação e repleto de fantasias sobre a ressurreição das crianças. Por sinal, ele já colocara este último tema em sua 2ª Sinfonia chamada Ressurreição. Mahler nos mostra nesta obra sua obsessão pela morte, já que o 1º movimento leva o nome de Todtenfeier (rito fúnebre) e retrata o dia do Juízo Final e a ressurreição de seu herói –Titan- personagem de sua 1ª Sinfonia.

O estilo musical de Kindertotenlieder é perfeito no uso do contraponto e na textura da orquestração. Ao escutá-lo temos a premonição dos estilos de Schönberg e Alban Berg nas linhas de passagem de um instrumento para outro. A abertura da primeira canção nos leva ao mundo de sons que aparecem na 9ª Sinfonia de Mahler.

Mal imaginava o compositor que ali mesmo em Maiernigg, sua filha predileta Maria Anna iria morrer, em 1907, devido a uma difteria. Mais uma vez o trauma da morte o atingiu. Após um colapso os médicos constataram que o músico padecia de uma severa endocardite e problemas nas válvulas cardíacas. Mahler seguiu trabalhando no mesmo ritmo de sempre e conseguiu concluir sua 9ª Sinfonia. Faleceu em 1911, aos cinquenta e um anos.

Alma achou que o destino os punia pelo sacrilégio cometido pelo esposo ao criar os Kindertotenlieder.

Clique aqui para assistir Wenn dein Mütterlein, uma das canções do ciclo Kindertotenlieder :

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