HILDEGARD VON BINGEN – A Feminista da Idade Média

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Como em todas as igrejas do povo de Deus, as mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissas como também ordena a lei. Se quiserem aprender alguma coisa perguntem em casa a seus maridos porque é indecoroso para a mulher falar na igreja.

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O trecho acima faz parte do capítulo XIV, da Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios. Essas palavras, bem como outras correntes similares de pensamento, fizeram com que a sociedade restringisse a manifestação criativa e a atividade profissional das mulheres durante centenas, senão milhares de anos. Isso explica a ausência do ente feminino no mundo da criação musical e das artes em geral. Quando muito, elas podiam aprender a tocar um instrumento para distraírem os maridos e eventuais convidados.

Até a arte do canto em público lhes estava vedada. Os papéis femininos nas óperas ficavam reservados aos castrati, que os interpretavam a perfeição.

Nos anos noventa fui descobrir a história da primeira mulher que rompeu esses preceitos e tornou-se a precursora do feminismo. Numa viagem entre Stuttgart e Colônia, me hospedei na pequena cidade de Bingen, às margens do Reno. Comprei na recepção do hotel uma pequena brochura que detalhava as atrações turísticas e históricas da região.

Lá encontrei um capítulo dedicado a Hildegard von Bingen (1098-1179). Seu pai, o barão Hildebert von Bermersheim, encaminhou-a para estudar e seguir a vida monacal em um convento da região. Aos 38 anos ela tornou-se abadessa e contrariando a máxima de São Paulo que dizia: mullier taceat in ecclesiam (a mulher se cala na Igreja), Hildegard começou a pregar em sermões públicos a necessidade de reformas urgentes nos rumos da religião cristã, que passava por uma fase de degradação.

Mulher de grande carisma e beleza física substituiu a debilidade feminina por autoridade, pregando a igualdade dos sexos. Escritora, poetisa, médica e botânica, também se destacou como compositora. Escreveu 77 canções litúrgicas chamadas Symphonia armonie celestium revelationum para serem executadas nos serviços religiosos da abadia beneditina de Rupertsberg. Esta foi destruída durante a Guerra dos Trinta anos, mas até hoje existe o convento de Eibingen, onde Hildegard também trabalhou e viveu. Sua maior obra musical foi o oratório dramático Ordo Virtutum. Apesar da revolução de costumes iniciada pela religiosa, foi necessária a passagem de quatro séculos para que a história registrasse o surgimento de duas compositoras que alcançaram a fama.

 Francesca Caccini (1587-1645) nascida em Florença e a Barbara Strozzi (1619-1664) natural de Veneza representam os primórdios da atividade profissional das mulheres no mundo da criação musical. Ambas eram filhas de músicos talentosos, que as criaram com espírito de independência, dando-lhes estímulo e acesso aos estudos musicais. Francesca atingiu sucesso e reconhecimento numa época em que raríssimas mulheres atingiam essa posição. Seu pai, Giulio Caccini, pertencia a um grupo chamado Camerata, liderado pelo compositor Cláudio Monteverdi. Na tentativa de colocar música no drama grego, criaram o melodrama e a técnica dos recitativos. Foi a criação da ópera italiana. Francesca tornou-se excelente cantora, tocava harpa, alaúde e cravo. Aos 36 anos era a mais bem paga compositora e intérprete na corte dos Médici, sendo a primeira mulher na história a compor uma ópera – La liberazione di Ruggiero dall’isola d’Alcina.

Barbara Strozzi, filha do libretista Giulio Strozzi, estudou com Francesco Cavalli, diretor musical da Basílica de São Marcos. Durante sua carreira, sem necessitar o suporte da igreja ou o patronato de um mecenas, publicou oito Opus, contendo 125 obras vocais. Os estudiosos da musica consideram Barbara Strozzi como a criadora do gênero Cantata.

Ainda se passariam muitos anos para que outras mulheres quebrassem os paradigmas de suas sociedades. Graças a Elisabeth Claude Jacquet de la Guerre, Fanny Mendelssohn, Clara Schumann e Alma Mahler o universo feminino de compositoras passou a crescer e a ganhar destaque.

Clique aqui para escutar um fragmento de Ordo Virtutum:

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