Tannhäuser em Paris

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O que a Europa pensará dos franceses? O que o povo alemão dirá dos parisienses? Um punhado de canalhas fez a infâmia cair sobre todos nós.

– Charles Baudelaire –

 

Baudelaire, ao escrever seu vigoroso ensaio “Richard Wagner e Tannhäuser em Paris”, transformou-se num dos mais autênticos defensores franceses da causa wagneriana. O autor de as Flores do Mal foi brilhante em seu libelo contra um grupo de aristocratas, que transformaram em desastre a estréia da ópera do mestre alemão na França.

Em setembro de 1859, Wagner foi residir em Paris, disposto pela segunda vez a conquistar com sua música o público daquela cidade. Os últimos tempos tinham sido amargos para o compositor. Seu exílio já durava dez anos, o matrimônio estava desfeito e suas relações com o benfeitor Otto Wesendonck, estavam estremecidas, devido ao rumoroso “affaire” do compositor com Mathilde Wesendonck, esposa do mecenas.

Graças à intervenção da Princesa Pauline Metternich, nora do grande chanceler austríaco, o Imperador Luis Napoleão II e a Imperatriz Eugênia, cederam a Ópera de Paris para Wagner, a fim de que lá fosse encenada a ópera Tannhäuser. Duas imposições foram feitas ao compositor: a ópera deveria ser cantada em francês e um balé completo deveria ser incluído no segundo ato. Os parisienses só consideravam uma ópera como autêntica, se ela apresentasse um espetáculo coreográfico. Na época, grande parte do público, com destaque para os associados do refinado Jóquei Clube, se dirigia ao Teatro após o jantar, com o objetivo único de assistir o segundo ato e suas bailarinas prediletas.

Wagner decidiu que não arruinaria a estrutura dramática de Tannhauser, enxertando um balé apenas para satisfazer uma ridícula convenção social. Por outro lado, a Ópera de Paris era considerada a mais importante sala de teatro da Europa e o compositor tinha como objetivo cativar a platéia com sua música. Ele acabou cedendo, sob a condição de que o balé fosse apresentado após a abertura, no que foi atendido por Alphonse Royer, diretor da Ópera.

Tannhäuser, que havia estreado em Dresden em 19 de outubro de 1845, teve o seu primeiro ato reescrito a fim de acolher a representação coreográfica que ficou conhecida como o Bacanal de Venusberg. Esta cena deveria sensibilizar o público a respeito da luta que se trava na alma de Tannhäuser, entre o sensual e o espiritual.

Até os dias de hoje, os leitores irão encontrar gravações identificadas como versão Dresden e versão Paris. A música do Bacanal está incluída na segunda versão e é quase uma obra independente dentro da composição original.  O tema, fascinante em sua novidade, mostra uma nova linguagem musical de um novo Wagner, que recém havia terminado de compor Tristão e Isolda.

As preparações para o espetáculo tiveram dimensões gigantescas, como tudo que caracteriza a obra wagneriana. Foram consumidos seis meses de trabalho, com um total de 164 ensaios seccionais e gerais. A coreografia foi criada pelo consagrado Marius Petipa e os papéis principais confiados a Albert Niemann (Tannhäuser) e Marie Sax (Elizabeth). Essa soprano era filha do belga Adolphe Sax, construtor de instrumentos musicais e inventor do saxofone.

Finalmente, em 13 de março de 1861 a Gran Opera de Paris abriu suas portas para a estreia francesa de Tannhäuser. Entre os presentes o Imperador Napoleão II e a Imperatriz, a Princesa de Metternich, Héctor Berlioz, Charles Gounod, Charles Baudelaire, Hans von Büllow, Théophile Gauthier e sua filha Judith, que anos mais tarde seria musa e amante inspiradora de Wagner durante a criação de Parsifal.

O compositor e a maioria da platéia não esperavam o tumulto que seria provocado pelos associados do Jóquei Clube. Os jovens aristocratas, detentores de vários camarotes, não perdoavam a impertinência de Wagner ao colocar o balé no primeiro ato. Os membros da imprensa, inconformados por não terem sido visitados e adulados pelo autor, se uniram à baderna. Munidos de apitos e matracas, os agitadores irromperam em vaias que duraram até o final da ópera. Cinco dias após, novamente na presença do Imperador, foi realizada a segunda apresentação, tendo o primeiro ato transcorrido normalmente. Mas ao iniciar-se o segundo ato, a turma do Jóquei Clube voltou à carga. O distúrbio foi tão grande que a maioria do público não teve condições de apreciar o espetáculo. Os músicos e os cantores, mesmo forçados a interromper a apresentação por várias vezes, conseguiram levar a ópera até o fim. O caos se instalou de maneira definitiva na terceira apresentação, encerrando o fiasco que foi a estréia de Tannhäuserem Paris. Vinte anos após ela se tornaria a ópera de Wagner mais interpretada em toda a Europa.

O compositor, enfim anistiado, retornou para a Alemanha e anos mais tarde escreveria para seu amigo, o maestro Hans Richter: Não é possível confiar em um país onde se fala francês.

 

Clique aqui para assistir a Abertura de Tannhäuser:

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