Sem miséria, mas com fome

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Em uma pesquisa inédita feita por professores e alunos dos departamentos de Economia da UFRGS e da PUC e do Instituto de Psicologia da UFRGS, em parceria com o Diário Gaúcho, foram entrevistadas 555 pessoas vivendo em bairros em situação de vulnerabilidade social na cidade de Porto Alegre. Dessas, 63% foram mulheres, na média com 40 anos e seis anos de estudo.
No Brasil, o governo define como pobre extremo quem tem menos de R$ 70 por mês. Assim, olhando apenas para a renda média das pessoas entrevistadas, de R$ 626, ou para a renda média de suas famílias, de R$ 1.178, não acharíamos que elas vivem com dificuldades essenciais, mesmo levando em conta que 41% das pessoas entrevistadas recebem o Bolsa Família (valor médio de R$ 66). Seguindo nossas estatísticas oficiais, há poucos pobres extremos nos nossos entrevistados.
No entanto, quando olhamos para como as pessoas vivem, entramos em outra realidade. Quase metade das pessoas entrevistadas vive em moradias que não são de alvenaria acabada, quase dois em 10 não têm água da rede pública e seis em 10 trabalham sem carteira assinada. Ao aplicarmos a Ebia (Escala Brasileira de Insegurança Alimentar), verificamos que quase oito em 10 pessoas sofrem algum tipo de insegurança alimentar, um número surpreendente (quase quatro em 10) tem insegurança alimentar do tipo grave. Mas o que isso significa? Significa que a política pública contra a pobreza extrema, focada em valores monetários, constrói uma política sem lastro conceitual, na qual pessoas consideradas “sem miséria” pelas estatísticas oficiais podem na prática ainda viver sobre a pressão de conseguir o alimento no seu dia a dia.
Foi perguntado às pessoas o que elas fariam se tivessem R$ 70 a mais ou a menos por mês. A resposta? Comprariam mais ou menos alimentos. Assim, o mundo da pobreza extrema nas regiões vulneráveis de Porto Alegre parece ser ainda o mundo onde o alimento diário é incerto. Precisamos ter estatísticas que reflitam concretamente as dificuldades por que as pessoas passam, sob pena de vivermos em um país “sem miséria” no qual as pessoas ainda passem fome.

Fonte: Flavio Comin / Zero Hora

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