Folhetim Brasil Capítulo 8 – O Caos do Trânsito de Porto Alegre

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caos no tra 

A intenção dos Maurícios seria chegar a Porto Alegre no dia seguinte à partida de São Paulo. Entretanto os imprevistos não pararam de segurar a Caravana dos Rolex – como eles mesmos se autodenominavam.

Logo em Curitiba, Mauritênio – que liderava o grupo – acionou no seu tablete o app “Busque Baladas” e fez com que todos os amigos desviassem da rota original via Rodoanel Mário Covas, rumo a cidade, onde naquele momento iniciava festival de música eletrônica.

Foram três dias de noites turbinadas e dias de prostração. Na quarta-feira Mauricinho chamou os companheiros para a realidade.

– Olha gente, aqui está muito massa, mas daqui a pouco nossos pais ligam perguntando por que ainda não estamos de volta a Sampa.

– Tá certo, mas e as meninas que marcaram com a gente para essa noite?

– É mesmo. Então amanhã pegamos a estrada.

O “amanhã” se prorrogou por mais três dias, afora a semana e meia gasta entre Camboriú, Florianópolis, Garopaba, Torres e Capão da Canoa. Afinal, o “Busque Baladas” funcionou perfeitamente.

A chegada em Porto Alegre ocorreu no dia 29 de abril, por volta das 17:30. Como recepção, um enorme congestionamento na Av. Castelo Branco que se expandia por toda a Cidade. Depois de uns 50 minutos de arranca e para, finalmente os cinco motoristas chegaram enfileirados em seus bólidos ao centro porto-alegrense, mais exatamente na Avenida Mauá.

No primeiro semáforo, algo inusitado: os pedestres caminhando lentamente para atravessar a rua, sendo que alguns até faziam gracinhas, como virar cambalhotas, ou deitar na faixa de segurança, para simular uma sonequinha. A brincadeira parecia ocorrer em toda a cidade, enquanto no trânsito local se consolidava um pandemônio.

Bernardo andava mais ocupado do que nunca. Na agência, todo o dia havia algum tipo de encrenca causada por José Lopes. No hotel de Francisnóico, onde o incorrigível estava trabalhando só de fachada, estava difícil ocultar o bingo que o amigo do Chefe Maior montara no subsolo, perto de algo que se chamava “sala da militância”, onde o fumo rolava solto e empestava todo o hotel através da rede de circulação de ar.

Em menos de 3 semanas o negócio de hospedagem estava acabado. Mas as aparências deveriam ser mantidas e os apartamentos do estabelecimentos eram ocupados pelos companheiros do Chefe Maior em suas estadas em Brasília, garantindo assim uma sustentabilidade artificial para o negócio. O problema é que a obrigação de pagar a conta era de Bernardo e com isso o caixa da operação estava quase no zero. Mais duas semanas desse jeito e seria o fim de tudo.

Trabalhando quase a noite toda, Bernardo já não se constrangia em passar boa parte do expediente dentro do armário, o qual já tinha vários itens de conforto, como micro-ondas, televisão, poltrona massageadora, banheiro de luxo e outros mimos replicados da própria cela de José Lopes no reformatório.

E lá de dentro, ele mais uma vez ouviu o chamado já escancarado da morena Nelci.

– Seu Bernardo, o Chefe Maior no telefone. E ele está com jeito de brabo.

A turma da repartição caía na gargalhada com o despeito da brejeira provocadora. Era para Bernardo se posicionar e no mínimo dar uma advertência à secretária. Mas a verdade é que o senhor de meia idade estava era caidinho pela moça e suportava todos os deboches só para ter a chance de um belo dia, quem sabe, pegar aquele mulherão de jeito.

Pegou o telefone e começou a ouvir aquela voz rouca, cada vez mais comum aos seus ouvidos.

– Bernardo, acabou a moleza. O Lopes já está arrumado e agora você tem outras missões.

– Mas Chefe, o nosso cliente está dando uma despesa acima de todas as projeções. O Senhor sabe que a conta tá quase no zero?

– Olha seu imbecil, desde quando dinheiro foi problema para a gente. É só ligar para a companhia de óleo e o pessoal do câmbio e falar a senha. No mesmo dia essa porcaria da tua conta vai estar recheadinha.

– Mas e os problemas com as notícias…

– Seu trouxa! Daqui a pouco tudo isso vai ser esquecido e fica o dito pelo não dito e tá acabado.

– Se é assim…

– Mas vamos ao que interessa. O Andreas pisou feio na bola e para ele não vai ter colher de chá. Contrate já um agente para tratar de desgraçar muito bem a vida dele. E também precisamos enfunerar o cara do olho caído que eu esqueci o nome. Traíras não tem vez na nossa organização.

Bernardo respirou fundo. Proteger alguém – por mais problemático que seja – é bem mais simples do que fazer o mau diretamente. O próximo passo seria sujar as mãos com o crime; e também não tinha jeito: o dinheiro sujo iria ter que entrar na operação.

 

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Autor: Eduardo Starosta – Economista – Foto: Vinicius Roratto / CP Memória

Folhetim Brasil retrata o dia-a-dia da vida de alguns personagens (alguns inspirados em gente de verdade) em 2014, tangenciando os principais fatos de nosso país. Pode-se falar em algo próximo a um diário histórico com fantasia.

Originalmente, a primeira edição de Folhetim Brasil foi publicado pela Revista Digital em 2007. Agora, em 2014 estamos iniciando nova aventura em capítulos semanais, de forma a ficção acompanhar e se associar à realidade nacional no momento em que escândalos, eventos e notícias são deglutidos pela opinião pública.

O que acontecerá nos próximos capítulos? Isso ninguém, nem o próprio autor, sabe. Tudo dependerá do que acontecer nesse nosso país a cada semana. Com eleições e o mosaico da politica nacional podemos esperar qualquer coisa, menos monotonia.

 

 

 

 

 

 

 

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