A razão da existência das empresas

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John Mackey frequentou duas universidades, mas só assistiu às aulas de matérias que lhe interessavam, todas na área de humanidades. Não se formou em nenhuma das escolas. Na adolescência e início da idade adulta, mergulhou nos movimentos da contracultura americana. Com cabelo e barba compridos, aprendeu filosofia oriental, ioga e meditação; estudou ecologia, virou vegetariano, depois vegano e morou em uma comunidade em Austin, no Texas. Tinha uma visão crítica do grande capitalismo. Pensando em criar algo diferente, na contramão do sistema, fundou, em parceria com um amigo, em 1980, aos 25 anos de idade e com dinheiro emprestado da família e de amigos, uma loja de produtos naturais, a Safer Way, que lhe possibilitava uma retirada de US$ 200 por mês. Dois anos depois, a loja passaria a chamar-se Whole Foods Market. Foi com esse nome que prosperou e se transformou em uma rede de supermercados especializada em produtos naturais e orgânicos, com presença no Canadá, Estados Unidos e Reino Unido e faturamento de US$ 11,7 bilhões em 2012.

“Nunca na vida assisti a uma aula de administração”, diz Mackey, hoje co-CEO da empresa, no livro “Capitalismo Consciente”, agora publicado em português. Mas todo o conhecimento que adquiriu na juventude foi fundamental no momento em que decidiu tornar-se empreendedor. “A primeira lição que aprendi foi que empresas conscientes não se baseiam na exploração de seus “stakeholders”, mas sim em cooperação e trocas voluntárias.” Os consumidores têm outras opções no mercado, os colaboradores contam com alternativas de emprego, investidores têm inúmeras possibilidades para investir seu capital e os fornecedores dispõem de vários clientes para seus produtos e serviços. “As pessoas fazem negócios voluntariamente, a fim de obter ganho mútuo.”

O livro não é uma biografia. Passagens da vida do autor servem como pano de fundo para suas ideias como homem de negócios. Mackey acredita que as empresas podem ser uma fonte para o aprendizado e o crescimento pessoal e organizacional. “O mundo precisa urgentemente de uma filosofia mais rica, mais holística e mais humanista do que a que encontramos nos livros de economia, nos ensinamentos das escolas de administração e até nas palavras e decisões de vários líderes empresariais respeitados”, diz.

Foi com essas ideias na cabeça que MacKey e Raj Sisodia, coautor do livro, fundaram em 2009 a Concious Capitalism, organização sem fins lucrativos, cujo objetivo é inspirar a criação de um número maior de empresas conscientes. Segundo eles, as organizações devem ter propósitos elevados, que sirvam aos interesses de todos os “stakeholders”. “Queremos empresas com líderes conscientes e comprometidos com os objetivos do negócio, com as pessoas com as quais lidam e com o planeta. Ansiamos por companhias com cultura e resiliência, capazes de transformar o trabalho em fonte de alegria e de satisfação. Enfim, um mundo no qual todos vivam com propósito, criatividade, liberdade e prosperidade”, escrevem.

Essa abordagem de capitalismo consciente é explicada e detalhada no livro, que se divide em quatro partes, intituladas “princípios”: Propósito, Integração de “stakeholders”, Liderança consciente e Cultura e gestão conscientes.

Segundo MacKey, a prática do capitalismo consciente não se resume a ser virtuoso ou trabalhar para fazer o bem. “Trata-se de uma maneira de pensar o negócio com muito mais consciência de seu propósito, de seus impactos sobre o mundo e de suas relações com os diversos públicos. Reflete uma noção mais profunda sobre a razão da existência das empresas e como elas podem criar mais valor.”

Mackey revela, porém, que seu aprendizado administrativo foi doloroso, porque, no início, a empresa apresentou péssimo desempenho e por muito pouco não foi à falência. “Não saber operar um negócio custou caro para nós. Em nosso primeiro ano, perdemos 50% do capital investido.” A partir daí, ele se debruçou sobre dezenas de livros de negócios, reverteu os resultados da empresa, consolidou-a e transformou-a em um caso de sucesso – mas preservando a consciência de que a fórmula do êxito não se restringe a equações frias e busca do lucro num círculo fechado de interesses imediatos.

Fonte: Marinete Veloso/Valor Econômico

 

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