Volta ao escritório requer tempo para readaptação à rotina

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0001127214LL-849x565Os desafios na hora de dar aos funcionários a possibilidade de trabalhar em casa são notórios e amplamente discutidos. No entanto, o caminho inverso não está livre de armadilhas. Ainda que o movimento de deixar o home office para voltar ao “office” da empresa – por exigência da companhia ou pela necessidade de um novo cargo – pareça natural, ele também demanda cuidado dos gestores para garantir que a readaptação seja bem-sucedida.

O trabalho a distância é hoje uma realidade para uma parte considerável dos brasileiros. Segundo o último censo do IBGE, de 2010, cerca de 20 milhões de pessoas realizam atividades profissionais em casa, o que corresponde a 23% da população ocupada e engloba todo tipo de trabalhador, tanto funcionários de empresas quanto profissionais autônomos.

Na hora de deixar essa situação para trás, a empresa deve ter a consciência de que o profissional precisa passar por um processo de ambientação. “É importante reforçar os ganhos e garantir que a pessoa tenha no gestor dela um parceiro”, diz Sonia Figueiredo, consultora sênior em gestão de talentos e carreiras da Right Management.

Para ela, o principal desafio da volta ao escritório é a readaptação ao ritmo e à rotina do trabalho no espaço físico da companhia. “Pode haver uma sensação de perda de liberdade e de diminuição do equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional”, diz.

Há outros aspectos a serem levados em conta, como a necessidade de se relacionar diariamente com colegas de trabalho – o que pode ser um problema para quem não tem facilidade de interação ou pode acabar virando fonte de dispersão e distração durante o expediente. De acordo com Sônia, o profissional também vai ter mais gastos financeiros com combustível, alimentação e até roupas.

Fábio Luz, da empresa de gestão de benefícios e despesas Ticket, trabalhou por mais de cinco anos em casa com vendas após deixar a própria Ticket em 2005. Em 2010, foi recontratado para uma posição na qual poderia trabalhar em regime de home office. Sua experiência com o trabalho a distância, inclusive, contou como diferencial para a vaga de consultor de negócios. Há cerca de seis meses, porém, ele teve a oportunidade de atuar como analista de produto em uma área diferente da empresa. Além de mudar de setor, a troca exigiria que ele passasse a atuar no escritório da companhia.

Segundo o profissional, o principal ponto foi reorganizar a rotina em função do horário, e não o contrário, como fazia em casa. “Tive que adaptar as atividades ao período no escritório, até para não consumir mais do que deveria”. Luz, que tinha um ambiente de trabalho só para ele em casa, também precisou reaprender a manter o foco mesmo com o movimento ao seu redor e o contato maior com os colegas.

Ele diz, contudo, que a disciplina que desenvolveu na época em que atuava de casa o ajudou a se integrar mais rapidamente à nova situação. Além disso, esse “background” também auxilia no contato com colegas que continuam trabalhando a distância no que diz respeito ao melhor horário para ligar ou à forma mais adequada de se comunicar por e-mail ou telefone. “Tenho a noção de como é a realidade deles no dia a dia”, diz.

Na Ticket, o home office é oferecido para os cerca de 150 profissionais da área comercial desde 2005. Segundo a gerente de benefícios, saúde e motivação, Mauri Gomes, a aceitação é grande – 90% desses funcionários dizem que não voltariam ao modelo tradicional se tivessem a chance – e a prática funciona como atrativo na hora de contratar. Essa resposta reforça a necessidade de atenção na hora de uma transição como a de Luz. “É preciso ajudar na readaptação e trabalhar a dinâmica com a equipe. É um ajuste no modelo mental da pessoa”, diz. Segundo Mauri, o RH tenta garantir que o profissional tenha apoio e que o chefe acompanhe todo o processo.

Para o professor Alvaro Mello, coordenador do Centro de Estudos de Teletrabalho e Trabalho Flexível (Cetel), da Business School São Paulo (BSP), o retorno ao escritório também pode acontecer quando o profissional não se adapta ao trabalho remoto. Ele já viu exemplos de pessoas que não se acostumaram com a perda da interação com colegas e casos em que a situação familiar não comportava a presença de um profissional em casa diariamente. “As empresas têm que estar preparadas para não tornarem a situação irreversível.”

Em sua opinião, a melhor maneira de evitar isso é dar a atenção necessária ao desenvolvimento do programa de teletrabalho antes de implementá-lo na empresa. Nos casos assessorados pelo Cetel, esse processo pode durar até seis meses. “Não é simplesmente entregar o notebook e mandar o colaborador para casa. É preciso planejar com cuidado, pois isso mexe com comportamento”, diz. Uma das principais preocupações é não isolar a pessoa do que acontece na empresa, para que ela não perca o vínculo com a organização.

Nesse sentido, estar fisicamente no escritório também traz suas vantagens, segundo Sonia. “O profissional ganha na visibilidade que passa a ter, e a interação diária pode aumentar a criatividade”, diz. Por outro lado, essa presença exige mais habilidade política para transitar no ambiente corporativo. Nessas horas, um aspecto que a volta ao “office” pode reforçar é a compatibilidade – ou não – do perfil do executivo com a cultura da empresa. “Quando se atua no modelo de home office, o impacto disso é menor”, diz.

Em casos excepcionais como o do Yahoo, que exigiu o retorno de muitos profissionais ao escritório no ano passado, há também a necessidade de resolver possíveis atritos e problemas de relacionamento entre funcionários que normalmente não se encontrariam. “Quando cada um está trabalhando de sua própria casa, a empresa nem sempre precisa tomar partido nessas situações.”

Por Letícia Arcoverde para o jornal Valor Econômico.

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