Todo mundo manipula

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Costumamos associar as ideias de manipulação e abuso a comportamentos explícitos de exploração. Em alguns casos, também reconhecemos mecanismos como a sedução, o carisma e a linguagem subliminar como formas dissimuladas de manipulação. Mas dificilmente percebemos quanto uma pessoa aparentemente manipulada também pode ser manipuladora. Essa prática insidiosa e, muitas vezes, o último recurso dos fracos, pode passar completamente despercebida na nossa rotina.

No livro “Abuso de Fraqueza e Outras Manipulações”, Marie-France Hirigoyen faz a listagem de numerosos procedimentos, como o consentimento, a doação, a confiança, a persuasão, a sedução, a influência, a dominação, a sujeição, a alienação, o narcisismo, a vampirização e ainda outros, todos como possíveis formas de manipulação.

Os assim chamados vulneráveis ou mais facilmente passíveis de ser manipulados, como idosos e crianças, são geralmente tidos como as presas mais fáceis. Mas ninguém pensa em como é importante temer não somente quem ostenta a força, mas, muitas vezes, também quem oculta a fraqueza.

Uma pergunta possível é: será que em toda personalidade manipuladora, principalmente nas mais explícitas, não se esconde uma fraqueza? Provavelmente sim, mas isso em quase nada modifica as formas de lidar com os manipuladores nem cria a esperança de que eles possam se modificar. Manipuladores explícitos não fazem terapia.

Mas como reconhecer se você, eu, nosso melhor amigo, que consideramos como vítima do patrão, do ex-marido, da ex-mulher, do governo, dos filhos, não somos também manipuladores? Minha paranoia, minhas estratégias (mesmo veladas) de sedução retórica, meu lado vitimizado, não seriam, também eles, jogos manipulativos?

Sim. Frequentemente, sim. A questão é saber até que ponto isso é nocivo para mim e para os outros, como esse jogo acontece e com que finalidades e consequências perceptíveis. Não se trata de uma disputa de bem e mal, em que o bom é aquele que nunca exerce a manipulação. Isso praticamente não existe nem seria desejável. Não sou má porque manipulei alguém para se interessar por mim ou porque fiz uso de potencialidades que uso bem.

Mas tudo tem limites. Pessoas com autoestima muito baixa, segundo a autora, querem aumentá-la a qualquer custo (aqui faço um aparte: como são estranhas essas palavras – “baixa e alta autoestima”). O desejo de sentir-se mais amado faz que, paradoxalmente, o inseguro entre em surtos de megalomania, de tanto obter resultado ao implorar por atenção. Seria o caso de um presidiário feliz porque acha que vão fazer um filme sobre sua vida.

Algumas formas inexplicáveis de masoquismo, até mesmo no plano da linguagem, poderiam facilmente se encaixar nessa ideia entortada de manipulação às avessas: é o caso famoso da “ídishe mame”, por exemplo, que, pela culpa e por armadilhas linguísticas e expressivas, aprisiona o filho quase por toda a eternidade. Uma forma de “coitadismo” dominador.

Mas as práticas mais claras de manipulação, exercidas sobre os verdadeiramente mais vulneráveis são, sem dúvida, as mais complicadas. Como proteger crianças de seus pais ou pais mais velhos de seus filhos? Como proteger fiéis de líderes religiosos?

Tudo fica ainda mais nebuloso ainda quando vamos nos dando conta de que as formas mais eficazes de manipulação ocorrem pela alienação dos manipulados. Quando uma vítima se dá conta de que está sendo manipulada, mesmo havendo dificuldades, existe chance de retorno. Mas, quando a vítima está alienada (“alien” é o estranho, o outro, a quem o “eu” se submete, pensando que não se submeteu), qualquer tentativa de esclarecimento é rechaçada pelo próprio objeto de manipulação. O que fazer? O livro não é muito útil nesse sentido, pois expõe as situações de manipulação mais do que procura resolvê-las. Pessoalmente, penso que um dos caminhos mais incisivos para desarmar o manipulador e desalienar o manipulado é pela linguagem e pela arte.

“A Metamorfose” de Kafka, por exemplo, trata de um sujeito em que o grau máximo de alienação do trabalho atingiu o próprio corpo. Sua transformação em inseto é a consumação total da coincidência entre forma e função: a burocracia o reduziu àquilo que ele já era. Um inseto. Ou seja, pela linguagem da metáfora, o máximo de alienação leva Gregor Samsa e, possivelmente, também os leitores, a um início de desalienação.

Ao verificar quanto algumas pessoas estão aprisionadas pela linguagem, pela terminologia, pelo jargão, constatamos a máxima de Roland Barthes: “O totalitarismo não é proibir de dizer. É obrigar a dizer”. Assim, pela desmontagem dos discursos, prestando atenção àquilo que falamos e como o dizemos, podemos chegar a algumas desmontagens dos processos alienadores em que estamos enredados (pois todos estamos).

É uma pena que, em seu esforço desmistificador, o próprio livro acabe caindo em alguns truques que pretende apontar. A brevidade com que aborda os assuntos é um deles. Ou seja, manipulamos sempre. Até quando tentamos esclarecer a manipulação.

Fonte: Noemi Jaffe/Valor Econômico

 

 

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