Folhetim Brasil Capítulo 7 – Preparação para Novos Protestos

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protestos 

Apesar de todo o temor de que os confrades descobrissem suas relações com o Chefe Maior, Francisnóico reuniu os Guardiões. Era de se esperar que o encontro ocorresse em uma das salas de eventos do hotel, mas o anfitrião preferiu alugar um espaço em outro lugar por temer algum tipo de inconveniência de José Lopes, o que poderia enterrar instantaneamente o secular e honroso nome da família.

Realmente, os participantes da reunião de emergência mostraram visivelmente estranheza quanto ao local escolhido para o encontro. Mas os debates fluíram mesmo assim. Cada um dos participantes vestiu o lençol branco com armação metálica e a máscara branca e passaram a caminhar de maneira errante pela sala, até que a sineta tocasse ordenando-os a sentar em alguma poltrona do anfiteatro. Cada máscara continha um sintetizador de voz, fazendo que cada manifestação fosse anônima. Tal sistemática era adotada para evitar a paixão pelas próprias ideias e o culto à personalidade.

– Meus Confrades: de acordo com nossos estudos ao longo dos séculos está evidente que a anexação da Criméia pela Rússia – caso não for revertida – vai ser o principio de instabilidades geopolíticas que podem descambar para o maior flagelo já protagonizado e sofrido pela humanidade.

– Meus Confrades: concordo com o Irmão. Mas entendo que ainda se pode evitar o pior deixando as coisas como estão e não intervindo. Afinal, o povo da Criméia deseja estar junto com a Rússia.

– Meus Confrades: Sinto discordar do último Irmão. Nesses casos a decisão seria por viabilizar a independência da região descontente. A anexação é perigosa. Além de ter efetivamente ocorrido invasão militar dos russos, a Ucrânia periga perder perto da metade de seu território – no lado Leste – e isso poderá significar o renascimento das seculares disputas territoriais no Velho Mundo, lembrando que nos últimos dias a situação de enfrentamento agravou-se. Inventamos a Comunidade Europeia, exatamente para acabar com disputas territoriais, ao mesmo tempo em que se consolida um governo continental que preserva a identidade de país e garante maior autonomia para milhares de microrregiões culturalmente distintas.

– Meus Confrades: Qualquer decisão nesse momento é incerta. Sabemos da aliança secreta entre russos e chineses que ainda têm ambições expansionistas globais. Ao mesmo tempo, internamente os líderes dos EUA se sentem impotentes, acovardados em mostrar força mais decisiva. Isso desequilibra a balança do poder geopolítico mundial. Diante da situação sou da opinião de ficarmos quietos por enquanto. Ocorrendo mais alguma não conformidade nas relações internacionais – afora a Ucrânia – aí sim acionaremos a Grande Ordem para dar conta da situação,

– Meus Confrades: Meu coração clama para que concorde com o último Irmão. Entretanto lembro que os últimos grandes conflitos da humanidade iniciaram porque resolvemos fazer vistas grossas para os pequenos movimentos geopolíticos. Quando resolvemos meter a mão, já era tarde demais.

– Meus Confrades: Chegou a hora da pausa para o lanche. Lembrando de nossas regras. A primeira refeição ocorre após uma hora de debates; a segunda duas horas após a primeira; a terceira quatro horas após; e assim por diante.

Os participantes da reunião se apressaram na alimentação. Historicamente tais debates duravam pelo menos dois dias e as conclusões não raramente eram determinadas pela necessidade de saciar a fome. Ao redor do mundo, os outros colegiados dos Guardiões também estavam em assembleia. A próxima fase seria a reunião continental e finalmente o encontro dos Grandes Irmãos Planetários, dentre os quais Francisnóico figurava.

No intervalo, o hoteleiro ligou o celular para verificar mensagens. O estômago embrulhou quando viu o recado de Bernardo.

Em São Paulo, os Maurícios estavam novamente reunidos na casa de Mauritênio.

– Mas que bode xarás. Tá tudo parado.

– Nem me diga. Os rolezinhos estão virando cult e os tais dos black blocs estão meio sumidos. E você Mauricinho, por que não sai do tablete e vem conversar um pouco?

– Pera lá galera. Viram o que aconteceu em Porto Alegre? Foi o maior auê por causa das passagens de ônibus. Em um bairro chamado Cidade Baixa, rolou pauleira. E os mascarados estavam lá.

– Sério, então vamos dar um jeito de ir para lá.

– Ih, cara. Sei lá, meu pai pode não deixar. Ele tá pegando pesado com essa história de faculdade.

– Ei, Mauritênio, fica frio. Vamos descobrir um congresso estudantil lá em Porto e você terá a desculpa perfeita.

– É, mas os nossos pais estão se falando muito depois das zoeiras no carnaval. Logo eles vão saber que vocês estarão juntos e a encrenca vai rolar.

– Tá certo. Então a saída vai ser cada um inventar uma história fora de Sampa e daí nos encontramos no Rodoanel e nos mandamos para o Sul.

– Feito. Mauricião, você consegue levar o Matogrosso junto?

– Por que eu?

– Ué, você não falou que já tinha ficado com a irmã dele? Agora o cara é teu cunhado, meu.

– Não é bem assim. Ele ainda não sabe e acho que vai me matar se descobrir.

– Então tá. Vamos só nós cinco mesmo. Lá em Porto Alegre a gente engrossa a galera. Agora vamos ligar para os nossos velhos e passar o lero.

Os Maurícios ligaram para os respectivos pais e depois de um tempo de conversa mole e muita mentira, estavam os cinco liberados para a aventura.

Cada um pegou seu bólido e aceleraram para o ponto de encontro no rodoanel (apesar de estarem juntos). Mais uma vez o potente ronco dos motores contrastava com o trânsito parado de São Paulo.

 

Depois de muito tempo amuado, Vicentinho voltava a ficar eufórico. O plano de fomentar protestos da extrema esquerda contra o Golpe de 64 e da extrema direita, a favor da Revolução de 64 tinha dado mais certo do que o esperado.

Seus infiltrados tinham conseguido inserir mensagens em ambos os grupos questionando a realização da Copa do Mundo no Brasil. As estruturas temporárias, que vai pagar? As obras dos estádios e dos pontos de acesso em atraso, quem vai concluir? Tudo isso em conjunto com a alta dos juros, o aumento dos roubos de carro e o risco de apagão minavam como nunca as possibilidades do encontro com das seleções de futebol. E depois de tal desmoralização, só iria dar peteca. Ainda bem que a mãe tinha liberado Ferdinanda do trabalho no Ministério. A sua auxiliar havia trabalhado muito bem, apesar de aparentar cada dia mais amargurada. Mas os problemas pessoais dela não eram da conta da sua conta, pensava Vicentinho.

Ferdinanda estava realmente preocupada. Apesar de não fazer nada do que Vicentinho havia mandado, ela estava começando a crer que a Copa estava correndo o risco de se tornar uma vergonha em termos de organização de evento. Afora isso, os novos escândalos envolvendo a Petrobrás e até o metrô de São Paulo poderiam desmoralizar ainda mais o Brasil. Com as eleições se aproximando, tal sopa de situações constrangedoras era a certeza de mais e mais protestos. E isso significa mais tempo dela ocupado pelo chato do Vicentinho. A resignação começava a virar ódio.

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Autor: Eduardo Starosta – Economista – Arte: Gertrude Abercrombie

Folhetim Brasil retrata o dia-a-dia da vida de alguns personagens (alguns inspirados em gente de verdade) em 2014, tangenciando os principais fatos de nosso país. Pode-se falar em algo próximo a um diário histórico com fantasia.

Originalmente, a primeira edição de Folhetim Brasil foi publicado pela Revista Digital em 2007. Agora, em 2014 estamos iniciando nova aventura em capítulos semanais, de forma a ficção acompanhar e se associar à realidade nacional no momento em que escândalos, eventos e notícias são deglutidos pela opinião pública.

O que acontecerá nos próximos capítulos? Isso ninguém, nem o próprio autor, sabe. Tudo dependerá do que acontecer nesse nosso país a cada semana. Com eleições e o mosaico da politica nacional podemos esperar qualquer coisa, menos monotonia.

 

 

 

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