O desafio de Valentina Carrasco no Teatro Colón

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Imagem1 Richard Wagner planejou apresentar o ciclo completo do Der Ring des Nibelungen durante quatro noites. Afinal, as quatro óperas que compõe a monumental tetralogia consomem 14 horas, tarefa que desafia até hoje os mais experientes intérpretes e músicos da orquestra que irá acompanha-los.

Acontece que o pianista e dirigente musical Cord Garben pensou na possibilidade de encenar a obra de Wagner em um único dia. Para isso ele preparou uma nova versão do Der Ring, com sete horas, de duração.

Cord Garben conseguiu realizar esta façanha, pois no original desta obra gigantesca existem passagens excessivamente longas, como a das sereias na primeira cena de Rheingold (são mais de 40 páginas de partitura), o relato de Wotan sobre o que aconteceu com o ouro do Reno, no segundo ato de A Valquíria, a cena das Nornas no prólogo de O Crepúsculo dos Deuses e muitas outras longas narrativas, característica das obras de Wagner.

O próprio Bernard Shaw declarou em um de seus artigos, quando cobria como crítico musical os Festivais de Bayreuth: Tristão e Isolda é uma das mais belas óperas que escutei em minha vida, mas bem que poderia durar uma hora a menos.

Concluída sua façanha de condensar o Der Ring, Cord Garben apresentou o projeto à Katharina Wagner, bisneta e atual dirigente da Fundação Richard Wagner. Ela não só aprovou o trabalho de Garben bem como, ficou fascinada pela ideia e decidiu inaugurar a nova versão no dia 27 de novembro de 2012, às vésperas do ano que iria festejar o bicentenário de nascimento de Wagner.

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Katharina Wagner 

Katharina escolheu como local do lançamento o Teatro Colón de Buenos Aires, local com sólida tradição na produção e montagem das obras de Wagner, bem como garantia de uma grande presença de público, graças a excelente demanda que o povo argentino tem pelas óperas wagnerianas. Last but not least, em caso de qualquer fracasso, a bomba não explodiria em território europeu ou norte americano. Esta conclusão é do autor que escreve estas linhas.

Havia muita expectativa e dinheiro envolvidos neste projeto: seria a primeira versão do Anel a ser interpretada em um só dia, os cenários ultramodernos projetados pela própria Katharina, a gravação do espetáculo prevendo lançamento futuro de Compact Discs e DVD’s convencionais e na versão Blue-Ray Disc.

Com exceção de uma única cantora argentina que interpretaria uma das valquírias, o restante do elenco era formado pelos cantores que tradicionalmente participam dos Festivais de Bayreuth. Entre eles citamos Linda Watson, no papel de Brünnhilde, Jukka Rasilainen como Wotan e  Andrew Shore como Alberich. O maestro escolhido foi o competente Roberto Paternostro, filho de venezianos, mas nascido na Áustria.

Os eventos que passo a narrar, nos lembram os problemas com os prazos de entregas para as obras da Copa aqui no Brasil.

Logo ao chegar, Katharina Wagner começou a reclamar que as salas de ensaios não tinham acústica ideal para os cantores. À medida que os dias passavam ela começou a surtar quando constatou que as peças do vestuário, perucas e demais adereços não estavam prontos. Faltando cinco semanas para a estréia, a bisneta de Richard Wagner reuniu todo o elenco e a equipe da produção e anunciou que estava retornando para a Alemanha naquele mesmo dia, devido à impossibilidade de trabalhar naquelas condições.

Apesar de terem sido liberados, os cantores decidiram optar por uma alternativa que permitisse a continuidade do projeto. O diretor do Teatro Colón, Pedro Pablo Garcia Caffi apresentou a jovem Valentina Carrasco como nova diretora de Produção. Esta tomou para si o comando da equipe e conseguiu que a estreia ocorresse na data marcada.

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Valentina Carrasco

As dificuldades foram imensas. O maestro Paternostro teve que ensaiar duas orquestras, já que à primeira caberia a interpretação de Rheingol e Die Walküre. A segunda orquestra ficaria com a interpretação de Siegfried e Götterdämmerung. Alguns músicos fizeram questão de participar de todo o espetáculo, mas o naipe das cordas foi todo trocado.

Outro grande problema foi a adaptação dos cantores às novas partituras, a maioria, acostumada a interpretar o Der Ring há muitos anos, teve que ensaiar duro, pois muitas centenas de frases foram suprimidas.

O baixo barítono Daniel Sumegi teve o seu maior desafio vocal: num período de nove horas ele teria que interpretar Fasolt, Hunding e Hagen papéis importantes da obra, principalmente o do último personagem.

O espetáculo teve início as 14 e 30 horas. Entre as quatro óperas ocorreram três longos intervalos para permitir que o público se alimentasse e orquestra e cantores pudessem descansar. O ciclo do Der Ring terminou as 23 e 30 horas.

Como todas as produções de Katharina Wagner, que nunca me agradaram, o Anel do Colón teve suas extravagâncias. Wotan aparece como a figura de Perón e Fricka na de Evita. Sieglinde recebe Wotan como empregada doméstica, esfregando o piso da cabana de Hunding. Fafner aparece em cadeira de Rodas e Hagen mata Siegfried com um taco de golf ao invés da tradicional lança. As valquírias estão trajadas como os gurkhas e o cenário lembra a Guerra das Malvinas.

Apesar dessas extravagâncias, devemos aplaudir a jovem Valentina Carrasco que, contrariando as dramáticas previsões de Katharina Wagner, conseguiu unir a equipe e todos se esforçaram para atingir o objetivo: estréia da versão condensada do Der Ring, no Teatro Colón de Buenos Aires no dia 27 de novembro de 2012.

Clique aqui para assistir ao depoimento de Valentina Carrasco e algumas imagens da versão reduzida:

 

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