Complacência

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Elefante na sala – crítica ao gasto público

Giambiagi e Schwartsman propuseram-se uma missão: falar claro, para alcançar um público menos afeito ao debate econômico que se passa na imprensa e na TV a cabo, e serem absolutamente verdadeiros. “Como economistas, ficamos indignados quando assistimos a algum colega mais afoito, tentando conquistar o público de suas apresentações ou o leitor de um jornal de maior circulação, falar ou escrever falsidades deslavadas, que percebemos que ele sabe serem mentiras. Temos procurado sempre – e pretendemos continuar a manter esse espírito – evitar cair nessa situação, o que se ocorresse iria nos encher de vergonha”, afiançam na apresentação.

E assim, aplicando o que aprenderam em “muitos anos” como participantes daquele debate – as “manhas” da arte da comunicação, como dizem – escreveram este livro para explicar por que o Brasil cresce menos do que pode.

A tese central é que praticamente tudo depende, numa possível caminhada em direção a taxas mais substanciosas de crescimento, de se aumentar a produtividade. Para os autores, essa deveria ser uma “obsessão nacional”. Entendendo-se que o verdadeiro desafio macroeconômico é impulsionar a capacidade de produção da economia – o chamado lado da oferta – e que a produtividade do trabalho, por definição, deve ser “o receptáculo conceitual de todas as alavancas que podemos acionar nesse esforço”, como diz o prefaciador Eduardo Loyo, “a proposta dos autores revela-se, em vez de excêntrica monomania, uma definição sumária e precisa de nossa agenda prioritária de política econômica”, composta de “ajustes e reformas” que consideram de evidente necessidade.

Em parte, isso foi feito na década de 1990, mas aí se parou, e as mudanças foram “abandonadas nos últimos dez anos”, afirmam os autores. Fez-se o Plano Real e deu-se base à melhora da distribuição de renda e ao crescimento da renda dos mais pobres, “reforçado no século atual, com o fenômeno da inclusão social”. É preciso ir adiante.

Antes de mais nada, conviria dirigir um olhar crítico para a retórica governamental, na qual os autores veem mistificações. Houve avanços, mas também é verdade que “nem começaram em 2003 nem o ‘novo modelo’ assegura sua continuidade” – eis a questão. “Aumentar o salário mínimo, estimular o crédito, engordar o gasto público e promover uma ‘lipoaspiração’ da Selic podem funcionar como ingredientes da ativação da demanda, quando é a escassez desta que está limitando a economia”. Ponto a favor, portanto. “Isso, porém, não é mais o caso. Quando as plantas estão prontas e há gente desempregada, aumentar a produção é relativamente fácil se há demanda em perspectiva pela frente: basta contratar mais gente. Quando os galpões e as máquinas são ocupados e não há mais gente sobrando para contratar, porém, tudo se torna mais difícil e desafiante, pois não basta ocupar as pessoas: é preciso que elas se tornem mais produtivas.” Em suma, “o Brasil cresceu ocupando gente, mas não se preparou devidamente para quando chegasse o momento de não mais depender da ocupação de mais e mais pessoas. Agora, esse momento está chegando.”

O que fazer? Leiam-se os 15 capítulos do livro, na ordem que se preferir, cada um com o que os autores chamam de “títulos coloquiais”: (1) Esclerose – trata da “fadiga de material” que começa a acometer a economia brasileira; (2) A narrativa – destrincha e questiona o discurso oficial acerca da política econômica; (3) A falta que ela nos faz – trata da poupança doméstica; (4) O elefante na sala – é uma crítica do crescimento do gasto público; (5) Termômetro em terra de cegos – mostra problemas do balanço de pagamentos; (6) Poucos Bernardinhos – analisa a questão da produtividade insuficiente; (7) Monumento à ponte – expõe os problemas da infraestrutura; (8) A Finlândia não é aqui – as deficiências da educação; (9) O grande mito – sobre importações e protecionismo; (10) Pimba! – o intervencionismo excessivo; (11) Milagres não existem – a importância dos incentivos, certos ou errados; (12) A regra [não] é clara – os efeitos da incerteza sobre os investimentos; (13) A grande maldição – sobre o pré-sal; (14) A tia doida ou “o Japão vai ser aqui” – sobre as questões demográficas não resolvidas; (15) A mensagem do livro, condensada.

Fonte: Cyro Andrade / Valor Econômico 

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