Ressaca de Carnaval – Folhetim Brasil 2014 – Capítulo 5

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone

 

quarta-feira-de-cinzas 

A volta de Ubatuba na quarta-feira pela manhã não poderia ser pior. O trânsito trancado e os cinco Maurícios cada qual em seu bólido acelerando os motores potentes. Foram quase 7 horas de rodovia até os rapazes chegarem na casa de Mauritênio.

A mesa de sinuca, os vídeo-games e outras diversões ficaram de fora da conversa dos amigos. Na verdade, eles trocavam mais gemidos do que palavras. O carnaval havia sido bem intenso. Baladas todas as noites com bebidas variadas acompanhadas daqueles comprimidinhos de ficar ligado. Mas a ressaca pegou forte.

O retorno na quarta-feira foi exigência do pai de Mauricinho, insistindo que seu filho e amigos precisavam começar a ter mais responsabilidade. No caso, eles cumpriram a exigência. Mas todos eles tinham sérias dificuldades em cumprir um semestre na faculdade ou mesmo ajudar nos negócios familiares.

Entretanto, entre festas e mais festas os cinco amigos arranjaram um tempo para avaliar a ação no Brás.

– O tal do Arnesto tinha que morrer justo no dia em que fomos lá dar as cara.

– E o cara ainda nem morava mais no Brás, foi para a Moca.

– Tudo bem, tudo bem. Mas acho que temos que mudar um pouco o nosso movimento.

– O que você está falando Mauricinho, vai amarelar?

– Amarelar que nada! Vocês não repararam que os rolês estão caindo de moda. Tem shoppings que até separaram lugar especial para os “do subúrbio” fazerem suas estrepolias.

– É verdade, se for por aí, o movimento do Rolex furou.

– Furou nada! Tenho certeza que são esses mesmos intrometidos que estão atrás das máscaras de black blocs.

 

– Tem certeza?

– Claro, foi você mesmo que disse para prestarmos atenção nas redes sociais. Então, lá na sauna do clube ouvi uns coroas falando que esses Black Blocs são feitos por gente que só quer anarquia e dilapidar a propriedade. E se eles pegaram umas gatas nossas nos  shoppings…

– Ei, olha lá o Bloco dos Maurícios! Vamos nessa.

E os cinco Maurícios foram para a farra com seus companheiros e só se reencontraram pessoalmente na casa de Mauritênio naquela quarta feira de cinzas. O movimento continuará depois da ressaca.

 

Para Bernardo, o carnaval foi de muito trabalho. Os três anos de vida mansa realmente tinham acabado e agora a vida se resumia à Agência.

Desde o início das atividades poucas noites tinham sido dormidas na própria casa. A esposa já não falava com ele, a não ser a respeito das contas a pagar. O filho, debochado, o chamava de turista acidental.

Não tendo outra opção, o armário da repartição acabou virando seu lar. Instalou dentro da pequena peça o frigobar e um ar-condicionado portátil, já que  não havia jeito de convencer a administração do prédio deixar o climatizador do andar ligado.

Ao mesmo tempo em que José Lopes não parava de criar problemas, a insistência do Zé Paraguai em  conseguir atestados médicos para se livrar da cana estavam dando muita dor de cabeça.

As ligações de Francisnóico eram frequentes…

– Seu Bernardo, tenha dó desse pobre homem que lhe fala! O empregado que o Senhor me arrumou está criando muitos problemas. Até entendo que ele não saiba nada de hidráulica, mas está ficando difícil explicar porque a cada dia venha uma pessoa diferente se fazendo passar por ele. E é cada vez mais trapalhadas. Semana passada veio um magrelo duns vinte e tantos anos que desligou o sistema de refrigeração por desconfiar de vazamentos que na verdade só eram condensações por conta do frio dos canos. Até descobrir a besteira perdi  15 hóspedes, três deles mensalistas que já estavam de saco cheio de besteiras anteriores.

– Fique tranquilo, tenho recursos para cobrir essas despesas eventuais.

– Eventuais? Meu hotel está virando uma verdadeira baderna. O maior movimento virou no subsolo. O amigo de vocês, sem me prestar satisfação instalou um bingo clandestino num canto e uma sala de conversas no outro, onde sempre tem uns barbudos que não param de fumar. Ai se a saúde pública ou a Polícia Federal batem por aqui…

– Isso não vai acontecer.

– Por favor, Senhor Bernardo, me tira fora desse negócio.

– Está bem, vou fazer o que você quer.

– Muito obrigado, o Senhor é um homem de bem.

– Certo, então a partir de amanhã você não precisa mais aparecer no hotel, que hoje mesmo estarei providenciando a nova direção.

– Mas o Senhor não pode fazer isso comigo (gaguejando). Esse estabelecimento é herança de meu pai. Toda a minha vida está aqui.

– Então se comporte. Não me traga mais problemas. Os prejuízos serão pagos e a sua vida não virará um inferno desde que você não me incomode mais com seus detalhezinhos.

Bernardo desligou o telefone, sabendo que Francisnóico ligaria novamente em algumas horas.

Enquanto isso não acontecia, o gestor da Agência tratou de encaminhar a solução Zé Paraguai. O teimoso se recusava a ficar uns poucos dias no reformatório ou mesmo trabalhar – mesmo que de fachada. Só queria saber de atestados médicos para não ficar em cana e isso estava difícil por conta de outros que recentemente já tinham sido flagrados usando indevidamente esse procedimento.

Mas o problema tinha que ser resolvido e ponto final. Pelo menos as ostras gratinadas estavam chegando para o Danúbio e o caso do João Pedro Bomba ainda estava quietinho.

Suspirando, Bernardo deu uma espiadela na TV portátil. De relance pensou ter visto Nelci sambando no carnaval de rua, fantasiada de galinha.

E as hemorroidas atacavam impiedosamente.

————————————————————————————————————————————————

Autor: Eduardo Starosta –

Folhetim Brasil retrata o dia-a-dia da vida de alguns personagens (alguns inspirados em gente de verdade) em 2014, tangenciando os principais fatos de nosso país. Pode-se falar em algo próximo a um diário histórico com fantasia.

Originalmente, a primeira edição de Folhetim Brasil foi publicado pela Revista Digital em 2007. Agora, em 2014 estamos iniciando nova aventura em capítulos semanais, de forma a ficção acompanhar e se associar à realidade nacional no momento em que escândalos, eventos e notícias são deglutidos pela opinião pública.

O que acontecerá nos próximos capítulos? Isso ninguém, nem o próprio autor, sabe. Tudo dependerá do que acontecer nesse nosso país a cada semana. Com eleições e o mosaico da politica nacional podemos esperar qualquer coisa, menos monotonia.

 

 

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone