Governantes e sociedade: quem serve a quem, afinal?

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Há 250 anos que a Inglaterra não vê tanta ­chuva. As tempestades têm sido uma calamidade para um povo acostumado à previsibilidade. Cidades inteiras ficaram sob as águas, cidadãos tiveram de ser retirados de casa e passaram à condição terceiro-mundista de desabrigados, gente morreu.

As consequências da desordem climática na vida dos ingleses levaram à crise no gabinete do primeiro-ministro, David Cameron. Dias atrás, Philip ­Hammond, secretário de Estado para a Defesa do governo de Sua Majestade, foi despachado, de botas e capa de chuva, para uma das regiões mais atingidas pelas tormentas.

Foi então que Hammond, homem com status de ministro, participou involuntariamente de um episódio que traduz o que é ser cidadão e o que é ser um servidor do Estado.

Em frente às câmeras de TV de todo o mundo, ele foi repreendido por uma voluntária, uma mulher do povo. “Estamos trabalhando há 48 horas. Arriscamos nossa vida para retirar as pessoas. O que falta para vocês perceberem que precisamos de ajuda?” Assessores do ministro não intervieram.

A voluntária não foi desqualificada como agente da oposição. Hammond não tentou dar explicações para o inexplicável. Apenas abaixou a cabeça diante das câmeras.

Quanto tempo será necessário até que o Brasil atinja esse nível de compreensão sobre o papel de cada um na sociedade? Quase um ano se passou desde que os primeiros protestos irromperam nas ruas do país — e, desde então, as manifestações impopulares permanecem incompreendidas.

O que as pessoas querem? Por que as reivindicações apareceram de forma tão difusa? Mais saúde, mais educação, mais segurança, menos corrupção, menos gastança. O que há por trás de tantas palavras de ordem, sem muita conexão umas com as outras?

É possível que a resposta seja mais singela do que cientistas políticos e institutos de opinião imaginam: o brasileiro comum — eu, você, seu filho, sua empregada, a amiga dela — gostaria de ser alguém cuja opinião importasse, assim como a voluntária inglesa sabe que é.

Fonte: Cláudia Vassalo / Revista Exame

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