Folhetim Brasil 2014 – Capítulo 6 – Os Guardiões

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guardiões 

Francisnóico andava mais tenso do que o normal. O ¨empregado¨ José Lopes estava lhe criando muitos problemas. Ao invés de pelo menos fingir que trabalhava, o sujeito cheio de padrinhos tomou conta das salas de máquinas do hotel, instalando bingo clandestino, fumódromo de reuniões politicas e até um engenhoso sistema de escutas telefônicas onde ele monitorava por horas as conversas de inimigos e amigos. O sujeito parecia ser competente em manter o controle sobre tudo e todos. Mas se fosse assim, como ele foi parar no reformatório?

Maldita a hora em que fez o acordo com o Chefe Maior. O hotel da família sempre fora um bom negócio, sem nunca ter contraído dívidas importantes. Entretanto, no momento em que aceitou o cunhado como gerente financeiro tudo começou a ruir. E o pior que o sujeitinho nem era da família dele, mas surgiu repentinamente como o quarto marido da irmã de sua esposa. E naquela pressão na própria cama, fez a grande besteira. Já na primeira semana de trabalho, Margarino errou feio na previsão de receita de hospedagem e gastou por conta. Depois de anos, quase uma década, Francisnóico teve de pedir ajuda do banco com capital de giro. Mais alguns meses e o hotel já estava enterrado em dívidas e sem reformas importantes.

Quando finalmente tomou coragem para falar à esposa que não dava mais para manter Margarino nos negócios, Tereza apareceu chorando no escritório.

– O que houve meu bem?

– Kátia acabou de me ligar. Margarino simplesmente arrumou as coisas e foi embora do apartamento. E sem qualquer briga.

Francisnóico suou frio. Rapidamente consultou as contas bancárias do hotel e todas estavam estouradas. Levantou-se para ir atrás do vigarista, mas ele já estava longe, com uma pequena fortuna. E o hotel estava pronto para quebrar.

A única solução encontrada foi apelar para o poder do Chefe Maior. Ele tinha um contato com o enigmático rouco e o acordo foi feito rapidamente. Se arrependimento matasse….

Agora, com o risco de se tornar apenas um empresário de fachada – dadas as ameaças de Bernardo – a única alternativa aparente seria tocar o barco até a mudança dos ventos. Mas e se estourasse alguma coisa? Melhor nem pensar.

Francisnóico sempre manteve sua vida na mais absoluta retidão. Secularmente a honra da sua família sempre esteve baseada no princípio da honra inabalada. Para Os Guardiões, qualquer tipo de negócio nebuloso significa quebrar o Pacto de Sagres.

O hoteleiro tinha a honra de presidir no continente a sociedade secreta, cujo objetivo era estudar, entender e agir ocultamente em favor da estabilidade geopolítica do mundo.

Os anseios territoriais são o combustível de ânimo para os governantes com viés autoritário. Na história recente o maior insucesso dos Guardiões foi não ter impedido o Tratado de Versalhes. E o principal êxito foi a arquitetura da Guerra Fria que – a despeito das tensões aparentes – deixava as relações entre as nações bastante estáveis através dos bastidores do poder.

Claro, houve tolerância para o que era considerado “peixe pequeno” no cenário mundial, como o corte da democratização da antiga Tchecoslováquia e a anexação do Tibete pela China. A famosa crise dos mísseis de Cuba não passou de jogo de cena para evitar atenções a outro foco muito mais perigoso para a humanidade.

Mas houve relaxamento nos últimos tempos. A queda do Muro de Berlim significou a mudança para um novo tempo no qual os próprios Guardiões questionavam a própria existência. Nem os eventos de setembro de 2011 foram convincentes para mobilizar a Sociedade, dada a errônea interpretação de que se tratava apenas de situação casual.

Entretanto, a rápida e estrategicamente inovadora anexação da Criméia à Rússia acendeu o sinal amarelo. Os Guardiões acordaram e prontamente exigiram a condução de Francisnóico.

E se os confrades descobrirem o pacto feito com o Chefe Maior, sua posição herdada dos antepassados iria abaixo… e o mundo correria risco.

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Autor: Eduardo Starosta –

Folhetim Brasil retrata o dia-a-dia da vida de alguns personagens (alguns inspirados em gente de verdade) em 2014, tangenciando os principais fatos de nosso país. Pode-se falar em algo próximo a um diário histórico com fantasia.

Originalmente, a primeira edição de Folhetim Brasil foi publicado pela Revista Digital em 2007. Agora, em 2014 estamos iniciando nova aventura em capítulos semanais, de forma a ficção acompanhar e se associar à realidade nacional no momento em que escândalos, eventos e notícias são deglutidos pela opinião pública.

O que acontecerá nos próximos capítulos? Isso ninguém, nem o próprio autor, sabe. Tudo dependerá do que acontecer nesse nosso país a cada semana. Com eleições e o mosaico da politica nacional podemos esperar qualquer coisa, menos monotonia.

 

 

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