A inovação se prova no mercado

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O líder da joint venture que traz tecnologia coreana para colocar o Brasil no mapa global da indústria de semicondutores combate a crença de que inovar é “inventar um papagaio azul que voa de costas”.

Ricardo-Felizzola-350Ricardo Felizzola costuma dizer que é “viciado” em empreender. Talvez venha daí o ímpeto que o levou a criar três grandes empresas: a Altus S/A, focada em automação industrial, a Teikon, especializada em componentes eletrônicos, e a HT, que se uniu à coreana Hana Micron para dar origem à maior encapsuladora de chips do país. Nesta entrevista, Felizzola – que também é presidente do Conselho Diretor do Programa Gaúcho de Qualidade e Produtividade (PGQP) – fala sobre os frutos desse saudável “vício” e apresenta uma visão particular sobre o que significa inovar. Para ele, é simples reconhecer uma inovação genuína: basta conferir seus indicadores de sucesso no mercado.

Por Eugênio EsberRevista Amanhã

O que há de mito e de verdade no conceito de inovação difundido no Brasil?

Muita gente faz confusão entre inovação e tecnologia. OK, a tecnologia é, muitas vezes, condição necessária para se gerar inovação. Mas não é condição suficiente. No mundo, não há evidência de que as empresas que mais investem em P&D sejam as mais inovadoras. Não existe essa relação direta. Tecnologia é meio, é recurso. A Apple não foi a Apple pelos conhecimentos técnicos e científicos do Steve Jobs. Ele mal completou o ensino superior, não fez PhD, não fez doutorado em nada, mas provou ser um dos executivos mais inovadores do mundo. Colocou no mercado produtos extremamente inovadores – criação dele e de sua interação com a tecnologia.

Qual é o vetor da inovação?

Você pode ter os ativos de inovação, pode ter uma tecnologia… Mas você precisa ter os empreendedores para levar isso ao mercado. E o mercado dirá se é uma inovação ou não. Esse é o conceito de inovação. Inovação é um sucesso de mercado. Aquilo que não faz sucesso no mercado não é inovação ainda – é invenção. As empresas inovadoras estão buscando resultados só, exclusivamente, no mercado. A inovação não acontece na universidade e não acontece na empresa. A inovação acontece no mercado.

Qual o papel do líder no processo?

O líder precisa ter muito claro que a inovação é, hoje, o meio moderno de obtenção de valor. Infelizmente, grande parte dos líderes não entende nada sobre o conceito de inovação, não compreende que por trás da tecnologia deve existir um empreendedor que é capaz de sentir o mercado, estabelecer metas de valor para a empresa e colocar todos os recursos – humanos, tecnológicos – na direção que ele estabeleceu.

Como encontrar a direção correta?

Vou citar o caso do Steve Jobs. Ele dizia: “Não trabalho com pesquisa de mercado. Não adianta eu pesquisar gente que não sabe do que eu estou falando”. Por que ele estava falando de produtos novos. Ele é que fazia o papel do consumidor, captava o que as pessoas queriam com o computador. Não que ele adivinhasse o que o mercado iria querer, mas ele tinha uma sensibilidade fantástica para conceber e lançar um produto e saber que o mercado iria comprar. Ele desafiava seus engenheiros para que trouxessem soluções, estabelecia metas para a empresa no sentido de fazer todos entenderem as necessidades do consumidor. Era um líder inovador fantástico. Veja o Google, outra empresa que inventou algo que não existia há 20 anos. Por trás daquela tecnologia teve um empreendedor que matou a charada do mercado e foi capaz de criar uma riqueza absurda, e de forma instantânea, para a companhia. Uma invenção que bombou no mercado. Isso é inovação.

Governo, universidades e empresas já conseguem falar a mesma língua para impulsionar a inovação no Brasil?

As nossas universidades já demonstram uma compreensão mais avançada sobre inovação. De um modo geral há uma evolução no conceito de que a universidade deve formar empreendedores, mais do que técnicos. É claro que as estruturas acadêmicas ainda demoram um pouco para responder, principalmente nas universidades públicas. Há muito formalismo ainda. Há as normas e controles do MEC. E é preciso entender, no caso das públicas, que existe um limitador burocrático. Você, num órgão público, não pode fazer o que quer. A vida, ali, não é fácil. Já no governo os interlocutores não são tão capacitados quanto os que encontramos nas universidades, sem o desejo de fazer qualquer crítica. Apesar de tudo, e da inércia burocrática que é própria do setor público, o governo concebeu uma lei de inovação muito moderna, construída a várias mãos – com a universidade, com o congresso, com as empresas. Ela está sendo implantada aos poucos.

Que país fornece o melhor exemplo dessa articulação?

Os Estados Unidos são o país-exemplo. Eles são realmente estados “unidos”, uma união descentralizada em que os vários Estados competem entre si. Tem um país lá dentro chamado Texas que um dia ainda vai se tornar independente… Na Califórnia, há o melhor ambiente de inovação, e ele é baseado em um sistema no qual o grande apoio do governo é cair fora e não atrapalhar. É colocar o imposto lá embaixo, apoiar fortemente ambientes universitários e fornecer educação pública de boa qualidade. É apostar no ambiente de negócios. Aqui no Brasil, temos a legislação mais complexa do mundo para fazer negócios. Você abre uma empresa e no sexto mês de vida já tem um fiscal na sua porta querendo lhe cobrar algo só porque você abriu uma empresa. E boa parte do lucro vai para o governo, o que estimula o empreendedor a se manter informal. Precisávamos ser inovadores no governo.

É nesse ambiente que você conduz um empreendimento em parceria com um grupo coreano para encapsular chips no Brasil. Como foi construída essa articulação?

Temos uma trajetória que começou há três décadas com a Altus, uma empresa de controladores programáveis que nos permitiu aprender sobre como se constroem esses negócios globais na área de tecnologia. Aprendemos como criar tecnologia própria e aprendemos também sobre nossas limitações como empresa brasileira, enfrentando concorrentes de primeira ordem, como Siemens. Depois, fundamos a Teikon, uma empresa mais industrial, para atender a uma onda de necessidade de produção de componentes para celulares e outros produtos no Brasil, com incentivos do governo dentro do regime do Processo Produtivo Básico. Era um processo industrial muito forte que nos fez chegar a abrir quatro fábricas no país. A Teikon apresentava uma carga de inovação relativamente baixa. Vinham as receitas prontas e nós tínhamos de montar aquilo. Mas pela Teikon conhecemos melhor o esforço do governo para apoiar a criação de uma indústria de semicondutores no Brasil, que já havia resultado na fábrica de chips do Ceitec, aqui no sul. E foi pela Teikon que recebemos uma proposta de parceria dos coreanos do grupo Hana para encapsular chips.

O que havia de novo nesse tipo de empreendimento, exatamente?

Bem, já havia o Ceitec, que não se sabia se seria uma estatal para produzir chips ou apenas um laboratório para o país se capacitar nesse segmento. E em São Paulo, a Smart, uma empresa de capital 100% estrangeiro, vinha obtendo um apoio forte do governo para fazer o encapsulamento de chips com tecnologia Samsung. A Smart cresceu bastante e praticamente monopolizou o fornecimento de chip de memória em um determinado segmento de mercado. Então pensamos: “Puxa, aí tem uma possibilidade de negócio”. E calhou de um parceiro externo, a Hana, da Coreia, estar procurando um parceiro no Brasil e nos procurar oferecendo a tecnologia deles para fazer algo três vezes maior que o empreendimento da Smart e que representava uma etapa nova na indústria de automação do Brasil.

E o que a HT Mícron traz de novo?

O processo de joint venture com os coreanos e a decisão de fazer a fábrica dentro de um campus como o da Unisinos, em São Leopoldo. Nunca ninguém tinha feito algo assim antes. A fábrica, do jeito que ela ficou depois de pronta, é algo novo. Não existe no hemisfério sul uma fábrica igual àquela, em termos de capacidade técnica e adequação para se fazer o que se quer fazer, que é pegar o wafer e extrair um componente encapsulado na outra ponta. A própria fábrica da Smart é muito menos capacitada do que a nossa, porque o nosso projeto é mais moderno, e o investimento foi a metade do que seria necessário se a gente não tivesse o conhecimento que os coreanos introduziram no processo. Antes mesmo da Smart, nós cumprimos todas as exigências legais e passamos a explorar o Padis, o Programa de Apoio ao Desenvolvimento da Indústria de Semicondutores, para, por exemplo, trazer máquinas sem taxa, mais rapidamente, e agilizar a produção. Nosso primeiro fornecedor de wafer, a SK Hynix, é outro exemplo. Esses caras não fornecem wafer para mais ninguém no mundo – só para nós.

O que há de inovador nisso?

Essas coisas não foram inovações. Mas se tornaram inovação na medida em que a HT terminou 2013 faturando R$ 105 milhões. Em 2012, ela faturava R$ 20 milhões, e no ano anterior faturava zero. Isso é uma inovação. Uma empresa que fatura zero, passa a 20, cresca para 105 e vai faturar R$ 300 milhões neste ano é uma inovação, porque ela dá um salto de valor. No início, a HT trabalhava com somente um cliente, a Dell. Este ano, estamos trabalhando com 20 clientes que estão entre os mais importantes do mundo. Estamos no meio da cadeia de fabricação de produtos como tablets, notebooks, desktops e, futuramente, smartphones. O fato de trabalharmos no meio da cadeia nos coloca em contato com todos os fabricantes mundiais, como Lenovo, Apple, HP, Dell, Asus e, aqui no Brasil, a Positivo. Todas essas empresas sabem, hoje, quem é a HT e o projeto da HT no Brasil – e isso em apenas cinco anos de existência. E ainda chega uma pessoa e diz: “Ah, mas você não está fazendo inovação. Você não inventou nada”.

E inventou?

Eu realmente não inventei nada, no caso da HT Mícron. Não endosso o conceito de que para inovar é preciso inventar um papagaio azul que voe de costas. Para mim, o conceito de inovação é econômico. Você precisa atender a um mercado e criar um valor instantâneo naquele mercado. São interpretações absolutamente diferentes sobre uma mesma coisa, não é? Veja, eu sou engenheiro eletrônico. Eu já fiz, na minha vida, mais de 50 projetos eletrônicos que eu poderia chamar de inovações, como circuitos novos. E, muitas vezes, não ganhei um centavo com isso. Então, eu sei, também, o que é fazer inovação criando produtos novos. Mas o que você cria só recebe o carimbo, o passaporte de “inovação”, quando se transforma em um sucesso de mercado. É a percepção dos americanos, para mim muito correta, de innovation. É para ganhar dinheiro. Não estou, claro, desmerecendo o trabalho do pesquisador, que é tremendamente importante, mas apenas combatendo a confusão de conceitos.

Até porque inovações têm origem em laboratórios e centros de pesquisa.

Sem dúvida. Concordo que quanto mais laboratório tecnológico você tem, mais aumenta suas chances de ter mais inovação. Veja o Senai e seus institutos tecnológicos, um sistema do qual eu participo. Esses laboratórios do Senai estão investindo bilhões de reais para criar recursos técnicos que são muito bons. Agora, se não houver empreendedor que puxe aquilo lá para o mercado, vai ter zero de inovação. Você não vai ter resultado no mercado, entende? E a inovação se prova no mercado. Por que a HT é um exemplo de inovação? Porque ela, em quatro anos, é maior que a Altus, poxa. E a Altus é uma das melhores empresas de tecnologia do Brasil, é inovadora, está fornecendo para a exploração do pré-sal. Mas eu, que sou sócio e fundador das duas empresas, posso dizer que a HT é um exemplo mais concreto de inovação.

Vamos voltar ao tema da inovação como resultado de uma organização ou da ação de um líder. Como você analisa a Apple de Steve Jobs?

O exemplo do Steve Jobs e da Apple só reforça o que eu estou falando. A Apple esteve para quebrar em certo momento, quando o Jobs saiu. Por que ela deixou de ser inovadora. Então, o assunto não é a Apple. É o Jobs mesmo. O assunto é a liderança. E não a tecnologia. É claro que, hoje, com a informação circulando muito rapidamente, neste ambiente de conexão global, aumentou muito a capacidade do homem de gerar coisas novas, derivadas de outras. O que surge de novo circula muito rápido entre pessoas e empresas. Isso gera uma possibilidade muito grande de geração de valor. Então, quem se prepara para surfar nesse mar de novidades tem muito mais condição de competir do que quem não está prestando atenção na conversa, entende? É aí que está o ponto. O ponto está em quem presta atenção em oportunidade, é empreendedor e empresário. Então, quem lidera os processos inovadores são as visões empreendedoras. Nós, por exemplo, no projeto HT Micron, tivemos um agente que eu destaco muito fortemente para o projeto sair. Foi a visão empreendedora do reitor da Unisinos, Ele foi ao limite do risco para fazer uma coisa completamente diferente. Qual é a universidade brasileira que tem uma fábrica de 10 mil metros quadrados dentro do parque? Nenhuma.

A PUC do Rio Grande do Sul, que tem uma integração forte com empresas de tecnologia, colocou o TecnoPUC na disputa para abrigar a fábrica da HT Micron?

A PUC queria abraçar o projeto. Ela também tem um reitor que é um grande empreendedor, o Joaquim Clotet. Nós conversamos com eles. Só que a Unisinos foi um pouco mais adiante, um pouco mais audaciosa no oferecimento de vantagens para fecharmos a parceria. Pergunta, hoje, para eles, se estão satisfeitos. Estão, e muito. Mas correram riscos, como todo empreendedor corre – ainda mais num mundo hiperconectado como o de hoje, onde tudo bomba mais rápido, para o bem ou para o mal, especialmente no campo da tecnologia. Veja o caso do Grupo X. Rapidamente o cara quebrou. Não estou botando a culpa nele, e em nenhum empreendedor. O conceito de empreendedorismo pressupõe você vencer ou você perder. Com muito mais possibilidade de perder…

Por falar em Grupo X, Eike Batista havia entrado de sócio no projeto da Six Semicondutores, fábrica de chips com sede em Minas. Ele adquiriu 33% do capital. O governo, via BNDES, tem um terço do capital e a IBM outros 33%. Como fica este empreendimento?

Com a crise, o Grupo X vendeu sua participação na Six para um grupo argentino que, inclusive, também tem atividade de encapsulamento de chips na Argentina. Mas eles operam em uma área na qual já trabalhamos, e que abandonamos por questões de mercado – o negócio não se sustentou. Eu acho que a entrada destes argentinos melhora muito o projeto da Six, porque o Eike não conhecia semicondutor, e eles conhecem, são do setor. Sempre é bom que o investidor conheça o mercado.

A Six é um concorrente?

A Six é um projeto antigo, e que ainda não está em fase operacional. É um projeto diferente do que nós temos na HT Micron. A Six parte do design do componente para fazer o wafer – assim com o Ceitec, no Rio Grande do Sul. E a HT Micron é uma empresa que obtém o wafer para então fazer a finalização do produto, do semicondutor. As duas, Six e Ceitec, são empresas que fazem wafer mas têm um porte muito pequeno. Elas não podem atender as necessidades da HT Micron, que é uma empresa feita para grandes escalas e que utiliza um wafer que pouca gente fabrica no mundo. Os investimentos dos nossos fornecedores estão na casa do bilhão de dólares, enquanto os investimentos da Six e do Ceitec estão na ordem de milhões de dólares.

A Ceitec é uma estatal federal. A Six tem participação do governo no seu capital via BNDES, assim como a própria Altus, empresa do mesmo grupo da HT Micron. Qual deve ser o papel do governo na indústria brasileira de semicondutores?

É um bom debate… Vamos lá: o intervencionismo do Estado na economia produz insucessos e sucessos. A utopia liberal não rola, não funciona historicamente. Não teríamos chegado até aqui com a utopia de que o mercado resolve tudo. Outras utopias, da esquerda, tentaram colocar o Estado em tudo. É um absurdo, também. Dividir riqueza sem antes produzi-la não faz sentido. Esta é uma vantagem do Estado americano. Os caras que fundaram os EUA e escreveram a constituição do país entendiam como a riqueza era produzida. E nem por isso deixaram de criar um Estado que também é chato, que intervém. Mas aquele Estado sabe gerar riqueza. Aqui, não. Os caras que escreveram nossa constituição não sabem nada a respeito disso. Eles acham que a riqueza já existe, e que você tem que pegar o rico e… Nosso estado deprecia a riqueza, entende a riqueza como se fosse uma ofensa. A lei é toda contra o rico. Enquanto isso, outros Estados valorizam a riqueza e tratam de cria-la. De que Estados estamos falando?

Falamos do Estado brasileiro. Ele deve ser proprietário de uma empresa de semicondutores, como o Ceitec? Deve ter participação acionária, apenas? Ou somente apoiar?

O Ceitec é produto de uma visão da comunidade – o que inclui o Estado, como parte importante. É quando todos expressam uma vontade comum: “Vem cá, o mundo está vivendo este tipo de indústria (semicondutores) e nós não temos (este tipo de) indústria aqui.” Isso aconteceu na Coréia, que eu considero o país mais inovador do mundo, pelos resultados que obteve. Lá, o Estado liderou uma revolução pelo conhecimento para que a nação saísse da miséria e pudesse disputar posições no mundo capitalista. Se você olhar, vai ver que lá na Coréia tudo foi o Estado que fez, mas não é dele. Ele criou as empresas, criou os mecanismos… Mas a Samsung, por exemplo, não é uma estatal. Ela é de uma família. Só que o Estado é sócio, é parceiro da Samsung. Enfim, em qualquer lugar, o Estado pode liderar qualquer coisa. Lá na Coréia, liderou uma revolução pelo conhecimento. Uma revolução capaz.

E aqui, do outro lado do mundo?

Aqui nós tivemos revoluções incapazes. O que funciona aqui é ideologia. “Ah, o Fulano de Tal, qual é a ideologia dele?” Mas, veja, não é ideologia o que vai determinar os sucessos no mundo competitivo de hoje. Ideologia é coisa de rico. Rico é que tem ideologia. Pobre não tem tempo para ter ideologia porque tem de levar dinheiro para dentro de casa. O ideólogo nunca traz solução econômica, e estão aí para provar vários desastres econômicos, como a Venezuela, entre tantos outros exemplos. No mundo de hoje, se você vai participar da competição do capitalismo mundial, você tem que ser competente. Tem que ter conhecimento. Nossas revoluções, na América do Sul, foram infelizmente desprovidas de conhecimento, e isso trouxe para trás muitos de nossos países. Vários deles ainda não saíram deste vício. É o caso da Argentina.

E o Brasil?

O Brasil até que não sei saiu mal. Dentro de um quadro de disputas ideológicas, e considerando o tamanho do país, até que o Brasil está em situação razoável, embora não seja nenhuma maravilha. Mas vamos comparar a atuação do Estado em dois casos em que um governo teve poderes absolutos. Nessa situação, ou você pode fechar o país, fazer uma coisa estúpida, que só vai gerar pobreza – como fez Cuba e como fez a Coréia do Norte. Ou você pode, como no caso sul-coreano, e também chinês, e também de Singapura, pensar assim: “Estou com o poder absoluto e vou para o pau, vou competir com o mundo.” Estes fenômenos asiáticos fizeram assim. Os EUA também fizeam sua revolução, só que foi no século 18 – os caras estão na frente…

Mas em um ambiente democrático, como o Brasil, é possível pensar na criação de chaebols, como são chamados os conglomerados empresariais sul-coreanos que, com forte apoio e capital do governo local, ganharam músculos para conquistas mercados mundo afora?

Pergunta complicada! A verdade é que as empresas mais fortes do mundo ainda são aquelas que foram criadas no regime democrático: são as empresas norte-americanas. A Europa também seria um exemplo, mas está perdendo força e liderança mundial por uma questão de conceito do Estado. Lá, o governo vai alimentando o cidadão de benefícios e isso não o estimula a trabalhar e empreender. Enfim, o mundo é complicado. Não há uma solução do tipo “Toma este remédio e vai lá que vai dar certo.”

Voltando ao Ceitec. É importante haver uma estatal que fabrica chips?

É importante, e continuará a ser ainda por algum tempo, talvez três ou quatro anos. Ninguém sabia fazer wafer no Brasil até a criação do Ceitec. Hoje, por causa do Ceitec, nós sabemos fazer wafer, e o país conhece todo este processo. É como enriquecer urânio, um passo importante para poder fazer a bomba atômica. Quem sabe, sabe, e quem não sabe…. O Ceitec sabe fazer wafer, é é controlado pelo governo brasileiro. A Six está recebendo tecnologia da IBM para aprender a fazer wafer, e quem é o dono da Six? Um sócio argentino, a própria IBM e o BNDES. Esta questão do controle é importante, porque o mercado de semicondutores é complexo, tem riscos, e se precisar fechar ou descontinuar a operação, o dono é quem toma a decisão. E o Ceitec é 100% do governo federal. O dia em que puder ser privatizado, será. Mas deve seguir com controle estatal por algum tempo, ainda.

Como a HT Micron se situa neste cenário?

A HT Micron é uma empresa privada, é a a única indústria de semicondutores de grande porte no Brasil e a segunda em faturamento – a primeira é a Smart, que tem capital 100% estrangeiro. Somos, portanto, o único lugar onde há um capital nacional investido em semicondutores. O projeto da HT Micron é muito grande, e já estamos no limite de nossa capacidade de investimento. Nosso faturamento, em 2014, será de R$ 320 milhões. Podemos chegar a R$ 500 milhões e evoluir para R$ 1 bilhão rapidinho, mas estamos no meio de uma cadeia produtiva e portanto sujeitos a uma dependência forte de fornecimento. Por isso eu quero que o Ceitec e o projeto Six deem certo, porque gostaria de ter parceiros dentro do país fornecendo wafer para nós.

E o que é necessário para que estes projetos, especialmente o do Ceitec, que é controlado pelo governo federal, deem certo?

Não é que eu esteja puxando a brasa para o meu assado, mas o governo deve continuar apoiando a indústria de semicondutores. Porque se trata de uma indústria nascente no Brasil, e que pode morrer daqui a quatro ou cinco anos se determinadas condições não acontecerem. Daí vem a importância de que a comunidade e o Estado assumam responsabilidades. Daí vem a importância do Padis (Programa de Apoio ao Desenvolvimento da Indústria de Semicondutores) e seus incentivos fiscais para o setor. Vejamos o caso do Ceitec. O governo está investindo não sei exatamente quanto, mas ao redor de R$ 700 milhões, na empresa. Isso é nada no segmento de semicondutores. E o governo não está fazendo mais do que a obrigação para que o país tenha algum papel nesse setor

Vê bem, Ricardo, mas eu estou te pedindo uma avaliação sob a lente econômica, não ideológica. Quer dizer, do ponto de vista dos objetivos…

Economicamente, o governo federal está gastando 600 milhões, não sei quanto ele gastou, 700 milhões, que é nada nesse segmento, R$ 700 milhões ou de dólares, no segmento que me comporta, não é nada. O governo não está fazendo mais nada do que a obrigação em nome de uma comunidade que quer, no futuro, ter algum papel nesse setor. E esse futuro não é de 4 anos, não é de 8 anos. É um futuro de 20 anos. Você não constrói um setor industrial em prazo mais curto que este. A Coréia levou 30 anos. E a Samsung recebeu do governo coreano um cheque de 500 milhões de dólares. Um valor que foi doado! A atitude do governo coreano foi mais ou menos esta: “Tá aqui, 500 milhões de reais. Se precisar mais eu te dou mais. Mas faz a indústria!” Conversa com o meu sócio na HT Micron, o Choi (Chang Ho Choi), sobre isso.

Por quê? O que ele conta?

O Choi trabalhou 30 anos na Samsung. E ele conta esta história. Ele conta como o Estado coreano fez a maior história de eletrônicos do mundo, juntamente com a família Samsung. É como se a Dilma chegasse para o Gerdau (Jorge Gerdau Johannpeter) e dissesse: “Gerdau, você vai fazer a indústria de semicondutores no Brasil. Toma aqui um cheque de R$ 1 bilhão, e vai em frente. Você têm 5 anos para fazer a indústria de semicondutores rolar no Brasil.”

Difícil de imaginar esta situação no Brasil.

Pois vou contar uma coisa. Dois anos atrás, o Seu Choi mandou uma carta para mim falando sobre uma empresa no Japão chamada Elpida. Por causa da crise de 2008, essa empresa quebrou, e o governo japonês teve de botar dinheiro porque havia ali um investimento da ordem de 8 bilhões de dólares. Era uma founder completa, que fabrica vários tipos de semicondutores e fornece para várias empresas do mundo inteiro. Pois bem, o governo colocou a empresa à venda, e assim ela ficou durante dois anos e meio. Veio uma oferta absolutamente ridícula de uma empresa americana chamada Micron. Ela dava pouco mais de 1 bilhão de dólares pela empresa, e assumia as dívidas. Uma oferta muito baixa para uma empresa que valia pelo menos 10 bilhões de dólares. Foi quando chegou a carta do Seu Choi.

E por que ele lhe escreveu a respeito desta empresa japonesa?

O Seu Choi fazia uma pergunta: por que é que o Ceitec não comprava essa empresa? Ali estavam 30 anos de conhecimento desenvolvido por engenheiros japoneses… Ele dizia que o governo japonês veria com os melhores olhos essa compra pelo Brasil. Porque o governo japonês é devedor do Brasil em razão dos negócios envolvendo a introdução da TV Digital aqui. O Japão nunca conseguiu fazer nada de semicondutores no país, etc e tal. Bom, eu humildemente, peguei a carta do seu Choi e mandei para o Ministério de Indústria e Comércio. Eu tive duas ou três calls a respeito. Pensamos no assunto. Mas aí vem o problema. Quem é o dono do Ceitec? É o governo. E você acha que rola uma operação do governo brasileiro, dono do Ceitec, comprando uma empresa privada no Japão, lá fora? O que iam dizer aqui no Brasil? “Poxa, estão dando dinheiro, dando emprego para japonês…”

Você faria este negócio?

Veja, no Japão eles já tem todo o conhecimento pronto e nós íamos ser os donos disso. Se o Ceitec tem um controlador privado, ele compraria a empresa. Sabe qual o resumo da ópera? A empresa foi vendida finalmente para a empresa americana. E hoje, dois anos depois, todos os produtos da empresa japonesa passaram a valer, três, quatro vezes mais no mundo. Foi o maior negócio feito nos últimos dois anos na indústria da eletrônica mundial. O cara comprou por 1,2 bi de dólares e a empresa e já vale os 10 bilhões de dólares de novo.

O que este episódio ilustra?

Ele mostra a diferença de reação, diante de uma oportunidade, de um dono privado e de um dono estatal. Não é uma crítica: governo é governo, empresário é empresário. Mas este negócio faria sentido para o Ceitec porque todas as empresas de semicondutores tem vários polos mundiais: fábrica nos EUA, na China, nas Filipinas… Pegar 1 bilhão de dólares ou dois e comprar esta empresa significaria não só comprar laboratórios, mas comprar mercado. E o problema do Ceitec é este: entrar no mercado. Quando controle é estatal, você tem que dar respostas burocráticas, e suas decisões são sempre muito criticadas. Por isso acho que as empresas estatais têm seu período de maturação para, depois, ser passadas adiante.

Como a Embraer?

A Embraer é um caso de sucesso brasileiro. Foi estatal por 20 anos. Quando o governo a vendeu, com cara de nojo, foi lá um cara e a transformou na quarta empresa do mundo. Privada. E o que ele mudou? Não mudou os técnicos, não mudou a capacidade da empresa, não mudou nada. Mudou só a liderança. Entrou uma liderança voltada para resultados, voltada para mercado, para a competitividade. Então, mais cedou ou mais tarde vai acontecer isso com o Ceitec. Semicondutor é um desafio para o Brasil, e acho que o Estado tem de se fazer presente de alguma forma. Mas, depois, tem de largar, porque a iniciativa de conduzir a empresa deve ser daqueles que realmente entendem de mercado, os empresários. E eles precisam ter condições de tomar decisão com velocidade.

O naufrágio das empresas do Grupo X, de Eike Batista, pode significar um retrocesso na maneira como os brasileiros veem o empreendedor e seu papel?

Eu acho que o Eike Batista é um empreendedor brasileiro tão importante quanto um guri que esteja saindo da faculdade e diz para o pai que não vai fazer concurso do Banco do Brasil e, sim, que fundará uma empresa. A importância é a mesma. O Eike teve grandes oportunidades, grandes ideias, teve muito crédito, recebeu muito crédito que deixou ele com muita responsabilidade… Ele tentou empreender. É normal um empreendedor perder, mas ele perdeu muito porque ele teve muito crédito e teve capacidade de levantar esse crédito, pois as ideias deles convenceram muita gente que tinha muito dinheiro. Eu diria que ele conseguiu o feito de ser um finalista de Wimbledon mas jogou mal a final e perdeu de três a zero. Tecnicamente quem investiu no Eike se equivocou mais que o Eike, que estava na função…

Como assim?

O empreendedor tem visões. E às vezes elas não estão corretas. Agora se tem capacidade de convencer muita gente para aquela visão e a coisa não dá certo, ele perde. O Steve Jobs foi demitido da Apple como incompetente e voltou. Então ninguém pode dizer que o Eike não voltará. Ele continua sendo o mesmo empreendedor, o mesmo cara, com as mesmas ideias. Ele vai ter outra ideia… Mas ele perdeu meu dinheiro, é o que se diz. Ele colocou à venda uma oportunidade de ganho e você comprou. A gente tem de aprender, no capitalismo, a perder. O normal do capitalismo é perder. O que aconteceu com o Eike é absolutamente normal.

Há a crítica ao financiamento público de seus projetos pré-operacionais, via BNDES.

Mas tinha de dar (financiamento) mesmo. Havia técnicos, por trás, que endossavam os projetos. Aí vem a crítica: “Mas é muito dinheiro.” É muito dinheiro porque temos poucos empreendedores. Se houvesse mais empreendedores disputando o dinheiro, os recursos seriam mais divididos, e o risco também seria mais dividido. Faltam mais Eike Batista no Brasil. Se houvesse, uns iam perder, outros iam ganhar. Está se exagerando neste caso do Eike. No Brasil, ainda somos muito primitivos nesta prática de endeusar o cara e depois demonizar o mesmo indivíduo. É só ver o Collor, tido como Caçador de Marajás e depois como o maior ladrão do mundo. Acho que ele não é nem uma coisa nem outra. Ele é o Collor. Acho que nossa tradição católica nos leva muito para esse negócio de endeusamento e, depois, crucificação. O Eike foi um empreendedor tão importante quanto um menino que está começando uma empresa. Temos de prestigiar os dois na devida dose..

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