O grande negócio da reciclagem passa pela China

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Os motoristas que entram na cidade chinesa de Guiyu são recebidos pelo flash de uma câmera automática que tira uma foto de seu carro. Segundo o guia de viagem do jornalista Adam Minter, o governo local mantém a imagem arquivada por um mês.

Por que as autoridades de Guiyu estão preocupadas com os forasteiros? A resposta é encontrada em lugares como a pequena oficina que Minter visita na cidade. Uma porta de metal com duas fechaduras de segurança leva a um galpão, onde se veem um forno industrial e ferramentas destinadas à tarefa de desmontar produtos eletrônicos descartados, cujas peças possam ser reutilizadas em brinquedos ou se prestam à recuperação de metais valiosos que encerram. Esse trabalho sujo causou envenenamento por chumbo em muitas crianças da cidade. Isso não é coisa que as autoridades municipais querem ver examinada de perto; é algo também suficientemente lucrativo para se proteger. O proprietário da oficina informa a Minter o preço de US$ 0,30 por chip Intel Pentium III – caro, devido ao elevado teor de ouro.

O livro de Minter trata das maneiras pelas quais a reciclagem se tornou um setor de produção mundial – que, segundo estimativa do autor, tem faturamento anual de US$ 500 bilhões e maior número de trabalhadores do que qualquer outro, com exceção da agricultura. Não se trata de empreendimentos impulsionados pela mesma consciência ecológica dos que separam papel e plástico para a coleta de casa em casa no Ocidente, mas pela demanda de fábricas por matérias-primas, e pela percepção de que é possível realizar lucro com o que outros jogam fora.

A reciclagem é um tema natural para um escritor cujo pai administrava um ferro-velho em Minnesota e que mora há dez anos na China, onde as fábricas processam boa parte do material descartado reutilizável do mundo. Essa não é mais a área de atuação de seu pai: os compradores que ele atendia no passado foram substituídos por instalações como a visitada por Minster na cidade de Lianyungang, onde uma enorme máquina destrói motocicletas velhas e vende o material a uma siderúrgica estatal.

Vários dos mesmos fatores que transformaram a China na fábrica do mundo também explicam por que o país despontou como o ferro-velho do mundo. A mão de obra é relativamente barata e abundante. As autoridades podem até estar tentando sanear lugares como Guiyu ou Wen’an – esta, uma aldeia onde trabalhadores que derretem plástico em salas mal-ventiladas têm tido problemas pulmonares que os deixam paralisados com 30 e poucos anos, como disse um médico ao autor. Mas muitas vezes fazem vista grossa. Mais importante é que existe demanda para a produção das usinas de reciclagem. A processadora de Raymond Li, da cidade de Shijiao, prensa 1,1 mil toneladas de luzes de árvores de Natal por ano. O cobre é vendido para fábricas de fiação elétrica e o plástico, para uma fabricante de solas de chinelos e sapatilhas.

O carinho nutrido por Minter pelo setor se revela em descrições, às vezes movidas por excessiva admiração, de suas fontes, muitas das quais empresários do Meio-Oeste americano que se fizeram por esforço próprio e intermediários chineses. Eles passam longas horas percorrendo os Estados Unidos em busca de material sucateado para enviar à China para processamento.

Minter não se furta, no entanto, a criticas. Ele cita um estudo acadêmico que detectou que as pessoas usavam mais toalhas de papel nos banheiros com lixeiras de reciclagem, e sugere que a garantia de empresas, como a Apple, de que produtos eletrônicos são reutilizáveis podem ter efeito semelhante sobre os consumidores, que tenderiam a encarar o processo como mais correto do ponto de vista ambiental e mais eficiente do que de fato é.

Como mostra “Junkyard Planet”, a reciclagem comercial efetivamente dá utilidade ao lixo, mas não é um salvo-conduto para os que, nas palavras de Minter, acham o consumo “mais divertido do que a preservação”. “Junkyard Planet: Travels in the Billion-Dollar Trash Trade” Adam Minter. Editora: Bloomsbury Press. 304 págs., US$ 16,45.

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Fonte:  Sarah Mishkin | Financial Times

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