Prontos para conquistar o mundo

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Os bolsistas do Ciência sem Fronteiras estão de volta, cheios de vontade de inovar. Resta saber se conseguirão romper o marasmo e pôr o Brasil no jogo global.

cic3aancia-sem-fronteiras1O físico Cesar Lattes foi um dos primeiros brasileiros a sair do país para se lançar à pesquisa entre pesos-pesados da academia mundial. Tinha apenas 22 anos e um doutorado incompleto quando integrou o grupo da Universidade de Bristol, na Inglaterra, que destrinchou a estrutura do átomo (trabalho pelo qual Cecil Frank Powell, o chefe da equipe, receberia um Nobel). Num vigoroso ambiente que potencializava ao máximo a investigação científica, Lattes começou a imaginar uma volta ao Brasil e escreveu ao colega José Leite Lopes, ele próprio recém-chegado de uma temporada em Princeton: “Meus planos são: aprender o mais possível e, ao voltar, colaborando com você e os demais moços capazes e de boa vontade que consigamos arranjar, tentar alguma coisa de sério, isto é, um núcleo em que se faça realmente física”. Em 1951. Lattes (que, morto em 2005, dá hoje nome à plataforma brasileira de currículos), Leite Lopes e outros “moços de boa vontade” fincaram a base sobre a qual germinaria a ciência nacional, criando o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Os jovens que ilustram estas páginas se aproximam desses desbravadores da trilha para o exterior no entusiasmo e na ambição típicos daqueles que se veem capazes de romper com o marasmo. Eles fazem parte da primeira grande leva que regressou recentemente ao Brasil depois de um ano sorvendo conhecimento em algumas das melhores universidades do mundo pelo programa Ciência sem Fronteiras, do governo federal.

Numericamente, impressionam: são 23 000 estudantes, da graduação ao pós-doutorado, que viveram em 39 países — mais de sessenta vezes o contingente exposto à experiência internacional em toda a década de 50. A temporada fora pôs parte da turma em contato com figurões da docência e com suas pesquisas na fronteira do conhecimento, e abriu a outros a oportunidade de fazer estágio em grandes empresas. Em maior ou menor grau, eles aprenderam línguas, culturas, a errar e acertar longe de casa e a trabalhar em ambientes de fartura material e intelectual. Voltar à velha rotina, para muitos, foi um choque e um momento para indagar a si mesmos: como converter toda essa vivência em algo produtivo e duradouro?

VEJA falou com 52 integrantes do grupo, os mesmos que, recém-instalados fora do Brasil, relataram suas primeiras impressões em reportagem publicada em novembro de 2012. Não há dúvida de que este último ano lhes abriu uma interessante janela para o mundo — para alguns, inclusive, marcou a estreia no exterior. A globalizada rede de contatos que construíram (em certos casos já rendendo frutos) não é só vantajosa para eles: ela também descortina caminhos para outros brasileiros que virão, este um dos aspectos mais relevantes do programa. “De repente, olhei para um celeiro de talentos que desconhecia”, diz o dinamarquês Christian Bjorbaek, que acolheu em seu laboratório de endocrinologia e metabolismo, em Harvard, o estudante de medicina Gabriel Gonçalves, 24 anos, da USP. Gabriel teve desempenho tão acima da média que recebeu convite para ficar por lá mais um ano, custeado agora pela universidade americana. Bem impressionado Bem impressionado, Bjorbaek (que dá nome ao laboratório) decidiu abrir as portas a outro bolsista da USP. É o esboço de algo que, se elevado a grande escala, pode ajudar a firmar o Brasil no mapa: são novos e valiosos elos que se formam com os melhores do mundo. “Muitas universidades brasileiras ainda vivem à margem da era global”, explica Liane Hentschke, diretora de cooperação institucional do CNPq. “O Ciência sem Fronteiras força uma abertura, fazendo com que consolidem suas áreas internacionais e olhem para fora.”

A ideia original do programa é justamente que esses jovens com a mente arejada por culturas que prezam o empreendedorismo e o mérito tragam uma nova mentalidade à academia nacional — como já ocorreu em países como China e Coreia do Sul, cuja economia foi revigorada por talentos cultivados no mundo desenvolvido. É razoável esperar isso também no Brasil, mas está claro que a missão exigirá extrema paciência e alta capacidade de adaptação. O estudante de engenharia ambiental Guilherme Iecker, de 23 anos, passou um ano submerso numa das mais avançadas pesquisas sobre a recuperação de campos do mundo, na Universidade Tecnológica de Munique (TUM). Adorou, só que a área não existe na Federal Fluminense, à qual regressou, então não pôde dar continuidade ao aprendizado. “Estando na graduação, não conseguiria abrir uma frente de estudos sobre o tema”, resigna-se ele, que conta ter absorvido, aí sim, algo replicável aqui: o método de investigação científica.

Essa turma se tornou certamente menos tolerante com os entraves que refreiam a produção científica brasileira — velhas mazelas como a escassez material e o excesso de burocracia. “Muitas vezes, eu me vejo de mãos amarradas no Brasil”, resume a bióloga Cláudia Gai, de 34 anos, que retornou depois de sete anos entre o Instituto Nacional de Pesquisas Agrônomas da França e o MIT. Ganhou bolsa por uma via do Ciência sem Fronteiras que estimula gente estabelecida no exterior (brasileiros ou não) a se basear no Brasil. Só para registrar: pós-doutora em desenvolvimento de biocombustíveis, ela aguarda há mais de três meses a chegada de uma enzima essencial para seu trabalho na Federal de Santa Catarina.

Há aspectos do programa que ainda precisam ser lapidados para que se potencializem os ganhos. Ter uma experiência profissional fora, em uma empresa ou mesmo na universidade, é segundo o edital, altamente recomendado aos alunos — mas para muita gente tem sido duro arranjar um estágio. O CNPq fez um levantamento numa amostra de 5 300 bolsistas e concluiu que quase a metade — 44% — não conseguiu. Quem costura os elos com o mercado no exterior são agências especializadas locais, que esbarram ora na falta de cultura desse tipo de vínculo de trabalho em seus países, ora na própria crise econômica que alguns enfrentam. Ainda assim, a grande maioria (73%) acredita que a temporada fora vai dar impulso à futura carreira. Recentes ajustes no programa podem melhorar as perspectivas. Mesmo que a maior pane das universidades incluídas no Ciência sem Fronteiras pertença à elite acadêmica, nem todos os estudantes foram alocados em cursos e áreas que se encaixassem perfeitamente em seu perfil. Na volta, inclusive, uma parcela não conseguiu aproveitar os créditos de lá no currículo de cá. Agora, antes de embarcar, o aluno precisa traçar seu plano de estudos junto com um professor, para que tenha um norte mais definido no exterior. “Isso é crucial para o sucesso do programa”, enfatiza o físico Glaucius Oliva, presidente do CNPq.

A meta de bolsas distribuídas — 45000 em 2013 — foi até superada. A presteza tem a ver com uma determinação da presidente Dilma Rousseff de oferecer as 101 000 bolsas prometidas até 2015 já em outubro deste ano, sincronizando com o mês das eleições. O esforço é máximo para cravar tais números. Fatores como a alta do dólar e o aumento de estudantes enviados a destinos mais caros, como Estados Unidos e Inglaterra no lugar de Portugal — que acabou riscado do programa porque muita gente nem sequer cogitava outro país —, fizeram inflar as cifras em 2013: o orçamento saltou dos 417 milhões de reais previstos inicialmente para 800 milhões. “Não vamos deixar os meninos sem bolsa” é palavra de ordem no Planalto.

Uma fonte de dor de cabeça em Brasília tem sido a lentidão do setor privado em fazer a sua parte; as empresas deveriam arcar com 25% das bolsas, mas isto não tem acontecido. A Confederação Nacional da Indústria (CNI), por exemplo, anunciou que patrocinaria a viagem de 6000 estudantes. Até hoje não pagou nenhuma. Há divergências entre o Planalto e a CNI que os emissários de Dilma estão tentando aparar. A confederação quer poder escolher os que serão agraciados com suas bolsas — estariam incluídos aí alunos do sistema Senai e profissionais indicados pelas próprias empresas: já o governo prefere que o padrão nacional de seleção prevaleça. Tomara que se entendam em prol do bom resultado dessa iniciativa, que, em sua essência, pode ajudar a forjar no país um DNA mais empreendedor e competitivo, inserindo o Brasil no tabuleiro global. Se dependesse exclusivamente da ambição dessa garotada que acaba de voltar para casa, o jogo estaria ganho.

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Autora: Helena Borges com colaboração de Cintia Thomaz

Fonte: Revista Veja

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