Os seres humanos estão mais desatentos do que nunca

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Quando observa à sua volta, o psicólogo Daniel Goleman encontra indivíduos de diferentes idades vidrados nas telas de “smartphones” e “tablets”. Ele acredita que esse hábito será decisivo para o destino da atual e das futuras gerações. As crianças crescem cada vez mais conectadas a máquinas e menos a pessoas. A prática pode ser perigosa, segundo pesquisas de neurologistas citadas por Goleman, pois o circuito social e emocional do cérebro infantil aprende por meio dos contatos e conversas com os outros. “A realidade mostra que os seres humanos estão mais desatentos do que nunca”, ele disse ao jornal Valor. “Em restaurantes, dá para perceber que os casais, numa ocasião potencialmente romântica, preferem mirar seus telefones a olhar nos olhos. A atenção está sob ataque.”

A preocupação com a capacidade de concentração da mente é um dos dois motivos pelos quais Goleman escreveu “Foco – A Atenção e Seu Papel Fundamental para o Sucesso”, seu livro mais recente, à venda agora no Brasil. O outro refere-se à crescente produção de conhecimento científico em torno da atenção humana. Embora esse seja um tema estudado nos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial, quando houve, por exemplo, a necessidade de operadores de radar ficarem alertas por horas a fio, Goleman considera a atenção “um recurso mental subestimado e pouco percebido” nas relações sociais.

Assim como nos seus seis livros dedicados à inteligência emocional, assunto que o alçou à lista de best-sellers nos anos 1990 e lhe rendeu duas indicações ao Prêmio Pulitzer, Goleman alia em “Foco” o relato de experiências pessoais às descobertas mais recentes nos campos da neurologia e da psicologia. Ele se diz cauteloso quando lida com as tecnologias digitais. “Não tenho um “tablet”, mas possuo um “smartphone”, que uso apenas em viagens. Ambos representam uma ameaça à minha concentração”, afirma. “Quando escrevo, tranco-me em um estúdio atrás da minha casa, onde não há nem telefone para interromper meu raciocínio.”

O autor de “Inteligência Emocional” (Objetiva) vê problemas, nos efeitos causados pela rotina voltada à consulta incessante de e-mails e mídias sociais. Recentemente, um colega de Goleman, professor universitário que leciona cinema, não avançava na leitura de uma biografia de François Truffaut (1932-1984), um dos seus diretores preferidos. A cada duas páginas, interrompia a leitura para conferir se havia uma mensagem nova no seu correio eletrônico. “Acho que estou perdendo minha capacidade de manter a concentração em qualquer coisa séria”, disse a Goleman. Outro amigo, o editor John Falk, teve muita dificuldade para passar as férias numa praia tropical depois de “aprender a gostar de viver num fluxo constante de informações e conexão”.

Casos similares de relação compulsiva com o mundo virtual e suas consequências foram relatados em livros recentes, como “O Blackberry de Hamlet” (Alaúde), de William Powers, “A Geração Superficial” (Agir), de Nicholas Carr, e “Alone Together – Why We Expect More from Technology and Less from Each Other” (Basic Books), de Sherry Turkle. Mas o alerta desses autores não causou impressão suficiente, sugere Goleman. Ele lembra que, no auge do uso do Blackberry, inventou-se “pizzled”, um adjetivo em inglês formado a partir da combinação de “puzzled” (perplexo) e “pissed” (irritado), para falar da reação provocada pela interrupção de uma conversa quando um dos interlocutores verifica seus e-mails.

O hábito de conferir novas mensagens mostrou-se vicioso e, à época, o Blackberry ganhou o apelido de “Crackberry”, uma referência à droga à base de cocaína. Segundo Goleman, o canadense Erving Goffman (1922-1982), um dos sociólogos mais influentes do século XX, definiu como “um fora” a decisão de navegar no Facebook enquanto se conversa ao vivo com outra pessoa. Quem faz isso indica não estar interessado no aqui e agora. Na opinião de Goleman, a decepção com o descaso alheio tornou-se mais rara, pois a mente desatenta durante a interação social virou a norma. Grave é que “a desatenção afeta de modo crescente não só as relações sociais, mas o desempenho escolar e o profissional”, afirma.

Em “Foco”, Goleman relembra a origem latina da palavra “atenção”. Seu significado primitivo era “entrar em contato com o mundo para moldar e definir uma experiência emocional”. De acordo com os psicólogos Michael Posner e Mary Rothbart, o poder de concentração fornece os mecanismos que “sustentam nossa consciência e a regulação voluntária dos nossos pensamentos e sentimentos”.
Goleman divide a atenção humana em um trio: “o foco interno”, “o foco externo” e “o foco no outro”. O equilíbrio entre esses elementos pode ser a chave para “uma vida bem vivida”. O foco interno é responsável por sintonizar o indivíduo com suas intuições e valores. O foco no outro o ajuda a conduzir as relações sociais. E o externo lhe dá pistas para entender as regras sob as quais a realidade funciona.

Segundo Goleman, Steve Jobs (1955-2011) foi um exemplo de líder bem-sucedido, por ter aplicado com mão de ferro o foco interno na estratégia de negócios da Apple. O desinteresse pelas ideias alheias tem um custo, no entanto. “O desequilíbrio causa efeitos colaterais. Jobs deu certo porque reuniu à sua volta gente com o foco interno tão forte quanto o dele. É preciso lembrar que, ao longo desse processo, vários funcionários saíram da Apple. A experiência foi única. Não acredito que a Apple manterá seu sucesso por muito tempo com a ausência de Jobs.”

Se desprezados os três focos, a empatia é ameaçada. “Quanto mais desatentos estamos, menos podemos expressar compaixão.” E aí se entra no campo minado das relações sociais. Goleman cita estudos sobre o hábito de indivíduos poderosos de ignorar pessoas impotentes. Segundo uma pesquisa de Dacher Keltner, psicólogo da Universidade da Califórnia, os ricos prestam menos atenção em quem ocupa uma posição inferior na escala social. Os pobres exibem sinais de envolvimento maior e são capazes de entender melhor as emoções de terceiros.

A desigualdade nos Estados Unidos tem crescido desde o fim dos anos 1970. Com o abismo cada vez maior entre abastados e necessitados, a empatia tende a rarear. Um projeto de lei no Congresso americano prevê um corte de 22,5% no subsídio governamental de US$ 80 bilhões destinado à compra de alimentos por famílias de baixa renda. “Essa falta de entendimento quanto à condição dos mais carentes tornou-se um enorme problema social, político e econômico”, diz Goleman. “Precisamos enfrentá-lo.” Não deixa de ser uma questão de atenção.

Fonte: Francisco Quinteiro Pires / Valor Econômico

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